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Livros

Esta secção publica excertos e recensões de livros (recém-publicados ou não) sobre temas político-sociais relevantes. Quando possível incluímos links para livrarias online onde os livros podem ser comprados. Esta iniciativa não tem qualquer vertente comercial.

A Beleza de Um Corpo Nu. Ensaio sobre as Cidades

José António Bandeirinha
Título: A Beleza de um Corpo Nu. Ensaio sobre as Cidades
Autor: José António Bandeirinha
Prefácio: Nuno Grande
Lançamento: Março 2026
Páginas: 280
Preço: 16,90€
Edição: Tinta da China

Definir o urbano não é fácil, seguramente não é fruto de uma atitude analítica impulsiva, ao jeito da comunicação contemporânea. O Department of Economic and Social Affairs, DESA, das Nações Unidas, explica-nos que cada país define os seus critérios e, por conseguinte, torna-se muito difícil encontrar pontos de convergência. Há uma mistura de especificidades que se tentam cruzar mas é, na maior parte das vezes, um trabalho inglório. E dá alguns exemplos diferentes, usados como critério para balizar as cidades:
— áreas administrativas designadas como urbanas, determinadas cidades já conhecidas;
— qualquer lugar com município;
— um número mínimo de habitantes, que pode ir de 200 – na Dinamarca – até 20.000 – nos Países Baixos, ali mesmo ao lado;
— quaisquer combinações de cumprimento de critérios mínimos, tais como no Peru, o número de alojamentos, ou ainda o perfil das atividades económicas, a densidade populacional, ou como em Omã, onde se estabelece um determinado número de equipamentos, como escola secundária, ligações em rede com o território envolvente, centro de saúde e acesso à rede telefónica.

A partir dessa constatação, todas as considerações que se seguem são referentes ao critério da dimensão demográfica, as condições de vida dessas populações que vivem nas chamadas megacidades, ou megalópolis, não contam para nada. Mais, a própria densidade populacional, mais objetiva, se quisermos pôr nessa perspetiva, também de pouco serve, tanto faz ser Chicago como Kinshasa, é o mesmo para Xangai ou para a Cidade do México.

Há uns anos atrás, um grupo complexo e multifacetado de estudiosos e investigadores universitários tentou analisar, de um modo intensivo e multifacetado, essa definição de urbano. Juntou sociólogos/as, geógrafos/as, antropólogos/as, historiadores/as, economistas, ecólogos/as, cientistas políticos, cientistas geoespaciais, arquitetos/as, engenheiros/as civis, técnicos/as de planeamento, assistentes sociais, juristas e outros. Em causa estava a definição de urbano. Todos estes especialistas apresentaram as suas perspetivas, quer sob o ponto de vista académico, quer sobre o ponto de vista profissional. Depois, argumentaram em conformidade, tornando este livro num instrumento fundamental para quem quer que trabalhe em análise ou em projeto nas cidades contemporâneas. As conclusões, por sua vez, são extensivamente delineadas e tentam elaborar algumas sínteses. Por exemplo, constatam que as diversas disciplinas académicas e práticas profissionais têm vindo a interessar-se cada vez mais pelo tema das cidades e pela questão do urbano; alinham concordâncias e discordâncias nas respetivas concetualizações de cidade; e verificam também que, na conceção de cada uma das disciplinas, as noções de urbano e de cidade são ora convergentes, ora divergentes. Procedem depois a uma análise dos desafios associados a estas definições, apelam à intensificação do diálogo interdisciplinar, manifestando alguma esperança nos frutos que daí possam advir, mas, acima de tudo, não deixam de reconhecer que, na contemporaneidade, a definição de urbano, para já não falar na de cidade, se transformou numa tarefa quixotesca.

Ora, se a ONU não consegue alinhavar alguns conceitos básicos acerca do que é uma cidade, ou de quando podemos utilizar o qualificativo de urbano, a academia, com a sua tendência positivista para tudo esmiuçar taxonomicamente, ainda nos vai deixar mais confundidos, e cada vez menos esperançados.

É, para mim, claríssimo que algo de muito disruptivo se passou com as cidades nos últimos dois séculos. Referiremos essas transformações históricas mais à frente. Contudo, foram apenas dois séculos, numa história multimilenar, o carácter essencial das cidades foi-se mantendo e renovando, mesmo ao longo destes últimos tempos. Aliás, é essa continuidade que tantas vezes enaltecemos e elogiamos como matriz da sua resiliência, como sói dizer-se hoje em dia. Percebo perfeitamente que, do ponto de vista normativo, seja uma tarefa quixotesca tentar criar parâmetros universais para uma entidade como as cidades, ou como o urbano, tão adequadas que estão às diferentes culturas e às diferentes realidades sociais, económicas e políticas. Mas custa a acreditar que a academia e as Nações Unidas se empenhem em transferir essas dificuldades para as zonas de influência do senso comum, perturbando as sensibilidades mais urbanas e criando alarmes desnecessários, que por vezes resvalam para o catastrofismo. Uma coisa é questionar o conceito, outra coisa, muito diferente, é difamar o conceito. É inegável que as cidades sofreram uma mudança de paradigma a partir da revolução industrial, mas, ainda assim, tamanha confusão não me parece plenamente justificada. Sobretudo não me parece trazer nada de positivo quando reconhecemos, e necessitamos de enaltecer, o papel das cidades na contemporaneidade, sob os pontos de vista social e político, em primeiro lugar, mas também sob os pontos de vista ecológico, cultural e económico. 

Portanto, primeiro temos de voltar a perceber o que é uma cidade. Nos últimos anos, tenho ouvido muita gente, demasiada gente, a pedir uma definição de cidade. Em toda essa gente sinto uma certa sobranceria, a sobranceria própria dos arautos das mortes desejadas, à mistura com algum orgulho, oriundo quase sempre da iluminação filosófico-sociológica-arquitetónica-geográfico-económico-ecológico-jurídica que lhe permitiu chegar à constatação da impossibilidade de uma tal definição… 

A questão da urbanidade, ou seja, do urbano, que nos ajuda a clarificar melhor o que é uma cidade, é complexa de explicar, sobretudo se nos colocarmos num ponto de partida rígido, encerrado numa camisa de forças normativa. Há que ser paciente e flexível, para o ir procurando nos interstícios da diversidade de situações. Há outras vias para tentar clarificar o que é uma cidade? Ou o que é o urbano? Na minha opinião há, com certeza. Essa é, de resto, uma das razões pelas quais venho até vós.

José António Bandeirinha. 2025. A Beleza de um Corpo Nu. Ensaio sobre as Cidades.
Lisboa: Tinta da China. p. 53-56.

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A Beleza de um Corpo Nu. Ensaio sobre as Cidades de José António Bandeirinha
A Beleza de um Corpo Nu. Ensaio sobre as Cidades de José António Bandeirinha

AUTOR/A

  • José António Bandeirinha

    José António Bandeirinha (Coimbra, 1958).

    É arquitecto pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto (1983). Exerce profissionalmente e é Professor Catedrático do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, onde se doutorou em 2002 com uma dissertação intitulada O Processo SAAL e a Arquitectura no 25 de Abril de 1974.

    Tem dedicado os seus estudos às consequências urbanas e arquitetónicas das práticas políticas.

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