Não serão muitos os que têm o privilégio de ter o primeiro livro de Eduardo Gageiro. “Gente”, com texto de José Cardoso Pires e grafismo de Paulo Guilherme. Foi publicado pela Editorial O Século em 1971. Foram impressos 1500 exemplares e é um livro estupendo. Não admira que a PIDE nos interrogatórios que fez a Gageiro, lhe perguntasse porque não fotografava as belas paisagens que Portugal tinha. Gageiro respondia que fotografava o que via. Ganhou nos fornos e no pó da Fábrica de Loiça de Sacavém a consciência política que lhe permitiu a sua grandeza enquanto fotógrafo e homem. Apaixonado pela fotografia, soube como ninguém transportar os seus ideais para o papel a preto e branco. Era um revolucionário de máquina fotográfica em punho.
Eduardo Gageiro não se deixou levar pelas modas da época – os Salões de Arte Fotográfica – onde aí sim, as belas paisagens nasciam como cogumelos. Fotografias de postal que em nada beliscavam a ditadura e lhe davam o suporte propagandístico. Depois, Rosa Casaco, o inspector da PIDE e fotógrafo da intimidade de Oliveira Salazar. Gageiro, como outros, era dos resistentes. Fotografavam o país real. Fotografavam sem liberdade. Fintavam a censura. Eram detidos e depois libertados.
De 1947 a 1957 Eduardo Gageiro foi empregado de escritório na Fábrica de Loiça de Sacavém, uma das grandes fábricas da cintura industrial de Lisboa, que acabaria por falir em 1994, à beira de cumprir cento e cinquenta anos. Com fortes raízes operárias, a Fábrica de Loiça de Sacavém foi sempre um pólo de lutas dos trabalhadores, objecto de várias intervenções da GNR e da PIDE. É nesta fábrica, no meio de operários, de pintores e escultores que Gageiro apura o seu gosto pela fotografia.
Sonha em ser fotojornalista. Com 12 anos publica a sua primeira fotografia no Diário de Notícias. O sonho nunca mais o abandonou. Em 1957 começa a trabalhar nos laboratórios fotográficos do Diário Ilustrado. “No primeiro dia no Diário Ilustrado, sentei-me na redação com a minha máquina e um flash, e aparece um fotógrafo: ‘Quem és tu?’. Na altura, eu era muito tímido. Olhei para ele e disse: ‘Eu sou fotógrafo.’ ‘És fotógrafo?! Vais mas é para o laboratório revelar as nossas fotografias.’ E lá fui eu, muito frustrado, para o laboratório fazer as fotografias dos outros: conferências de imprensa, inaugurações, o Salazar, o Thomaz, coisas horrorosas. Mas teve de bom que era o sítio onde estavam os linotipistas, os gráficos, malta fixe.”
Mais uma vez Gageiro sentiu o pó da Fábrica de Loiça de Sacavém, na redação do Diário Ilustrado. A sua consciência política não o fez vergar. Teria que ser fotojornalista. Foi teimoso e perspicaz. E o dia chegou, na companhia do escritor Ferreira de Castro. “Numa dada altura telefonam-me para ir à redação e levar a máquina. Não tinham fotógrafo para fazer um trabalho e lembraram-se de mim. ‘Não havia aí um miúdo, o que é feito dele?’ Fui fotografar o Ferreira de Castro para o suplemento literário. Fiz uma série de fotografias e depois sugeri: ‘Não se importa de ir para aqui, para ali? Disse que costumava escrever acolá…’. Até tirei fotografias às mãos. Revelei o rolo com todo o carinho — um rolo meu — e mandei-o para a redação.”
Nunca mais parou nem ninguém o parou. Gageiro trabalhou em várias publicações. Ganhou imensos prémios pelo mundo fora. Participou em centenas de exposições. Publicou livros. Ensinou os mais novos e os mais velhos. Fotografou, fotografou, fotografou de uma forma única. Um fotógrafo apaixonado. Louco até. Obcecado.
Um dia foi avisado de que alguma coisa iria acontecer no dia seguinte. Encheu a bolsa de rolos fotográficos e foi até ao Terreiro do Paço. Salgueiro Maia perguntou quem era. Sou o Eduardo Gageiro. Gosto muito das suas fotografias, respondeu Salgueiro Maia. Pode passar. Gageiro sentiu o cheiro a liberdade. Felino fotojornalista como sempre foi, fotografou o 25 de Abril de 1974 como ninguém. Olhamos hoje as suas monumentais fotografias e sentimos os ecos da Fábrica de Loiça de Sacavém, a luta a fervilhar nos seus poros, a ansiedade do miúdo do laboratório, as mãos do Ferreira de Castro. Sentimos que Eduardo Gageiro era e é o gigante entre os grandes.
A idade não verga os gigantes. Sentado numa cadeira de rodas desceu a avenida com o nome que tem o nome por que sempre lutou – Liberdade. Foi a última vez. O velho resistente não abdicou da sua sabedoria. Fotografou mesmo não estando de pé. Era bom que as suas últimas fotografias vissem a luz do dia. Saíssem do cartão de memória. Com asas.
Somos todos mais ricos com o trabalho de Eduardo Gageiro. Fotografou o mundo. E, mais importante do que os prémios ou as medalhas, é a imortalidade das suas fotografias. Um fotógrafo corre esse risco se for bom. Congela o tempo. E temos Sacavém e Moscovo, Bagdade e Nova Iorque. Nazaré e Dili. Sempre um olhar límpido, transparente, lúcido e digno. Sempre Gageiro.
Nota: As declarações aqui transcritas são de uma entrevista dada por Eduardo Gageiro ao semanário SOL de 19 de Março de 2014.



