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Displaced Palestinians wait to receive aid - Gaza City, 26 Jun 2025 EPA-MOHAMMED SABER © 2025 LUSA
Displaced Palestinians wait to receive aid - Gaza City, 26 Jun 2025 EPA-MOHAMMED SABER © 2025 LUSA

Israel não tem perdão

Não são apenas os palestinianos que Israel aniquila com a sua política genocida. Israel espezinha na Palestina a herança cultural de que somos herdeiros e alimenta o antisemitismo que diz combater.

Este é um texto que os fanáticos do costume, sem outros argumentos que não sejam o ódio nacionalista e o fundamentalismo religioso, vão chamar anti-semita. Seria cómico se não fosse trágico.

Se há alguém que hoje defende os judeus, que tenta recuperar os últimos resquícios da sua honra e dignidade, são muitos dos que, nas ruas, nas páginas dos jornais, nas redes sociais e nas prisões israelitas, combatem a política racista, genocida e infanticida do estado de Israel.

Teria gostado de escrever acima “a política de Netanyahu”, como escrevi durante muitos anos, mas é hoje indesmentível que essa política não se resume a acções de uma quadrilha cujo furor sanguinário é alimentado pelo fanatismo religioso e pela banal corrupção mas de uma política de estado que – apesar da sua selvajaria e da sua flagrante ilegalidade – beneficia de um considerável apoio político e popular. As sondagens não dão maioria a Netanyahu numas eventuais eleições, mas ainda o apontam como o preferido pelos israelitas para o cargo de primeiro-ministro, ainda que por escassa margem.

Ao contrário de uma falsa descrição repetida à saciedade nos media, Israel é um estado não-democrático, que não reconhece a igualdade de direitos dos seus cidadãos, que define e limita esses direitos de acordo com a etnia e a religião, que não respeita os direitos humanos e que não se rege pelo primado da lei.

A coqueluche dos nazis de todo o mundo

Sei que somos todos judeus. Não pelas gotas de sangue que correm nas nossas veias, como tantos portugueses gostam de dizer, que não têm na realidade uma importância por aí além. Mas somos todos judeus porque somos (aqui sim, em grande medida) herdeiros da cultura judaica, na sua versão judaico-cristã ou não, e porque aderimos a essa tradição do livro que é, mais do que o Livro, todos os livros. Todos bebemos do Cristo judeu, de Marx, de Freud, de Einstein, de Auchwitz e de todos os autores do Holocausto, uma parte vertebral da nossa cultura e da nossa cosmovisão. E foi com o Holocausto que aprendemos, todos, a última lição da desumanidade – última lição não em termos cronológicos, sabemo-lo hoje. Tantas das minhas referências literárias, filosóficas, sociais e humanas são judaicas que nunca as poderia enumerar a todas e sempre me reclamei dessa herança. É essa herança cultural que Israel espezinha hoje com os seus crimes, preferindo tornar-se a coqueluche dos neonazis do mundo.
Israel foi – mesmo para muitos dos nunca sionistas, secretamente ansiosos de serem desmentidos no seu cepticismo – a esperança de um país diferente. Não sonhávamos que se iria tornar o pior de todos. Como se quisesse provar-nos, como dizia o fotógrafo Sebastião Salgado, que “a Humanidade não merece sobreviver”.

O que sentiria Primo Levi se soubesse que a estrela de David, a que simboliza as virtudes divinas, a que ele usou cosida no casaco, a mesma que os nazis queriam que fosse um sinal de infâmia e sub-humanidade e se transformou num símbolo do dever de memória e de aspiração mundial de justiça (“Nunca mais!”) é hoje um símbolo de limpeza étnica, de pilhagem e violações, de prisões arbitrárias, execuções sumárias, de tortura e massacres? O que sentiria se soubesse que esse é o símbolo que os soldados das “Forças de Defesa” israelitas pintam nas casas palestinianas que pilham e destroem, cujos proprietários chacinam? O que sentiria Elie Wiesel? O que sentiriam ao ver as suas aspirações a um mundo mais justo espezinhadas e escarnecidas desta forma pelo estado de Israel? O que sentiriam ao ouvir os ministros israelitas usar, para falar dos palestinianos, as mesmas expressões desumanizadoras que os nazis usavam para os descrever a eles?

Se Weimar gerou o nazismo, se o sonho da igualdade gerou Estaline, se a Revolução Americana gerou Trump, se a religião do Livro gerou Gaza, que esperança pode existir? Que esperança pode existir se a Europa de todas as esperanças e do nosso descontentamento se torna colaboracionista no genocídio? Que esperança pode existir se tantos dos que professam alinhar-se à esquerda na política são também eles colaboracionistas neste genocídio televisionado, sem vergonha, que Israel leva a cabo todos os dias?

A nossa peau de chagrin

Que esperança pode existir quando tantos governantes do mundo vestem alegremente – a começar pelos neofascistas americanos, seguidos de perto pelos ciosos alemães e por franceses e britânicos – as fardas dos novos Einsatzgruppen, jurando que a tarefa genocida em que participam é a “defesa” de Israel?

Todos matando milhares de crianças por procuração, da impante Ursula von der Leyen ao sempre optimista António Costa e passando pelo ridículo Paulo Rangel, deliciado por ser o centro das atenções e garantindo sempre que tudo se está a resolver em Gaza com a preciosa ajuda da UE. Na realidade, todos esperam cinicamente que Israel extermine todos os palestinianos, que empurre os que restam para o Sinai e que Trump construa a sua Riviera para que o problema lhes saia das televisões.

A verdade é que Israel não tem perdão. E os seus cúmplices também não – dos mais fanfarrões aos mais insignificantes, como Luís Montenegro. As mãos de todos eles escorrem sangue, sangue de homens e mulheres mortos à bomba, de crianças mortas a tiro pelos snipers, de bebés mortos de fome porque Israel não deixa entrar leite em pó para os alimentar e as mães subnutridas não conseguem produzir leite.

Que tantos políticos receiem tanto a fúria de Israel que prefiram nem impedir, nem sequer denunciar o genocídio, evitando seguir as pisadas corajosas de António Guterres, diz-nos quão baixo chegou a humanidade.

Mas Gaza ainda existe e resiste. O que resiste em Gaza é a nossa última reserva de humanidade, defendida pelos palestinianos com o seu corpo e com o corpo dos seus filhos. Não sobra muito.

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AUTOR/A

  • José Vítor Malheiros

    José Vítor Malheiros foi jornalista durante a maior parte da sua vida profissional (Expresso, Público). Tem-se dedicado como consultor e formador às áreas da comunicação nos domínios da ciência, ambiente e políticas públicas e à promoção do debate público.

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