“Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa”. Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos, no Fórum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano, desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.
Durante décadas, a União Europeia (UE) e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. Mas os dirigentes europeus confrontam-se agora com uma nova forma de domínio, mais explícita, mais transacional, que dispensa as cortesias formais do passado.
A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. Um projeto com um embrulho ideológico nobre, supostamente conjunto, para garantir a paz, democracia e a estabilidade globais. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana.
Durante décadas, a UE e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. Mas os dirigentes europeus confrontam-se agora com uma nova forma de domínio, mais explícita, mais transacional, que dispensa as cortesias formais do passado.
A UE ainda tentou dar-lhe um sentido europeu na Estratégia Europeia de Segurança (2003), na Estratégia Global da UE (2016) e na Bússola Estratégica (2022) e constitucionalizou mesmo o conceito no artigo 21.º do Tratado da União Europeia, mas ligou-o ao respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas.
Porém, na prática, este conceito transformou o direito internacional num sistema baseado em “regras” arbitrárias. E essas regras foram sendo definidas, primariamente, por Washington e sempre aceites pelos europeus que, ao longo do processo de globalização económica, se foram tornando cada vez mais vassalos dos americanos.
Tivemos, assim, a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, nem respeitou a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.
Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação da existência de armas de destruição maciça. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram[2].
Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandatos da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.
Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.
Temos casos de duplo padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.
O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.
Um exemplo flagrante deste duplo critério é a relação dos EUA com Israel, que viola inúmeras resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral da ONU, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permite levar a cabo um verdadeiro genocídio em Gaza.
Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.
E as instituições diplomáticas e de direito internacional? A ONU, a OMC, o Tribunal Internacional de Justiça? A sua autoridade foi minada, esvaziada. O sistema, como o conhecíamos, entrou em colapso.
Um exemplo flagrante deste duplo critério é a relação dos EUA com Israel, que viola inúmeras resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral da ONU, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permite levar a cabo um verdadeiro genocídio em Gaza.
O caso mais recente desta ruptura foi a acção militar dos EUA na Venezuela, em 2 de Janeiro de 2026 e a captura do presidente Nicolás Maduro e da sua mulher, para os levarem a julgamento em Nova Iorque. Esta operação exemplifica o desrespeito aberto pelo Direito Internacional: não existia qualquer resolução das Nações Unidas a autorizar a acção, nem foi apresentada uma alegação plausível de legítima defesa, tratando-se, de forma clara, de uma mudança de regime por via militar. O secretário da Defesa dos EUA, Pete Hegseth, ao anunciar o ataque, declarou que “a América está de volta” — em referência à “nova estratégia de segurança nacional” do país. Na conferência de imprensa seguinte, Trump assumiu, sem rodeios, a motivação: invocar uma versão moderna da Doutrina Monroe (“Doutrina Donroe”), segundo a qual “o domínio norte-americano no hemisfério ocidental nunca mais será questionado”.
A União Europeia e os seus países disseram, basicamente isto: “a acção é ilegal e viola a carta das Nações Unidas, mas o Estados Unidos fizeram bem”… São, de facto, excelentes vassalos!
Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, não foi apenas teórica. Teve consequências económicas tangíveis, deixando-nos perigosamente expostos ao mesmo poder que jurou proteger-nos – a Casa Branca quer mudar as regras outra vez só que, agora, quer mudá-las contra a União Europeia.
A aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, não foi apenas teórica. Teve consequências económicas tangíveis, deixando-nos perigosamente expostos ao mesmo poder que jurou proteger-nos.
É verdade que em 2023 o excedente comercial da zona euro com os Estados Unidos representou quase 1% do produto interno bruto da região. Mas esta aparente força é, também, a maior vulnerabilidade da zona euro, é uma dependência. A ameaça constante de tarifas seletivas por parte de Donald Trump não é um acidente; é a consequência direta desta dependência. Não foi por acaso que Christine Lagarde, em Davos, alertou que a Europa tem de se preparar urgentemente para as mudanças na política comercial americana.
