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Fernando Paulouro Neves: a batalha sem fim da liberdade
Fernando Paulouro Neves: a batalha sem fim da liberdade

Fernando Paulouro Neves: a batalha sem fim da liberdade

Tributo a Fernando Paulouro Neves, diretor do “Jornal do Fundão”, jornalista de causas falecido a 6 de Outubro de 2025, aos 78 anos, e escritor assumido como “guardião da memória e da esperança”.

“A liberdade é uma batalha sem fim, e os que vierem depois de nós devem continuá-la, mesmo se tiverem de ser combatentes da sombra!”, escreveu o jornalista Fernando Paulouro Neves, na apresentação do seu último romance, que resgata do quase anonimato e da clandestinidade um veterinário português de nome Eduardo Monteiro, que começou por se bater na oposição ao Estado Novo, alinhou nas fileiras republicanas contra o fascismo espanhol e depois integrou a resistência francesa na segunda Grande Guerra, até à Libertação.

Era Domingo à tarde, 5 de Outubro, biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão. O prof. Arnaldo Saraiva e o jornalista José Manuel Barata Feyo ladeavam o autor de “As Sombras do Combatente”, justamente convidados para apresentarem a obra e falarem de quem a escreveu, aos seus amigos e admiradores. 

Um grande livro, assente em cuidadosa investigação histórica e muito bem escrito, foi o que disseram em síntese os palestrantes. E não se esqueceram de apontar esta última obra de Fernando Paulouro como sequência lógica do jornalismo de causas que o distinguia, enquanto profissional, e agora continuava a praticar, já na pele de escritor a tempo inteiro. 

A surpresa estava, porém, para acontecer. O autor homenageado sacou da pasta que sempre o acompanhava e começou a ler cinco folhas dactilografadas, com as emendas à mão bem à vista e até sobrepostas. E sabem que mais? A toda a gente, em especial aos que sabiam da longa luta pela vida do Fernando (há anos submetido a sessões de quimioterapia) mas também a quem estranhou a sua tão notória debilidade física, pareceu evidente que nos estava a deixar uma espécie de testamento, com a simplicidade e o desprendimento que o caracterizavam. Contaram-me que os amigos do meu amigo Fernando, bastos o suficiente para encherem a Biblioteca Eugénio de Andrade, o afogaram em aplausos e carinho. 

O Jornal do Fundão publicou esse original dias depois, acrescentando que ele fora lido “por entre silêncio e uma indisfarçável comoção de quem o ouviu”. “No fim, uma ovação de pé sublinhou, não só aquele momento do percurso do jornalista e do escritor, mas também a vida e a carreira de alguém que é admirado por tantos”, concluiu o JF. 

Já o drama, esse que pairava no ar, acelerou: no dia seguinte, e como se o previsse de véspera, pois assim o escrevera, explicitamente, foi-lhe apresentado “o fim do calendário dos dias”.  

Ao fim da manhã de segunda-feira telefonou aos filhos Vasco e Ricardo, intimando-os para um almoço a três: “um cozido à portuguesa, sem desculpas admissíveis”. Para os rapazes, algo de intrigante se passava, dado não serem hábito estes almoços e muito menos a insistência. Mas almoçaram mesmo, nos subúrbios do Fundão, arrastando-se o convívio entre pai e filhos “quase a ligar o almoço com o jantar”, tal como me contaram. Um dos filhos foi levá-lo à Covilhã, onde residia com a sua companheira dos últimos anos, Maria Eugénia Ferrão. E, talvez uns 15 minutos depois, já no Fundão, foi esse filho informado que o grande senhor seu pai, Fernando Paulouro Neves, tinha olhado pela última vez, nesse 6 de Outubro, a sua bem amada Gardunha e a Cova da Beira. 

Ia nos 78 anos de viagem por esta terra, a maior parte palmilhada nas páginas do Jornal do Fundão, onde foi redator, chefe da redação e diretor durante uma dezena de anos, sucedendo ao seu tio e fundador do jornal, António Paulouro.

