Saudemos o momento em que as Marias têm tanto direito a “reflectir” como os Josés, o que já não é mau. Antes apenas sentiam emoções e “reflectiam“ por interposta pessoa. O mundo anda. Aos trambolhões, mas anda.
Ainda os académicos estarão a discutir se a ditadura em Portugal foi “fascismo” e se o Chega é “fascismo” ou não, se o que se passa em Gaza se pode chamar “genocídio” ou se essa classificação é um crime de lesa-ciência política e já o fascismo está à porta.
Não há grandes dúvidas de que, se houvesse de novo eleições ou se as houver nos próximos quatro anos, o Chega será o partido mais votado e portanto Ventura será chamado a formar Governo. Foi rápido e pode ser rápido. Dizem os optimistas que nesse partido não há massa crítica que dê consistência a um programa e um governo. Não precisa. Os movimentos fascistas ou nacional-populistas não precisam de grandes intelectuais. A sua força está na repressão e na violência “fascista popular” de rua. Se o Chega for poder, instalará por decreto-lei medidas de segurança que permitirão prisões arbitrárias, violência policial e prisão perpétua de facto, mesmo que esta não conste da revisão constitucional. Há muitas formas de prolongar penas de prisão ou simples prisões preventivas. As lutas dos trabalhadores serão reprimidas. O medo já aí está e voltará em força. Muitas pessoas terão medo de ter “ideias”, como se dizia antigamente.
Este é o panorama negro… Não vale a pena dizer que “não é tanto assim” ou que tudo “há-de correr pelo melhor”, como se diz com as doenças. Esta doença é como a cólera e a peste, pode desaparecer durante um século, mas o agente esconde-se lá nos escuros da natureza. Da natureza humana também? É uma discussão filosófica.
Quanto às capacidades intelectuais dos protagonistas, nunca foram necessárias.
O “Mein Kampf” de Hitler não é uma obra profunda, no fascismo italiano não houve cabeças brilhantes, Primo de Rivera, aqui ao lado, era um pensador primário e o salazarismo só teve como cabeça pensante o próprio ditador. No grupo de quatro amigos e correligionários que fez nascer e sustentou a ditadura portuguesa desde 1926 – António de Oliveira Salazar, o cardeal Cerejeira, Mário Figueiredo e Santos Costa – apenas o primeiro tinha um pensamento estruturado, com informação ao nível do direito, da economia e da filosofia reacionária, contrária aos princípios da revolução francesa.
Apenas uma filosofia de naturalização da estrutura social e um cinismo de desprezo pelos humanos a que os teóricos chamam “antropologia pessimista”. Nunca foi um pensador brilhante. Era astuto e tinha a polícia. Era tudo. Só mais tarde intelectuais como Marcelo Caetano e Adriano Moreira tiveram a consistência para estruturar algum pensamento do regime. E, actualmente, poder-se-á imaginar maior aberração do que Milei, que comunica por telepatia com o cão que morreu há uns anos e que foi eleito presidente da Argentina, país com uma história de grandes intelectuais e um nível vibrante de investigação?
O problema não está pois na falta de recursos intelectuais do Chega. Está no curso histórico cujas etapas vieram desembocar nesta Europa e neste mundo e que serão objecto de muitas análises interessantes.
Entretanto, o inimigo está à porta. O inimigo daqueles que ainda têm a utopia da igualdade na diferença, que defendem a liberdade, o conhecimento e o pensamento crítico, porque pensam que estes se podem transformar em felicidade humana.
Com este perigo à porta, a pior coisa que pode acontecer é as organizações de Esquerda tomarem “o outro” pelo inimigo principal. É fazerem o julgamento do PS como o verdadeiro culpado – que talvez tenha sido. E arrastarem o cego do lado para o barranco. Chegados a este ponto, todos temos culpas com certeza. Umas maiores do que outras. Mas o momento não é para julgamentos, é para acção.
Ir ao encontro dos de baixo
E a acção deve ser ir ao encontro das motivações dos que votaram Chega e que são muitos mais do que os grunhos feios, porcos e maus que assomam a dizer que sim com a cabeça, atrás do chefe.
Na aldeia para onde costumo ir, os mais velhos lembram-se que “dantes” não havia nada de Saúde. Para os partos havia uma curiosa que vinha de burro. Mas a geração que veio a seguir gostou que um médico de família fosse lá duas vezes por semana. No entanto, mais adiante passou a ir só uma vez e depois… vez nenhuma. E é preciso ir à cidade mais próxima perguntar no Centro de Saúde pelo médico de turno. Passados cinquenta anos a memória do “antes” acabou e começa a dizer-se que é preciso “acabar com isto”. O que fazer? Não são precisas explicações doutrinárias. As autarquias que sobreviveram a este desastre nacional têm de meter mãos à obra e ir ao encontro das necessidades das pessoas.
Perante a degradação da situação, as populações descobrem um inimigo – os ciganos, os imigrantes, um alvo do ódio, o rendimento básico que permite que “eles não trabalhem” – ainda que as contas não sustentem a irracionalidade. E juntam a isto o “ressentimento” contra esta elite, que somos nós, os que fazem “reflexões”, os que não têm preconceitos, os que têm para trás pelo menos três gerações de alfabetizados ou mesmo universitários. E se “reflectíssemos” sobre como apoiar de facto estas pessoas, em vez de nos acusarmos mutuamente? Talvez a Vida Justa ou o Moinho da Juventude da Cova da Moura nos mostrem caminhos.