A Doutrina Trump (ou Doutrina Donroe) é a consequência lógica de décadas de hegemonia norte-americana e da sua aceitação pelos países ocidentais. A única diferença é que a América despiu a “luva de veludo do humanitarismo” para garantir a sua hegemonia mundial face ao ascenso da China e, também, do bloco que esta criou com os BRICS.
A nova estratégia de Washington é clara: menorizar a Europa, exigir que esta pague pela sua própria defesa e, simultaneamente, reivindicar o domínio absoluto sobre todo o continente americano, explorar os seus recursos e suster e eliminar a já grande influência dos BRICS na economia da América Latina.
Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Indonésia e mais cinco países) e a Organização de Cooperação de Xangai procuram criar plataformas novas de cooperação política e económica. Rússia e China expandem instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento e discutem o comércio internacional em yuans para escapar à hegemonia do dólar.
A União Europeia, apesar do seu peso económico e diplomático, revela divisões sobre segurança colectiva. Decidiu reforçar a defesa após a invasão da Ucrânia, mas enfrenta crises internas (polarização política, desafios migratórios, Brexit) que colocam em causa a sua coesão futura.
A nova estratégia de Washington é clara: menorizar a Europa, exigir que esta pague pela sua própria defesa e, simultaneamente, reivindicar o domínio absoluto sobre todo o continente americano, explorar os seus recursos e suster e eliminar a já grande influência dos BRICS na economia da América Latina.
Vimos esta doutrina em ação de forma inequívoca. A intervenção na Venezuela que já referi foi o tiro de partida do “novo princípio Monroe”, uma declaração de que a América do Sul é, e sempre será, o seu domínio
Surgiu agora o caso da Gronelândia. A reivindicação sobre um território dinamarquês, parte da Dinamarca, país da União Europeia, não foi um capricho. Foi a expansão lógica dessa doutrina. A justificação de Trump foi explícita: a aquisição da Gronelândia é uma “necessidade de segurança nacional estratégica”. Para quê? Para a defender da China e da Rússia e para construir “a maior Cúpula Dourada de sempre” contra mísseis intercontinentais.
Note-se que China e Rússia têm um programa comum de construção de uma passagem comercial gigantesca, utilizável todo o ano, pelo Ártico, que tiraria do controlo ocidental uma fatia relevante das trocas comerciais mundiais.
Esta doutrina “Donroe” vê o multilateralismo não como uma ferramenta de cooperação, mas como um obstáculo. Qualquer instituição que possa limitar o poder de Washington é declarada inimiga dos seus interesses.
O facto é este: Donald Trump emitiu uma ordem executiva para retirar os Estados Unidos de 66 organizações internacionais. Para sermos precisos: 35 organizações internacionais, além de outras 31 que fazem parte do sistema das Nações Unidas. Isto é um ato de demolição controlada, destinado a substituir uma ordem partilhada entre vários países, pela vontade unilateral do mais forte.
Já este mês Trump aproveitou a Resolução do Conselho de Segurança de novembro (Rússia e China abstiveram-se) para a criação de um Conselho da Paz para Gaza, gerido por ele, para conceber um conselho de segurança geral também governado por ele, que tanto pode ser interpretado como uma tentativa de substituir a ONU, como apenas a de ser uma arma de poder político, económico e militar pessoal e empresarial.
Donald Trump emitiu uma ordem executiva para retirar os Estados Unidos de 66 organizações internacionais: 35 organizações internacionais e 31 que fazem parte do sistema da ONU. Isto é um ato de demolição controlada, destinado a substituir uma ordem partilhada entre vários países, pela vontade unilateral do mais forte.