Liberdade, igualdade e fraternidade

Na sua vida pessoal, Fernando Paulouro era um homem discreto e alheio a exibicionismos. E uma boa pessoa, de bem com todos, senhor de paciência infinita e sem alguma vez erguer a voz. Mas o seu compromisso social com os mais desfavorecidos nunca ofereceu dúvidas, expressando-se abertamente na sua prática jornalística sempre fiel aos princípios fundamentais da liberdade, igualdade e fraternidade.

O jornalista António Melo, igualmente natural do concelho do Fundão e amigo de sempre, escreveu que Fernando Paulouro “afrontou com destemor o fascismo e a repressão pidesca”, revelando ainda que o jornalista “militou no Partido Comunista e foi sempre comunista, mesmo sem cartão partidário”. Mais: “Recusou o sensacionalismo, mas não receou a denúncia social sempre que a condição humana era ultrajada”, acrescentou Melo, anotando como provas a questão dos mineiros e uma célebre reportagem sobre o trabalhador agrícola que agonizava com um cancro na boca e vivia ao abandono, face desfeita e sem a mínima proteção social. Com a ajuda do médico Lourenço Marques, a reportagem do Jornal do Fundão foi o primeiro e decisivo passo para a criação da unidade de cuidados paliativos, no Serviço Nacional de Saúde. Aliás, o primeiro hospital a instalá-la foi o do Fundão. Entre variados outros exemplos, veja-se a reportagem publicada a 6 de Dezembro de 1991, no JF, com o título principal “A morte desceu à mina”.

Embora tenha sido convidado várias vezes a deixar o Fundão e a instalar-se em órgãos de informação nacionais mais abonados e de influência alargada, Fernando manteve-se sempre fiel ao jornal dos ‘Paulouros’, até ele ser vendido. E foi honrado pelos seus pares com o prémio mais distintivo da classe, o Prémio Gazeta de Mérito, atribuído pelo Clube dos Jornalistas.

Em função da sua atividade pública cultural e mais geral foi-lhe igualmente concedido o Prémio Eduardo Lourenço, pelo Centro de Estudos Ibéricos, tendo o júri destacado “a sua visão cívica e comprometida com os territórios da raia, a sua intransigente cidadania e a consciência da realidade de uma região interior, numa perspetiva regional, ibérica e universal”.

Fernando Paulouro tinha um gosto especial pelo teatro e uma apetência natural para escrever textos, não raro para o seu amigo Fernando Sena encenar. Lembrou aliás este que Fernando Paulouro lhe disse um dia que “o Teatro é sempre um inimigo potencial dos que abominam as ideias”.  O escritor era, assim, considerado trave-mestra do Teatro das Beiras , tendo até presidido à sua Direção.  

Durante a longa vida profissional Fernando Paulouro colaborou nos órgãos sindicais sempre que lhe foi pedido, embora em posições recuadas. Assim, foi secretário suplente da direção de João Mesquita, no mandato 1989/90 do Sindicato dos Jornalistas, presidente suplente da assembleia-geral (91/92) e membro do Conselho Geral do sindicato no mandato 1993/94.

Em 2012 o Jornal do Fundão foi vendido  e Fernando Paulouro abandonou o cargo de diretor, que exercia há 10 anos, por sucessão do seu tio António, o fundador. A família Paulouro desfez todos os elos com o jornal em 2018, ao vender as suas ações ao atual grupo que detém a publicação. E as relações entre uns e outros não foram nada fáceis, nomeadamente as de Fernando com a direção atual. Ultimamente, porém, as incompatibilidades pareciam sanadas, a ponto de Fernando Paulouro Neves ter aceitado o convite para presidir à Comissão de Honra das Celebrações dos 80 anos do Jornal do Fundão. E, na hora da morte do seu antigo diretor, o jornal dignificou-o fazendo duas edições repletas de textos sobre o jornalista e o escritor. Nomeadamente, a última, com um suplemento de tributo a Fernando Paulouro Neves.

