Começo com um pequeno toque pessoal. Há uns cinco ou sete anos, lendo o relatório anual da revista The Economist sobre as democracias do mundo, vi que eles pediam sugestões de mais critérios. O Uruguai ocupava um patamar muito alto, praticamente o único país da América Latina a figurar no primeiro pelotão das democracias consolidadas.
E me ocorreu — claro, a título de uma certa brincadeira, mas um tanto a sério também — sugerir um critério adicional, que mandei a eles em carta, dado que solicitavam contribuições: que países que tenham tido, ou tenham, um presidente chamado Mujica aumentassem 10 pontos em sua nota.
Obviamente, minha piada não me valeu nem resposta. Mas conto esta historinha para expressar o respeito que eu, como muitas pessoas de esquerda — mas não só — tributamos a esse grande político.
A história de Mujica passa por alguns grandes flashes, algumas grandes vinhetas. A principal é o contraste entre o militante revolucionário, pertencente a um dos movimentos políticos mais relevantes da América Latina nos anos de chumbo — os Tupamaros — que partiu para a luta política e armada contra uma ditadura feroz e assassina, e o governante intensamente democrático, exemplar. Lembrando que foi feroz a ditadura que se abateu sobre o Uruguai nos tempos em que os Estados Unidos promoviam ditaduras e recusavam qualquer tipo de democracia no seu quintal latino-americano. Feroz, como as do Brasil, Chile e Argentina. E na verdade de todos os países sul-americanos e vários da América Central.
Mujica, que foi um revolucionário, jamais abriu mão dos ideais progressistas. Porém, revelou-se um presidente comprometido com todos os elementos da democracia — um raro revolucionário que não desqualificou a democracia, que não quis promover uma ditadura para implantar seus ideais mais generosos e igualitários em relação à sociedade.
Sim, porque um grande problema da política de esquerda é que, para promover uma mudança no mundo que o torne mais justo socialmente, várias vezes ela adotou políticas que tornavam o Estado autoritário ou mesmo totalitário. Nada mais distante de Mujica. E essa generosidade se mostra numa vinheta, num significante poderoso.
Refiro-me ao depoimento que ele deu sobre os anos que passou no cárcere — absolutamente isolado. Não apenas impedido de conviver com outros presos ou de receber visitas de pessoas queridas, mas até mesmo proibido de ler e escrever, sem contar com livros, papel ou caneta para nada.
Nesse período, ele travou uma relação de amizade com os ratos que percorriam a cela. Ou seja, ele foi capaz de superar algo que é aversivo para a grande maioria dos humanos. Conseguiu inundar de afeto a sua relação com os pequenos roedores que formam nosso estoque maior de medo e aversão. Transformou ódio em afeição.
Nessa familiaridade com os ratos, ele talvez tenha aprendido a superar a aversão a quem não pensava como ele. Porque o ser humano é capaz de amor e também de ódio. Tanto na vida privada quanto na vida política, esses dois elementos figuram na psique humana. Talvez, o que mais comprometa a vida política seja justamente o fato de que acabamos dando mais peso ao ódio, à aversão, do que ao amor, à amizade. Até porque, não raro, o humano chama de rato a quem detesta.
Não são poucos aqueles que, na militância política, subordinam o afeto que têm pelos companheiros e correligionários ao ódio — às vezes até mesmo assassino — a quem pensa de maneira diferente. Ora, esse fator dificulta extremamente o estabelecimento de uma sociabilidade democrática.
Sugiro que haja uma ligação metafórica entre o horror que grande número de seres humanos — talvez a maioria — sente pelos ratos e camundongos e o ódio que as pessoas, pelo menos as mais politizadas, nutrem por quem pensa diferentemente delas.
Aqui mesmo no Brasil, o avanço do bolsonarismo representou um investimento fortíssimo nessa direção. Tínhamos passado por vários anos de uma certa calma nas relações políticas, como se viu, por exemplo, na forma como Fernando Henrique tornou a política, de épica em prosaica; na forma como Lula estabeleceu negociações com políticos e governantes que pensavam diferente dele; e, finalmente, na forma como Dilma Rousseff, quando foi ao enterro de Nelson Mandela na África do Sul, levou consigo no avião presidencial todos os ex-presidentes vivos, inclusive os mais distantes de sua orientação política.
Toda essa sociabilidade, lenta e preciosamente construída, foi desfeita praticamente de golpe: desde que a oposição promoveu o – repito a palavra – golpe de 2016 e, sobretudo, com seu arremate — com o governo catastrófico de Bolsonaro.
Essa calma pôde ser destruída com tanta facilidade porque é muito difícil construir, nas relações humanas, um respeito a quem pensa ou sente diferentemente da gente — pior ainda, a quem pensa ou sente de maneira oposta à nossa.
Ora, ao estabelecer relações de certo companheirismo com um inimigo — com aquele que muitos humanos veem como inimigo da nossa espécie, por aversão e por transmitir doenças (não raro, fatais) — é possível que Mujica tenha passado por uma educação sentimental. Isso lhe deu uma capacidade de respeito ao outro, de convívio com divergências, que terá sido uma de suas maiores contribuições à política.
Evidentemente, esse ponto não apaga contradições nem conflitos. Há os que consideraram Mujica pouco radical por seu gosto — sim, porque ele criticou as ditaduras da Venezuela e da Nicarágua. Sim, porque Mujica não aceitou que os fins justificassem os meios.
Mas, com isso, ele abriu espaço para um socialismo muito mais democrático do que as experiências realmente existentes. Essa talvez seja a principal contribuição que nos deixou.
E é claro que tudo isso vem junto com posturas muito diferentes de outros políticos. Tomemos, por exemplo, Gorbachev — tão festejado na Europa e no Ocidente, em parte porque tentou democratizar a União Soviética, mas também porque levou (mesmo sem querer) ao seu colapso e ao fim do comunismo no poder.
Gorbachev teve seus méritos – mas, uma vez fracassado seu projeto de abertura econômica e democratização política, ele não teve problemas em fazer anúncios para grandes marcas de luxo ocidentais. Ou seja, lucrou pessoalmente, e muito, com sua imagem pública. Isso não apaga o que fez de bom mas, entre ele e Mujica, é bom lembrar que Mujica jamais quis obter qualquer vantagem econômica com sua posição.
Ele doava 90% de seu salário presidencial. Não quis mudar de carro, mantendo um velhíssimo Fusca azul. Continuou morando numa pequena chácara, onde cultivava suas plantas e legumes. E, finalmente, quando foi convidado por um xeique árabe a vender seu carro por 1 milhão de dólares — valor muito superior ao que ele valia — ele recusou, para não lucrar com vantagens dessa natureza.
Essa modéstia e dignidade pessoais completam sua imagem: a de uma pessoa que reúne valores socialmente igualitários, respeito à divergência e modéstia — uma recusa absoluta a levar vantagem por ter sido presidente da República.
Faz falta. Fará falta. Mas continuará iluminando pelo exemplo.

