Em 1973, a Guerra do Yom Kippur levou a um grande aumento do preço do petróleo, que colocou a nu a grande dependência energética do país e condenou ao fracasso a estratégia de modernização da economia que a Ditadura tinha tentado nos últimos anos.
Hoje, quase 53 anos depois, a Guerra do Irão está novamente a provocar um grande aumento do preço do petróleo, com efeitos que serão duradouros, pois está a ser destruída capacidade produtiva que demorará anos a ser reposta.
A grande diferença é que Portugal está hoje mais bem preparado para suportar este impacto e para continuar a diminuir a dependência do petróleo importado. Nos anos 70, Portugal não tinha capacidade para explorar os seus recursos energéticos renováveis. Entretanto, o país investiu na sua capacidade científica e tecnológica, o que lhe permitiu alargar a produção de energias renováveis e aumentar assim a nossa independência dos hidrocarbonetos.
Hoje temos capacidade de produção de equipamentos para as várias energias renováveis, desenvolvemos capacidades tecnológicas para diminuir a sua aleatoriedade e desenvolvemos capacidade noutra energia renovável, a energia dos oceanos, que ainda não exploramos.
Durante muito tempo as energias renováveis, produtoras de electricidade, não cobriam todas as necessidades energéticas, como as dos transportes, onde dominavam o carvão e os derivados dos hidrocarbonetos, que importávamos. Entretanto investimos na criação de condições para resolver essa vulnerabilidade e estamos em condições, também neste segmento de mercado, de alcançarmos uma grande redução da nossa dependência energética.
Solar flutuante, novas baterias e hidrogénio
Além das capacidades que temos para aumentar os investimentos nas hídricas, nas eólicas e no solar, desenvolvemos tecnologia no solar flutuante com painéis orientáveis, o que nos permite tirar maior partido das barragens existentes, onde já existe ligação à Rede Elétrica.
Desenvolvemos capacidades para podermos gerir melhor a aleatoriedade, o que permitirá tirar melhor partido da capacidade de produção instalada explorando as complementaridades entre as diversas fontes renováveis; compensando perfis de consumo diferentes no âmbito de redes cooperativas locais; incentivando, com preço mais baixo, um maior consumo nas horas em que temos mais abundância (o que se tornou mais fácil com a instalação generalizada dos contadores inteligentes); usando baterias, para equilibrar ciclos mais curtos, ou as barragens para ciclos mais longos. Além da fábrica de baterias de lítio que está a ser instalada em Sines, estão em desenvolvimento um novo tipo de baterias, de iões de sódio, e baterias de fluxo redox, com um novo tipo de painéis solares em desenvolvimento associado. Outras formas de acumulação de energias renováveis, estão ainda em desenvolvimento, como as que usam a compressão de ar isotérmica.
Desenvolvemos capacidade tecnológica de ponta para produzir combustíveis verdes, como o hidrogénio, o que constituirá uma alternativa às baterias, para a eletrificação das viaturas de combustão.
Energia dos oceanos: a oportunidade de Sines
Desenvolvemos ainda capacidade tecnológica numa energia renovável que temos em abundância mas que ainda não exploramos: a energia dos oceanos, que tem a vantagem de estar sempre disponível e de ser altamente previsível. Há cientistas portugueses a trabalhar nestas tecnologias, em estados avançados, e existem instalações em teste na nossa costa. Podemos e devemos investir mais nesta área, de forma articulada entre as diversas áreas do investimento público, para tornar esta energia rapidamente competitiva. A futura construção de mais um cais no porto de contentores de Sines, para cuja proteção terá de ser construído um novo quebra-mar, com mais de um quilómetro de comprimento, constitui uma excelente oportunidade para a exploração da tecnologia portuguesa de “coluna de água oscilante”, que já foi testada num porto do norte da Península. A exploração desta fonte energética tem uma vantagem suplementar: a colocação no fundo do mar, perto da costa, de centrais de energia das ondas, ao retirar-lhes energia, reduz os efeitos de erosão da costa, um problema de relevância crescente com a subida do nível médio das águas.
Painéis urbanos e agro-voltaicos
Também os painéis solares serão menos polémicos e mais rentáveis se tiverem simultaneamente outra utilidade além da captação de energia. Além de poderem ser colocados na cobertura dos nossos telhados, das fábricas e armazéns, dos parques de estacionamento, de mercados e feiras, dos recreios de escolas, de ciclovias, de bancadas de estádios e outros campos de jogos podem ser integrados, nas zonas rurais, em explorações agro-voltaicas, que tiram partido da gestão da sombra para uma melhor produção agrícola ou pecuária.
Electrificação dos transportes
Com o investimento nas tecnologias de eletrificação dos transportes a redução da importação dos hidrocarbonetos pode ser muito significativa. Antes do 25 de Abril só 15% da rede ferroviária estava eletrificada, agora estamos a caminhar para a meta dos 100% até 2030. Investimentos importantes (que, lamentavelmente, foram demasiado lentos) na modernização da linha férrea estão agora a entrar em funcionamento, devendo permitir um impacto significativo na redução de transporte de mercadorias por rodovia, nomeadamente para exportação, substituído pelo comboio eletrificado.
Os casos mais importantes são o Corredor Internacional Sul, entre Sines e a fronteira com Espanha, num trajeto por onde irá depois passar o TGV para Madrid, e o Corredor Internacional Norte, a Linha da Beira Alta, que esteve parada para obras durante vários anos. Na zona de Lisboa tem havido obras na linha de cintura interna que, quando estiverem prontas, permitirão melhorar o escoamento ferroviário da Região Metropolitana, incluindo o aumento da capacidade de passagem de comboios de passageiros pela Ponte 25 de Abril, nomeadamente do TGV que vindo do Porto se dirija para Madrid. O transporte de mercadorias, entre o Norte e o Sul faz-se pela linha de Vendas Novas, que atravessa o Tejo em Setil, e que está a beneficiar de obras de modernização.
