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Crianças em Gaza. Foto: Hosny Salah
Crianças em Gaza. Foto: Hosny Salah

Os nossos filhos que estão em Gaza

A imagem dos rostos das crianças palestinianas com tachos e panelas vazios à espera de um bocado de comida não me sai da cabeça. É um lampejo da crueldade a que estão sujeitas pessoas como nós, crianças como as nossas, todos os dias. Quase metade da população de Gaza são crianças com menos de 18 anos, representando cerca de 47% dos seus mais de dois milhões de habitantes. O que para nós são apenas alguns minutos na televisão enquanto jantamos, para elas é uma realidade quotidiana marcada pela violência, pela fome e pelo medo.

Sabemos que a história é longa e complexa — e que não começou a 7 de outubro de 2023. Conhecemos os argumentos repetidos para justificar o injustificável, aquilo que Pacheco Pereira chamou “a vergonha absoluta” no seu artigo de 10 de maio no Público. Mas nada pode suavizar os números: as estimativas apontam para mais de 50 mil pessoas mortas em Gaza desde outubro de 2023. Além das vidas perdidas, mais de 1,5 milhões de pessoas foram deslocadas internamente numa área de apenas 365 km², tornando a Faixa de Gaza numa das zonas mais densamente povoadas e humanitariamente mais vulneráveis do mundo.

Nas últimas semanas, num pequeno grupo de mulheres, temos conversado sobre como ajudar quem está preso naquele inferno. Já pensámos e participámos em vigílias, cartas, concentrações, moções. Tudo parece insignificante perante a magnitude do sofrimento. Mas cada gesto, por mais pequeno que pareça, conta. Cada palavra contra a apatia prevalente é um ato de resistência.

Na luta contra o apartheid na África do Sul, boicotes académicos, culturais e económicos tiveram um impacto significativo. Hoje, a causa palestiniana exige o mesmo nível de mobilização global. Recentemente uma plataforma de especialistas que trabalha para a ONU para avaliar o nível de fome em várias partes do mundo alertou para que cerca de meio milhão de palestinianos está perto de entrar em insegurança alimentar catastrófica. Médicos no terreno relatam uma escassez crítica de medicamentos.

Temos a obrigação moral de condenar esta atuação em todos os palcos que tivermos ao nosso dispor, em todas as áreas da sociedade. Enquanto política local procuro trazer o tema a público quando tenho a oportunidade de falar para uma audiência alargada e apresentei uma moção de condenação das violações dos direitos humanos e dos crimes de guerra cometidos pelo Estado de Israel contra civis palestinianos.

Como cidadãos, podemos optar por não comprar produtos que vêm de Israel. Podemos pressionar os nossos governantes para tomarem uma posição consistente com a defesa dos direitos humanos. Na área dos negócios, as empresas também podem escolher deixar de negociar com um Estado que está deliberadamente a matar à fome seres humanos, incluindo crianças. Na área da cultura e do desporto, as organizações também podem boicotar a entrada de artistas ou de equipas em grandes eventos em Portugal e na UE, manifestando uma posição de princípio, não contra artistas individuais ou atletas, mas contra aquilo que o seu país –  a sua bandeira – representa neste momento.

Recentemente, recebi, através de uma amiga empenhada na causa palestiniana, a Declaração de Objeção de Consciência de Uppsala. Este documento, redigido por docentes e investigadores suecos, declara a objeção de consciência à colaboração com instituições israelitas cúmplices da ocupação ilegal, do apartheid e do genocídio. A declaração denuncia ataques a profissionais de saúde, a trabalhadores humanitários e a funcionários da ONU, bem como a destruição de alimentos, medicamentos e infraestruturas básicas.

A área da ciência e a investigação têm especiais responsabilidades na defesa da democracia e da justiça. Como espaços de conhecimento, de reflexão crítica e promotores de valores universais, as Universidades formam novas gerações e podem despertar consciências, recusando colaborações com instituições que legitimam ou não querem saber das violações do direito internacional que estão a acontecer em Gaza e na Cisjordânia.

Fazê-lo não é apenas uma questão de solidariedade com o povo palestiniano. É um ato de defesa da nossa própria humanidade.

Acredito que as universidades e institutos de investigação portugueses têm o dever moral de seguirem o exemplo da Declaração de Uppsala e declararem objeção de consciência à colaboração com instituições israelitas cúmplices em violações do direito internacional.

Como a história tantas vezes nos recorda, o silêncio não é neutro. A coragem de jovens judeus israelitas que se recusam a servir o exército do seu país numa guerra suja contra civis só pode inspirar-nos.

Jovens como Einat Gerlitz, de 21 anos, Tal Mitnick, de 19 anos, e outros objetores de consciência recusam integrar as forças armadas de Israel, enfrentando penas de prisão e o exílio por defenderem a justiça e a dignidade humana.

Os nossos semelhantes que estão em Gaza não nasceram dos nossos ventres, só os vemos nas televisões e nos jornais, mas é nossa responsabilidade comum cuidar deles também. Como cidadãs e cidadãos conscientes devemos-lhes pelo menos não ficar em silêncio, pressionar os decisores políticos nacionais, europeus e internacionais para adotarem uma posição firme de condenação do Estado de Israel – boicote diplomático, económico, cultural – e fazer tudo ao nosso alcance para que prevaleça o direito internacional e os valores humanistas que estão na sua base. A nossa única esperança é uma ação transformadora, profundamente ética, coerente e empática, para com os filhos e filhas de outras mães e pais, como se fossem os nossos.

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AUTOR/A

  • Carla Castelo

    Ecologista, feminista, antirracista. Cofundadora da Associação Evoluir Oeiras. Vereadora independente eleita pela Coligação Evoluir Oeiras. Atualmente, gestora de comunicação e projetos. Jornalista entre 1991 e 2019.

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