O escritor compulsivo

Ao abandonar a direção do jornal, Fernando Paulouro reformou-se como jornalista e passou a dar, finalmente, vazão a tempo inteiro ao seu impulso vital de cidadão de causas, passando a lavrá-las em obras de fôlego, bem adequadas à guarda do seu legado. Por mim, permito-me destacar as duas últimas, onde ele indicia muito do que pensava sobre a vida, as pessoas e as causas, que a decência nos impõe defender. E com urgência.

“O Tribunal das Almas – Os Espiões de Deus e as Fogueiras” deve ser a sua obra-prima. Passa por lá a Beira Interior inteira, as suas gentes, a sua vida, a sua história e uma geografia sentimental comovedora. Até os bombos de Lavacolhos lá entram para rufar na página 30: “Pensava que estes sons (dos bombos) vinham do fundo dos tempos para se fundirem com o sangue do povo e cantarem o coração da terra. Quando teria sido a primeira vez que um camponês de Lavacolhos, cercado de inquietação ou de raiva, sabe-se lá, levantou ao ar o enorme tambor e inventou um toque que parece um grito de guerra? Ao alto, ao alto!”.

A matéria-prima do livro vai sendo estendida à guisa de memória e à sombra das

fogueiras. Sempre, sempre as fogueiras da Inquisição em fundo, numa espera dolorosamente programada. Por altura da publicação, escreveu o autor que essa história (a do beirão Martinho Pessoa), é “uma história contra a tirania, em louvor da memória e da esperança. Agora, nas cinco folhas originais, que o JF reproduziu na sua última edição, destacou que tanto “As Sombras do Combatente” como “O Tribunal das Almas” “se inserem nesse combate decisivo do nosso tempo, em louvor da memória e contra o esquecimento programado”.

Ainda não li o último romance, mas a fazer fé em quem o apresentou, “As Sombras do Combatente” segue a figura de Eduardo Monteiro, um homem que fez da liberdade a sua arma e da coragem o seu legado. Das prisões do Estado Novo à deportação para o Forte de S. João Baptista, da frente de Madrid em defesa da República Espanhola à clandestinidade da Resistência Francesa, Monteiro atravessa os momentos mais sombrios da História com a lucidez dos que recusam ajoelhar. E comenta a razão das suas lutas: “O que nos faz levantar a cabeça e lutar”, diz Monteiro, “é porque a nossa razão é a Liberdade, e não há palavra mais bonita para nos fazer viver e suportar o desafio da morte, que é a guerra”.

Há uns sete anos e meio, em Fevereiro de 2018, já foi nestas condições de escritor a tempo inteiro que Fernando Paulouro concluiu e publicou uma das suas obras de fôlego, “Brasil em Mim”, espécie de síntese das suas relações antigas com o Brasil, mormente por via da grande literatura brasileira e dos seus autores, e das impressões recolhidas nos meses que lá passou a investigar matéria para o imponente “Tribunal das Almas”, dado à estampa no início do ano.

Este antigo diretor de jornal foi um escritor compulsivo. Ou jornalista, ou prosador, o que quiserem, mas compulsivo. Todos os dias aviava prosa como se não houvesse amanhã. Foi também assim que ele, enquanto inventava livro sobre livro, ia alimentando o blog “Notícias do Bloqueio”, todos os dias lhe dando de comer, não raro de varapau em riste, para zurzir nos mandões de turno.

Fantasmas, poesia e fel a menos

Independentemente do peso de cada uma das suas obras (literário, político, informativo), o meu gosto tende a privilegiar um livro de contos (“Os Fantasmas Não Fazem a Barba”), excelentemente ilustrado por Zé D’Almeida, na tradição da sátira fundanense, e o romance, de quase contos também, “Fellini na Praça Velha”, fruto da má-língua nos cafés da sede do meu concelho. Sobre o primeiro, escreveu Eduardo Lourenço que “a truculência dessa visão, o naturalismo da narrativa com fugas líricas pelo meio, inscreve Fernando Paulouro Neves na linhagem muito cultivada de Fialho. Com fel a menos”. E, sobre o segundo, ouso afirmar que nenhum fundanense, que se preze, pode omitir-lhe a leitura. Reconheço, no entanto, e tal como deve ser opinião generalizada, que “O Tribunal das Almas” é mesmo a sua obra-maestra.