Seja como for, o Conselho da Paz representa uma rutura fundamental com a ordem multilateral estabelecida após 1945. A sua filosofia de rejeição explícita das instituições existentes, a sua estrutura de poder altamente centralizada e os poderes quase absolutos conferidos ao seu Presidente, obrigatoriamente Trump, definem-no como um instrumento para a projeção da hegemonia dos EUA.
Uma análise da sua Carta fundadora revela um organismo concebido não para o consenso, mas para a ação diretiva. O modelo de adesão “pay-to-play” (os países que quiserem um lugar permanente têm de pagar mil milhões de dólares), a autoridade final de Trump sobre a interpretação da Carta e o seu poder de vetar decisões e convidar ou remover países membros sublinham uma arquitetura de poder medieval – é um suserano a conceder pedaços de poder a vassalos.
O Conselho da Paz de Trump representa uma rutura fundamental com a ordem multilateral estabelecida após 1945 e constitui um instrumento para a projeção da hegemonia dos EUA.
Entretanto, em 2024 as despesas militares atingiram níveis recorde: foram gastos 2,7 biliões (milhões de milhões) de dólares em armamento, o valor mais elevado desde 1945. A guerra Rússia–Ucrânia, as tensões EUA-China e conflitos regionais, juntamente com pressão política (nomeadamente a exigência de Trump aos aliados de maiores gastos), impulsionaram esse aumento. Como sabem, sob pressão dos EUA, os 32 países da NATO anunciaram a meta de elevar a despesa para 5% do PIB até 2035, o que implicará cerca de 3 biliões de dólares por ano no sector da defesa. Voltou o temor de “um terceiro grande conflito nuclear”.
Poderá esta nova e dura realidade forçar a Europa a procurar, finalmente, o seu próprio caminho?
Quando a ameaça mais séria e abertamente expressa ao território da União Europeia vem do aliado do Ocidente, a própria definição da NATO entra em colapso e os conceitos de Defesa habituais ficam abalados. A ameaça sobre a Gronelândia não foi um ataque à Dinamarca; foi um ataque ao conceito de segurança coletiva que sustenta a Europa ocidental há 75 anos.
Quando a ameaça mais séria ao território da União Europeia vem do aliado do Ocidente a própria definição da NATO entra em colapso e os conceitos de Defesa habituais ficam abalados. A ameaça sobre a Gronelândia foi um ataque ao conceito de segurança coletiva que sustenta a Europa ocidental há 75 anos.
Neste novo xadrez, como olham os BRICS para esta situação? Um dos objetivos centrais da política dos EUA é, precisamente, desmantelar os BRICS um por um. O caos internacional que Washington fomenta cria a oportunidade perfeita para o fazer.
Mas este caos, esta agressividade, também cria uma perigosa “janela de oportunidade” para outras potências. Se a Rússia usar este momento para encerrar a guerra na Ucrânia nos seus próprios termos, ou se a China o usar para resolver as questões do Mar do Sul da China, a ordem internacional será permanentemente alterada. E a Europa ficará a assistir, impotente.
Ou, alternativamente, a Rússia e China podem limitar-se a assistir à degradação da NATO e à zaragata no interior do bloco ocidental para ir organizando a sua vida libertando-se da dependência do dólar e das tecnológicas americanas, aumentando assim o seu poder económico e o seu poder de influência no resto do mundo, em particular no chamado “Sul Global” (a maior parte do planeta) onde, em muitos aspetos, são já mais dominantes que todo o bloco ocidental – aliás, se pensarmos bem, parece existir uma espécie de divisão do mundo com um traço que passa por Istambul.
Um dos objetivos centrais da política dos EUA é desmantelar os BRICS um por um. O caos internacional que Washington fomenta cria a oportunidade perfeita para o fazer.
Perante um aliado que os ameaça e que, com as suas ações, arrisca cimentar uma nova ordem mundial sem eles, as elites europeias não deveriam, pelo menos, considerar diversificar as suas parcerias? Tentar ganhar terreno no mundo que está para lá de Istambul?
