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Recomeçar, como sempre

É tempo de repensar tudo. Principalmente o que pensávamos estabelecido. De rediscutir tudo. Principalmente o que pensávamos já ser consensual. De mobilizar todos. Mesmo os que sabemos que já estão motivados. De ouvir todos. Principalmente os que compreendemos perfeitamente. E depois, de construir colectivamente a resposta.

A situação que sai das eleições de ontem prenuncia tempos difíceis para a esquerda, para todos os portugueses que vivem do seu trabalho e para todo o país.

Não é irrelevante identificar todos os pequenos ou grandes episódios que se foram desenrolando nos últimos meses e desembocaram nesta catástrofe eleitoral. Passaremos certamente os próximos dias a escalpelizar a gestão desses episódios pela esquerda, a avaliar o que poderia e deveria ter sido feito de diferente e a especular quais seriam os cenários que daí decorreriam. Mas, para além desses episódios, por significativos e relevantes que sejam, importa reconhecer a vaga de fundo do crescimento da extrema-direita portuguesa – a exemplo do que se passa noutros países da Europa e do mundo e que, como nesses países, não nasceu ontem – e reflectir sobre a forma de lhe fazer frente, de a neutralizar e de recuperar para as causas e forças progressistas os trabalhadores que por agora lhes emprestam os seus votos.

Não é uma tarefa fácil. O mundo sabe-o há um século.

Há algo que sabemos que é necessário. É certamente necessário – como sempre tentámos fazer, nem sempre com êxito – que as esquerdas consigam convergir num conjunto de princípios, de propostas e de acções conjuntas. Não apenas os partidos, mas todos os movimentos sociais, grupos e pessoas que se revêem nos ideais da esquerda.

Para isso é necessário encontrarmo-nos e falar.

Não apenas fazer uma reunião, uma série de colóquios ou uns Estados Gerais onde todos estaremos de acordo no essencial, nos confortaremos na certeza de não estarmos sós e onde escamotearemos delicadamente os pormenores das divergências onde se esconde o diabo.

O nosso objectivo tem de ser definir o tipo de sociedade que queremos, delinear os caminhos para lá chegar e empenharmo-nos colectivamente nesse percurso. E também isso não será fácil.

Não basta reunir as boas vontades do costume, entrincheiradas num discurso tecnicamente sustentado e racionalmente estruturado, mas que não consegue evoluir para uma acção política consequente porque não consegue congregar vontades para além das fronteiras dos seus grupos. Precisamos certamente desses e da sua experiência, mas precisamos dos outros.

Temos de tornar claro e evidente para todos – principalmente para os que não são de esquerda – que ser de esquerda não significa pertencer a um dado partido mas sim defender um dado conjunto de princípios e de políticas que visam a construção de uma sociedade menos desigual e mais justa.

Mas antes disso, muito antes disso, precisamos, com humildade, de identificar os problemas que queremos resolver. Não os problemas que estão na nossa agenda, que estão identificados, mas os problemas que estão no quotidiano dos outros, da população, dos trabalhadores, do povo.

Sabemos que metade das razões por que os eleitores votam na extrema-direita são razões reais, dificuldades reais, problemas reais (a habitação, os transportes, a saúde ou qualquer outra).

Sabemos que a extrema-direita não possui nem de perto nem de longe soluções para eles nem se preocupa em encontrá-las. Por que razão, então, tantos eleitores preferem a retórica vazia da extrema-direita, com o seu vociferar inconsequente, em vez das soluções pensadas e justas que tantos na esquerda apresentam? Será que esses eleitores percebem estas últimas também como vazias e inconsequentes? Quantos governos à esquerda do centro resolveram ou tentaram resolver esses problemas? E essas forças de esquerda (ou à esquerda do centro) reconheceram a ineficácia das suas propostas, a lentidão das medidas e tentaram corrigi-las? Ou foram apenas repetindo a retórica e adiando as soluções?

A outra metade das razões por que os eleitores votam na extrema-direita é do domínio das percepções – fantasias enraizadas em preconceitos antigos, que reforçam respostas tribais satisfatórias precisamente porque reforçam o seu carácter tribal. Muitas (ou todas) não existem. Mas a verdade é que a esquerda, por um arrogante positivismo, não lhes dá resposta e parece, assim, ser indiferente a esses problemas.

Falo da imigração, da segurança/crime, da corrupção. A extrema-direita apresenta-os como as verdadeiras raízes de todos os outros problemas e explora as paixões primitivas do racismo e do medo. A esquerda responde com estatísticas que mostram que o problema não existe. Ainda que não exista, teremos de aceitar que ele existe quando se traduz em 58 ou 60 deputados que escarnecem da lei, atacam os direitos humanos e ameaçam tornar a vida de todos os portugueses mais dura e mais infeliz.

A esquerda tem quase tudo por refazer. É esse o nosso trabalho. Recomeçar, como sempre.
Desde o princípio e com todos os homens e mulheres de boa vontade.

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Foto: CDU
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