Mesa de café. Ou talvez grupo Whatsapp. Amigos de esquerda, assim nos autoidentificamos. Estamos conscientes – ou pelo menos achamos que sim – dos nossos lugares de fala. Somos burgueses, letrados, não temos problemas económicos relevantes, somos citadinos (e, para mais, vivemos na capital). Tivemos todos alguma experiência – ou várias – de militância política e em movimentos sociais. Viajámos bastante, lemos jornais estrangeiros e comparámos experiências políticas mundo fora. Cosmopolitas, portanto. Das elites. Woke, como reza a categoria acusatória.
Nos dias que correm queixamo-nos muito. Queixamo-nos dessa entidade abstrata e algo difusa chamada “esquerda” (pode ser no plural, esquerdas), perante o avanço dos novos fascismos. De que nos queixamos? Eis uma lista incompleta.
Queixamo-nos da catástrofe dos “socialismos reais” e da forma como, em Portugal, o PCP não parece ter levado até às últimas consequências uma crítica dos mesmos, quer nas formas de atuar, quer no pensamento. Queixamo-nos do PS e da forma como se deixou levar pelas “terceiras vias” que acabaram com a social-democracia e abraçaram, na prática, o neoliberalismo. Queixamo-nos do BE pela sua incapacidade em se tornar popular e há quem até se queixe do excesso de “política identitária”. Do Livre ainda não nos queixamos muito, mas apenas porque não nos seduziu q.b.
Mas há quem se queixe de coisas ainda mais profundas. Do excesso de dependência de teorias políticas. Do sectarismo. Da linguagem incompreensível pelas massas. Do tremendismo e da intransigência. Do preconceito face a certas formas de vida e valores. Da ideia de superioridade moral. Das disputas de poder e de personalidade no interior das organizações. Do pensamento utópico. Da fé.
Estas queixas não podem ser repetidas ad infinitum sem se fazer dois outros exercícios. O primeiro é de análise das circunstâncias – históricas e conjunturais. O segundo é o da esperança, assente num olhar atento ao mundo, sem lentes que predefinam o que se vê.
O primeiro até é simples. Por um lado, as grandes transformações do capitalismo, que redundam agora nos desastres – laborais, democráticos, climáticos, entre tantos outros. Está feito o diagnóstico. Por outro, uma historicidade mais próxima, que se poderia resumir no “trauma” (no sentido de esperança gorada e de cansaço) do PREC, da “normalização” que se lhe seguiu, e de desilusão com a “Geringonça”.
O segundo é mais complexo. Parte da ideia de fraqueza da nossa sociedade civil, mas exige uma abertura ao mundo dos outros, algo a que a sociografia resumida no primeiro parágrafo é avessa e para a qual faltam ferramentas. Mas deixo duas dicas.
A primeira é levar a sério a riqueza das formas de associação, solidariedade, voluntariado e comunidade que existem no país para lá das formas “tradicionais” que a esquerda rígida gostaria de ver. Centenas de milhar de portugueses juntam-se em sociedades recreativas, desportivas, de bombeiros, de ajuda mútua, de vizinhança, de solidariedade, de igrejas (sim, de igrejas), de causas pontuais, de redes sociais, de voluntariado. Eu diria que essas pessoas estão em “autogestão”, que o que fazem é esperança face ao caos, e que só lhes falta politização, no sentido de articularem o que fazem com o que outros fazem.
A segunda dica tem diretamente a ver com isto: as esquerdas não podem concentrar o seu discurso e ação na contestação e no contra. O seu discurso não pode ser só opositivo. Ele tem de propor. Não se trata, e isto para dar um de muitos possíveis exemplos, de acusar o capital de estar a destruir o SNS (está…) e de clamar pela sua salvação (necessária…) mas de propor políticas concretas e compreensíveis por aquelas pessoas que referi antes e que poderão mobilizar a sua energia já existente para a proposta. O discurso e a ação da esquerda não podem ser apenas “globais”, “sistémicos”, têm de ser articulados com o “pequeno real”. Ou seja, e se quisermos evitar o termo “populista” (dava toda uma discussão interessante, pois poder-se-ia pensar num “populismo de esquerda”, não tenho nada grandemente contra isso…), a esquerda tem de ser popular.
Regressando ao partidarismo: por razões diferentes, nem o PCP, nem o PS, nem o BE (nem o L…) têm qualquer capacidade para enveredar por aí. A aterosclerose é já total. A resistência aos novos fascismos que se estão a impor tem de ser feita através de uma “coligação”, de uma “aliança” que transcenda, em forma de movimento, os partidos. Uma manifestação do 25 de abril transformada em movimento permanente. E as propostas políticas de esperança têm de começar por baixo: onde o populismo pode medrar, o popular tem de triunfar.

