Foi em 1955 que foi publicado o livro de Milton Mayer (1908-1986), jornalista americano de ascendência judaica, Eles Pensavam que Eram Livres. Os alemães em 1933-1945[1].
O livro resulta de um conjunto de dez entrevistas conduzidas pelo autor, após a Segunda Guerra Mundial, e relata os percursos e conceções de dez homens alemães sobre o período entre 1933 e 1945. Nas palavras do autor “Os homens com quem conversei eram banais, mas aderiram ao Partido Nazi e falam sobre as suas motivações, o crescimento do Reich a que assistiram e a cumplicidade geral com o regime que se foi instalando”. Ao lermos o livro, fica reforçada a convicção de que o silêncio individual quando é cúmplice de atrocidades várias resulta sempre em tragédias coletivas.
A dada altura Milton Mayer pergunta a um dos seus interlocutores quais tinham sido as suas motivações, e as dos seus amigos, para aderir/apoiar o partido nazi em crescimento. A resposta obtida é sintetizada da seguinte forma: medo e vantagens. Uns por medo do que lhes pudesse acontecer se não aderissem, outros porque viram vantagens pessoais nessa adesão. Garantia de emprego, salário, prosseguimento da vida dentro da normalidade, apropriação de bens aos quais de outro modo não teriam acesso. Muitos desses bens, como por exemplo apartamentos, eram propriedade de judeus obrigados a fugir da Alemanha (uma realidade relatada no filme Zona de Interesse (2024), de Jonathan Glazer) e muitos alemães enfrentavam problemas sérios de habitação nos anos 30.
Vem isto a propósito do que vai acontecendo na sociedade portuguesa pela mão e pela voz de alguns políticos sem que as instituições democráticas consigam travar a crescente onda de discriminação de género, o insulto, o racismo e a xenofobia. O episódio recente onde nomes estrangeiros de crianças (as crianças até podem ser portuguesas) foram lidos na Assembleia da República é apenas uma ilustração dos limites da indecência e do oportunismo político.
Neste caso, o medo é um instrumento de manipulação e de recusa do que é diferente e as vantagens, não sendo apenas pessoais, são sobretudo políticas e estão ao serviço de um modelo de sociedade onde a diversidade, a solidariedade, a justiça, a paz, a cooperação, a dignidade individual e coletiva, o humanismo, são ideias a combater através de práticas de intimidação, de agressão, de violência verbal e física.
Mais recentemente, Johann Chapoutot, no seu livro Les irresponsables. Qui a porté Hitler au pouvoir?[2], traça um quadro interpretativo sobre a perda de poder daquilo a que ele chama, na Alemanha dos anos 30, “Um consórcio liberal-autoritário, tecido de solidariedades de negócios, de partidos conservadores, nacionalistas e liberais, de média reacionários e de elites tradicionais, que tendo perdido todo o apoio popular (passam de 50% dos votos para 10%) pretende garantir o poder sem maioria, sem parlamento e mesmo sem democracia”. O caminho é conhecido e o resultado também.
No entanto, não nos deixemos enganar: a atuação de políticos que usam os vários palcos democráticos para atacar a democracia está facilitada porque há um lastro de permissividade e de permeabilidade a estas ideias numa parte da população portuguesa, que agora se vê, finalmente, representada nos círculos do poder político.
A educação escolar, sobretudo a que acontece na escola pública, tem de continuar a desempenhar um papel preponderante na promoção do conhecimento sobre os direitos fundamentais, sobre o direito à diferença, sobre a vida coletiva que vive de diferenças mas não necessariamente de desigualdades, articulando a singularidade de cada um com o que é comum, ultrapassando o individualismo social e construindo um chão partilhado e construído por todos. O relatório da UNESCO de 2021 sublinha o papel da educação no reforço da democracia e propõe um novo contrato social alicerçado nos direitos humanos, nos princípios da não discriminação, da justiça social, do respeito pela vida, pela dignidade humana e pela diversidade cultural.
Olhamos à nossa volta e perguntamos: onde foi que nos desencaminhámos? Onde foi que a História deixou de nos ensinar a não repetir erros passados? Onde foi que deixámos de os considerar como erros e passámos a fazer deles bandeira? Onde foi que a política deixou de se fazer respeitando a ética democrática e humanista?
O combate é ideológico e as armas são as da desmontagem sistemática das verdadeiras intenções das forças não democráticas. Dá trabalho, mas ceder ao medo para garantir certas vantagens – ou evitar desvantagens – será muito mais atentatório dos valores democráticos, da justiça social e do direito à diferença.
[1] Edição portuguesa da Tinta-da-China, 2025
[2] Gallimard, 2025

