No post mortem das eleições legislativas, tem ressurgido a ideia de que o problema da esquerda é um foco excessivo na política identitária. A esquerda, diz-se, fragmentou-se em pequenas causas de defesa dos direitos de minorias, esquecendo-se da classe trabalhadora. A classe trabalhadora, zangada e farta de se sentir ignorada, transferiu o seu voto de protesto para o Chega.
Numa situação de redução de serviços públicos e erosão do estado social ao longo de vários governos, é duvidoso sugerir que a culpa da viragem à direita seja de alguns avanços em direitos sociais de ditas “minorias”. Mas vale a pena examinar mais de perto esta ideia, porque surge frequentemente e importa para pensarmos a estratégia que a esquerda deve seguir. É verdade que os partidos de esquerda alienam o eleitorado por se centrarem em políticas identitárias?
É óbvio que não. Mesmo o Bloco de Esquerda, o partido português mais conotado com política identitária, praticamente não falou de questões desse tipo durante a campanha. O foco foi em duas questões transversais à classe trabalhadora: a crise da habitação e o trabalho por turnos. O Livre focou-se em temas semelhantes. O PS nunca teve como bandeira a política identitária. E a CDU, com a sua linha marxista tradicional, tende a centrar-se na classe social, com menos atenção a outras linhas de divisão.
No geral, em Portugal os movimentos identitários – o feminismo, o anti-racismo, o movimento LGBTQI+ – são pouco expressivos. Ao contrário de muitos outros países, não tivemos um momento #MeToo. As manifestações do Dia da Mulher juntam uns poucos milhares de pessoas, numa escala minúscula. Para comparação, em 2024 contabilizaram-se meio milhão de participantes em Madrid. Mesmo um terço desse numero é inimaginável numa manifestação feminista em Lisboa. Na escola, continua a ler-se Os Lusíadas e Os Maias. Os planos de igualdade de género das Universidades de Lisboa e Porto surgiram apenas em 2022 e as questões de igualdade étnica ou racial continuam bastante fora da agenda. O movimento LGBTQI+ português é pequeno, tímido e pouco visível, com poucas pessoas LGBTQI+ assumidas a ocupar lugares relevantes na vida social.
Se os partidos não fazem da política identitária uma bandeira e os movimentos identitários são pequenos em Portugal, é difícil ver como o excesso de identitarianismo pode ser a causa do fracasso da esquerda portuguesa.
A armadilha da direita
É verdade que a direita radical se empenha em produzir a percepção de que a esquerda tem preocupações de nicho. É muito fácil encontrar alguém de esquerda a dizer algo no Instagram que soa ridículo e amplificá-lo como símbolo de toda a esquerda. Igualmente fácil é importar polémicas de outros países onde a política identitária tem um papel mais central. Tudo isto pode gerar a percepção falsa de que os partidos de esquerda “só se interessam por minorias”.
Mas esta percepção falsa não deve levar a esquerda a abandonar ou dar menos importância a projectos feministas, anti-racistas, a favor dos direitos LGBTQI+ (entre outros). Isto seria cair na armadilha da direita, que quer atacar os direitos destes grupos. Mais: se a esquerda deixar de lutar pela prevenção de violência machista e apoio às vítimas, pela correcção das desigualdades raciais profundas e contra a discriminação e os crimes de ódio, então estará a abandonar a classe trabalhadora. Pois os ditos grupos minoritários (as mulheres, as pessoas negras e outras minorias étnicas, as pessoas LGBTQI+, os imigrantes, as pessoas com deficiência, etc.) são a maioria da população. Só a percentagem de mulheres na população portuguesa é de 52%. Os imigrantes representam 16% da população residente – ainda que na maioria dos casos não sejam eleitores. E a esmagadora maioria dos elementos destes grupos incluem-se na classe trabalhadora, porque pertencer a qualquer um destes grupos implica salários mais baixos e maior risco de pobreza.
O estereótipo de um trabalhador é um homem português de mãos calejadas numa linha de montagem. Mas cuidar da classe trabalhadora não significa prestar atenção só ao que interessa aos que encaixam nesse estereótipo.
É preciso pensar no imigrante do Bangladesh ultra-precarizado, a fazer entregas para a UberEats faça chuva ou faça sol; na empregada doméstica negra que vem da periferia para limpar escritórios no centro de Lisboa ainda de noite; na pessoa trans que é despedida repetidamente dos seus empregos; ou na mulher cis branca que, embora tenha um trabalho de classe média, lida com assédio laboral e um “segundo turno” de tarefas domésticas e de cuidados quando volta a casa. Para defender estes trabalhadores, é preciso pensar nos interesses que têm em comum com os outros – mas também nas dificuldades específicas que encontram. Para isso, é preciso pensar em identidades.
Não deixar ninguém para trás
A política identitária, na sua raiz, procura precisamente combinar solidariedade com particularidade. O termo “política identitária” foi popularizado no manifesto de um grupo de ativistas negras lésbicas em Boston nos anos 70, o Coletivo do Rio Combahee. Proclamavam que “uma revolução socialista que não seja também feminista e anti-racista não garantirá a nossa liberdade”. Defendiam, por isso, espaço para intervenção política que partisse das suas preocupações específicas, que tendiam a ser marginalizadas em grupos mais amplos.
Mas não quer isto dizer que estas ativistas sugerissem separação de outros grupos. Argumentavam explicitamente a favor de uma espécie de geringonça identitária. Teciam redes e participavam em movimentos feministas (predominantemente brancos) e anti-racistas (predominantemente masculinos). “Lutamos ao lado de homens negros contra o racismo, mas também lutamos com homens negros sobre o seu sexismo”, declaravam.
A política identitária é a política de não deixar ninguém para trás, de não soltar a mão de ninguém. Não é, como diz a caricatura, a política de apenas segurar os que se parecem connosco.
Vemos política identitária neste sentido positivo a ganhar força em Portugal recentemente. O Movimento Vida Justa é um ótimo exemplo: centra os problemas das pessoas negras nas periferias urbanas, partindo de uma identidade específica para organização à volta de problemas sociais alargados como a habitação, o espaço público e o trabalho. Veja-se também a recente campanha da Associação Habita (com a UMAR, Rede 8 de Março e Vida Justa) contra a retirada de crianças a quem não consegue ter acesso a habitação, que demonstra os efeitos particularmente violentos da crise da habitação nas mulheres. Ou a solidariedade do movimento LGBTQI+ com o povo da Palestina, partindo da sua identidade para denunciar o pinkwashing israelita do genocídio na Palestina.
Não existe uma competição entre os interesses da classe trabalhadora e os interesses das minorias. São as mesmas pessoas sob duas descrições. As feministas do Coletivo do Rio Combahee escreveram em 1977: “Se as mulheres negras fossem livres, quereria dizer que todas as outras pessoas também seriam livres, já que a nossa liberdade necessitaria a destruição de todos os sistemas de opressão”. Não vamos conseguir responder à direita sem continuar a defender as pessoas por cima de quem a crescente minoria reaccionária anti-democrática quer passar, desde imigrantes a pessoas LGBTQI+. E não vamos atingir uma sociedade justa e igualitária sem darmos atenção à situação de vida da maioria da população, que é atravessada por uma confluência de identidades diversas.
Precisamos de mais política identitária e não menos.
