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Garimpeiro de ouro. Serra Pelada, Brasil. FOTO Sebastião Salgado (1986)
Garimpeiro de ouro. Serra Pelada, Brasil. FOTO Sebastião Salgado (1986)

Sebastião Salgado, a fotografia política e humanista

Sebastião Salgado, que morreu a 23 de Maio em Paris, com 81 anos, calcorreou o mundo para nos mostrar os maiores horrores que assolam a humanidade e o planeta, a pobreza, a exploração e a guerra. Deixou-nos um imenso portfólio de sofrimento e desesperança mas onde, apesar de tudo, contra todas as probabilidades, aflora a crença na sobrevivência da dignidade humana.

Sebastião Salgado quis conhecer o mundo. O dia em que, em Paris, a sua mulher, Lélia Salgado, comprou uma máquina fotográfica para um trabalho que estava a fazer, mudou a vida do casal.

Sebastião Salgado, nascido no Estado de Minas Gerais, filho de fazendeiros, tinha seguido o percurso de muitos jovens brasileiros de classe média e média-alta. Estudou economia, envolveu-se em política na década de sessenta e exilou-se em Paris onde arranjou trabalho.

No dia em que Lélia comprou a máquina fotográfica Sebastião era economista da Organização Internacional do Café e esperava-o uma carreira no Banco Mundial. Mas o prazer que começaram a tirar da fotografia levou o casal, pouco tempo depois, a mudar de rumo: Sebastião Salgado passou a fotografar e Lélia a tentar vender as suas fotografias. Embora seja o nome de Sebastião Salgado a surgir sempre em destaque, o apoio de Lélia, trabalhando quer na pesquisa prévia dos projectos quer na promoção das fotografias e ainda criando os filhos do casal, foi essencial para que Salgado tivesse a disponibilidade e a liberdade para calcorrear o mundo, em particular África, para concretizar os projectos de ambos. Ainda antes de criarem a sua própria agência, Sebastião trabalhou para as agências Sygma, Gamma e Magnum. Nesse período esteve em Portugal a fotografar o período revolucionário inaugurado pelo 25 de Abril. Algumas dessas imagens podem ser vistas hoje e até 24 de Agosto na exposição Venham Mais Cinco, em Almada. Posteriormente, criou As Imagens da Amazónia e começou a desenvolver os seus projectos pessoais que tiveram um primeiro grande marco no projecto “Trabalhadores” (em Portugal editado pela Caminho com o título “Trabalho”) onde se firmou na corrente da fotografia humanista e social. Neste grande projecto, que documenta o fim da revolução industrial, dando protagonismo aos trabalhadores, aflora não só a sua humanidade mas também a sua formação como economista. Para além da elevada qualidade artística das imagens que produz, documenta um mundo em mudança e o fim de uma era.

O segundo grande marco da sua carreira de fotógrafo dá-se quando documenta os refugiados no trabalho “Êxodos” que o leva a fotografar, entre outros, o genocídio ocorrido no Ruanda na década de 90 do século passado. Na sequência deste projecto, chega a afirmar “Deixei de acreditar que houvesse salvação para a espécie humana. (…) Ninguém merecia viver”. Vê-mo-lo dizer estas palavras, olhando sério para a câmara, no documentário “Sal da Terra” de Wim Wenders e do seu filho Juliano Ribeiro Salgado.

Regressa à fazenda de família, entretanto desmatada, e por sugestão de Lélia resolvem replantar a mata atlântica que outrora a cobrira. No processo de restauro da mata, a comunhão com a natureza leva-o a deslocar o seu olhar das questões sociais para as ambientais, pega de novo na sua máquina fotográfica e produz o seu último grande trabalho fotográfico, “Génesis”, uma carta de amor ao planeta mas que tal como em todos os seus trabalhos, não deixa de nos alertar e de nos inquietar. Essa inquietação, eminentemente política, convoca-nos a reflectir sobre o que fazemos uns aos outros e o que fazemos à Terra.

Sebastião Salgado. Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil
Sebastião Salgado. Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil

Alvo de críticas, de mercadorizar e estetizar o sofrimento e a miséria, respondeu, numa entrevista à rádio alemã Deutsch Welle, que fotografava o que achava importante do ponto de vista político e social. Susan Sontag, no seu livro Regarding the Pain of Others de 2003, sobre Salgado escreve que desconfia da compaixão suscitada por fotografias sem qualquer reflexão, acrescentando que pensa que a reflexão deve substituir o encantamento generoso, que muitas vezes não passa de uma farsa. A visão de Sontag é certamente pertinente, mas menoriza a importância da denúncia que existe na fotografia de Sebastião Salgado. E o seu argumento tem outras falhas: a beleza das imagens não nos faz esquecer nem nos impede de reflectir no que está retratado. Mesmo que elas fossem encenadas — e não sabemos quantas são absolutamente espontâneas — as imagens não deixam de reproduzir uma situação real que partem da reflexão do fotógrafo para produzir uma reflexão em quem as vê. Ao escolher o que fotografa e as imagens que mostra o fotógrafo parte sempre de uma reflexão e de uma posição. Há todo um capital cultural que se manifesta quando se aponta a câmara e se pressiona o obturador – Eugene Smith, no seu famoso ensaio fotográfico “Country Doctor”, até contratou actores. Em “Trabalhadores”, Salgado escolhe o ponto de vista dos operários e camponeses. Não são as novas indústrias digitais emergentes, nem sequer os trabalhadores qualificados dos serviços que surgem nas imagens. É uma escolha.

Fotógrafo social, político, humanista, são várias as tentativas de classificar a sua fotografia. Mas estaremos todos de acordo que o seu trabalho se insere na fotografia documental, designação mais abrangente. Mesmo o trabalho “Génesis” é fotografia documental. Mais do que as imagens, é o projecto que conta. As imagens que se poderiam inserir na “fotografia de paisagem” ou na “fotografia de natureza”, constituem um documento da natureza no seu estado menos corrompido pela acção humana. Ao serem apresentadas dessa forma ganham um conteúdo de denúncia ou de alerta e tornam-se políticas. Os enquadramentos, a teimosia do preto e branco, afastam-nas do chamado fotojornalismo actual, cujo objectivo é ilustrar uma notícia, onde a fotografia deixou de valer por mil palavras. Sebastião Salgado faz isto tudo produzindo imagens delicadas, belas e respeitadoras daqueles que fotografa. Quem se incomoda com a dureza de algumas imagens, dever-se-ia incomodar com as causas e os responsáveis pelas situações retratadas. A empatia pelos desfavorecidos e pelas vítimas torna-o um fotógrafo documental que é também social e político. Ou, para usar uma expressão comum antes da popularização da televisão, do tempo das grandes revistas onde se publicavam grandes reportagens fotográficas, um fotógrafo humanista, ao lado de outros grandes como Henri Cartier-Bresson e Eugene Smith. Nunca deixou de querer conhecer o mundo, mostrou o que os seus olhos viram e perante as imagens que produziu deixou-nos a obrigação de fazer mais e melhor pelos nossos semelhantes e pela Terra.

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AUTOR/A

  • João M Almeida

    Nascido em Lisboa, em 1970. Paralelamente à actividade profissional e cívica, desenvolveu actividade fotográfica. Após um primeiro curso na APAF-Associação Portuguesa da Arte Fotográfica, realizou workshops com José Soudo, José Manuel Navia e Daniel Blaufuks. Foi formador na APAF e integra o colectivo MEF – Movimento de Expressão Fotográfica. Já realizou 11 exposições colectivas e individuais, tendo publicado dois livros e uma fotozine.

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