Ou os europeus só conseguem ir acalmando a “fera” norte-americana, cedendo nos gastos com a defesa e nas importações de material bélico norte-americano, conformando-se em ficar de fora do que é decisivo para a Ucrânia, cedendo nas questões humanitárias em Gaza, cedendo na imigração, cedendo nas tarifas, cedendo e cedendo e cedendo…?
Perante um aliado que os ameaça e que, com as suas ações, arrisca cimentar uma nova ordem mundial sem eles, as elites europeias não deveriam, pelo menos, considerar diversificar as suas parcerias? Tentar ganhar terreno no mundo que está para lá de Istambul?
A complexa estrutura da União Europeia que junta 27 países diferentes, que teoricamente deveria ser a sua força, tornou-se a sua prisão, pois a divergência em situações de crise aguda é inevitável. É uma estrutura tão interligada que, quando um membro tenta defender os seus interesses, fica ainda mais preso, incapaz de se libertar e isso alimenta duas pressões: uma no sentido da desintegração da União Europeia, outra no sentido dos seus países perderem ainda mais soberania para a Comissão Europeia e federalizarem a União Europeia.
O colapso do sistema internacional pós-Guerra Fria é, portanto, a nossa nova realidade. A era de uma dependência confortável, de uma vassalagem disfarçada de parceria, acabou. O que enfrentamos agora é a ameaça de uma nova condição, despojada de qualquer ilusão, sujeita a um poder arbitrário e imprevisível. As elites europeias protestam, mas tomam medidas tímidas ou ineficazes. E o que se vê é uma transição de vassalo para escravo, como dizia o primeiro-ministro belga.
É esta transição de vassalo para escravo uma opção aceitável?
Acredito que não. Acredito que a única resposta digna, a única estratégia de sobrevivência para a Europa, deve ser outra e implica decisões autónomas, políticas, económicas e militares, a nível europeu, a nível nacional, a nível multilateral.
Nem vassalagem, nem escravidão.
[1] Este texto corresponde à intervenção inicial feita pelo autor no debate “Depois da Venezuela, a Gronelândia? A Segurança Europeia após a nova doutrina Trump” organizado pela associação Causa Pública no dia 22 de Janeiro de 2026 na Livraria Almedina do CC Atrium Saldanha, em Lisboa. No debate participaram Álvaro Vasconcelos, ex-director do Instituto de Estudos de Segurança da UE e fundador do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais de Lisboa; Ana Gomes, jurista, diplomata, ex-candidata à Presidência da República e ex-eurodeputada e o autor deste texto, Pedro Tadeu.
[2] Durante o debate, Álvaro Vasconcelos e Ana Gomes defenderam que neste caso a União Europeia se opôs à invasão do Iraque de 2003, citando um veto da França no Conselho de Segurança da ONU e a condenação da Alemanha. Na verdade, a Comissão Europeia, liderada por Romano Prodi, não fez uma condenação explícita da invasão nem identificou a sua ilegalidade, ficou-se por uma posição de lamento, de apelo ao envolvimento da ONU e de preocupação humanitária. Por outro lado, o Reino Unido (na altura membro da UE), Portugal, Itália, Espanha, Dinamarca e Países Baixos apoiaram explicitamente a invasão e vários destes países enviaram tropas para o Iraque, logo no início da invasão ou numa fase mais adiantada. Os países que entraram formalmente na UE no ano seguinte, e que já tinham estatuto de parceiro da instituição, Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia, Estónia, Letónia e Lituânia, assinaram uma “Carta dos Oito” a apoiar os norte-americanos. Apenas França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Grécia condenaram explicitamente a invasão. Na altura, o secretário de Estado norte-americano, Donald Rumsfeld, definiu esta divisão como um conflito entre a “velha Europa” e a “nova Europa”. Creio, por isso, que é justo manter a afirmação “Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram”.