Os transportes fluviais também estão a abandonar o diesel, substituído pela eletricidade. Estão em desenvolvimento novos tipos de barcos elétricos, com hidrofoils que poderão “voar” ao dobro da velocidade atual, e barcos especializados em logística que, em articulação com bicicletas de carga, poderão retirar muito trânsito das ruas das cidades ribeirinhas.
A entrada em funcionamento da linha circular do Metro, no Cais do Sodré, vai duplicar a capacidade desta estação, que é também um cais fluvial. Barcos rápidos e frequentes, serão a melhor solução de mobilidade para os passageiros no novo Aeroporto, entre Alcochete e o cais da Expo, nó de transportes de Metro, rodo e ferroviários.
Produção nacional de veículos eléctricos
A revolução na tecnologia das baterias elétricas veio abrir a possibilidade de eletrificação dos outros meios de transporte, oferecendo condições para pormos termo à dependência energética nacional.
Hoje já produzimos esses novos meios de transporte elétricos, desde veículos de duas rodas, até aos comboios (que voltámos a produzir) e aos grandes autocarros de passageiros, passando por camiões e carrinhas para entregas – assim como os respectivos carregadores elétricos. Quanto aos automóveis ligeiros haverá um reforço significativo no próximo ano, com a produção de veículos elétricos pela maior montadora de automóveis e com o início da produção de microcarros elétricos.
Gestão das redes permite partilha eficiente
A Internet móvel, o GPS e o Multibanco, em articulação, facilitam uma nova forma de gestão destas frotas de veículos, permitindo, o uso partilhado dos veículos, sejam trotinetes, bicicletas, motorizadas ou automóveis ligeiros. São uma nova forma de transporte coletivo, onde também se devia poder usar o passe social, para reduzir uma parte do custo. Prevê-se a condução remota, dos microcarros, o que facilitará a sua entrega onde sejam solicitados. O seu carregamento, por troca de baterias, é uma possibilidade, que poderá trazer uma vantagem para a gestão da aleatoriedade das renováveis. As plataformas para carregamento e troca de baterias permitirão que os veículos que tenham energia disponível no fim do dia a vendam à Rede, ajudando a abastecer a ponta de consumo do início da noite. De madrugada, poderão beneficiar dos preços mais baixos, para terem as baterias carregadas pela manhã, quando a procura voltar a aumentar.
Não precisamos de novas pontes caríssimas. Precisamos de tirar partido das novas tecnologias e de fazer “investimentos cirúrgicos” que possibilitem uma maior capacidade de uso das infraestruturas existentes, como a Circular Ferroviária Interna de Lisboa e a Ponte 25 de Abril.
Aposta no valor acrescentado
Temos a sorte de a nossa posição geográfica ser atrativa para acolher cabos submarinos de fibra óptica, vindos de outros continentes, e essa oportunidade deve ser aproveitada para não sermos um mero ponto de passagem para a Europa. Em sequência, estamos a atrair investimentos em Centros de Cálculo, graças também aos recursos humanos qualificados disponíveis, à competitividade das energias renováveis e à possibilidade de refrigerarmos estes centros e bancos de dados com água do mar. O desenvolvimento destas tecnologias de Informação e Comunicação permite-nos usar cada vez mais o trabalho à distância, poupando tempo e combustível, enquanto a nossa inserção em boas redes internacionais, permitirá o investimento na atividade de projeto e desenvolvimento de novos produtos, atividade que exige grande interação com os clientes. O que valorizará a nossa indústria, com elevada capacidade de desenvolvimento e prototipagem, nas suas diversas componentes, desde os moldes e materiais, ao software e electrónica. É nessas fases, de desenvolvimento, que está o maior valor acrescentado, sendo esta uma forma de captar as fases seguintes para a produção no país. Os consumidores mais esclarecidos, preocupados com a crise climática, querem produtos sustentáveis, que nós teremos condições para produzir.
Reduzir as deslocações pendulares
Também podemos encaixar uma parte do aumento do preço dos combustíveis, com uma mudança do funcionamento das regiões metropolitanas, que atualmente assenta na deslocação pendular entre os locais de habitação, nas periferias, e os locais de trabalho, no centro das regiões metropolitanas. Diariamente, 400.000 pessoas deslocam-se da margem Sul para Lisboa. Este modelo deve ser alterado criando mais oportunidades de trabalho a Sul do Tejo, mais perto dos locais de habitação. Está a haver uma conjugação de condições favorável a essa mudança de política, para atrair investimentos para o Arco Ribeirinho Sul, o distrito de Setúbal e o Alentejo em geral. Já referi o Corredor Internacional Sul e o seu cruzamento em Vendas Novas, com a Linha Norte através da ponte em Setil. Por aí passará a primeira linha de TGV para Espanha e a Europa. O terminal de contentores de Sines, está em ampliação para o dobro da capacidade. É a Sines e a Sesimbra que estão a acostar os cabos submarinos de fibra ótica. Sines continua a atrair investimentos em produtos intermédios que atrairão investimentos nos setores que os utilizam. Sejam as baterias de lítio, o hidrogénio ou o aço, verdes. A ida do Aeroporto de Lisboa para a margem Sul será também um fator importante para a criação de locais de trabalho. Tem a melhor insolação, para dar energia para trabalhar, e as melhores praias, para descansar.
A actual guerra do Irão pode constituir uma catástrofe para a região do Médio Oriente e reforça uma cultura de uso da força ao arrepio das normas da governação democrática dos estados e do direito internacional. Mas seria um erro imperdoável não retirar desta tragédia algumas das lições que ela nos oferece.