Fernando Paulouro também publicou trabalhos académicos, como “A Materna Casa da Poesia – Sobre Eugénio de Andrade” e ousou aventurar-se, com mérito mas espaçadamente, na poesia, sendo prova disso alguns poemas no correr das páginas de o “Brasil em Mim”. Neste bonito livro, que tanto gosto me deu apresentar na exata biblioteca do Fundão onde agora  conviveu pela última vez com os seus amigos, destaca-se o fluir da prosa com a leveza da poesia.

NOTA
Logo após a morte de Fernando Paulouro Neves, o presidente cessante da Câmara do Fundão, Paulo Fernandes, atribuiu o nome do jornalista-escritor  ao auditório da biblioteca Eugénio de Andrade. Foi um dos seus últimos atos públicos enquanto autarca.

O meu parceiro na Guerra da Mina

Conheci o Fernando Paulouro Neves e o seu tio António lá por 1972, pouco tempo depois de entrar no Diário de Lisboa. Vaidoso de já me considerar jornalista, logo que passei pelo Fundão fui pagar a assinatura do jornal e enchi-me de coragem para subir à Redação. Foi fácil o contacto com o Fernando e mais ainda a sequência, que redundou em amizade fraterna e duradoira até o meu amigo partir de vez. Já para o fundador e então Diretor do Jornal, António Paulouro, eu, durante bastante tempo, fui simplesmente “o gajo de Bogas”.

Entretanto, nos primeiros anos após o 25 de Abril, os conflitos sociais estoiraram em crescendo nas Minas da Panasqueira, o odioso local onde se geraram as causas (silicose) da morte do meu pai, um ano antes da data libertadora. E daí a decidir-me por abordar a questão dos mineiros, em profundidade, foi um pulo. A reportagem fez-se na Barroca Grande e na Panasqueira e numa ou outra das “aldeias de viúvas da corda do Zêzere”, como o Jornal do Fundão, por esses tempos, chamava aquelas terras onde os mineiros morriam como tordos, na flor da idade.

Em princípio, era para ter escrito sozinho “A Guerra da Mina”, livro resultante da reportagem que estava pronta a passar ao papel. Mas impressionara-me, em edições sobre edições, o modo duro e persistentemente combativo como o Jornal do Fundão atacava o mais grave problema social da região. E, ainda por cima, o Diretor, Senhor António Paulouro, tinha entretanto assinado e publicado uma das mais belas peças jornalísticas de que tenho memória, o Romance de António Castanheira. Um drama mineiro de arrepiar e escrito em português majestoso.

A convergência de ideias profissionais com o então jovem Fernando ia-se consolidando e decidimos juntar-nos na versão final do modesto livro-reportagem “A guerra da Mina e os mineiros da Panasqueira”, saído lá pelos idos de oitenta do século passado. Assim foi também confirmada e fidelizada, por escrito, uma amizade que durou até hoje.

Foram passando as décadas e eu, volta que não volta, até me esquecia de que tinha assinado esse livrinho. Mas surgia sempre alguém a lembrá-lo, justamente porque penduravam o meu nome no do Fernando, sempre que ele publicava algo ou fazia algo de útil à sociedade, coisa em que era useiro e vezeiro. Até por isso, ele merece o meu bem-haja. E hoje até me apetece cometer uma inconfidência: ele insistiu e insistiu para retomarmos a reportagem, atualizando-a meio século, inclusive com fotos a preto e branco no interior da mina, tarefa a que o excelente fotógrafo Diamantino Gonçalves já se prontificara. Mas essa reedição não avançaria nunca, por minha causa. Para mim, foi como arrancar um espinho que tinha atravessado na garganta, desde a morte do meu pai. E isso só se faz uma vez.

Daniel Reis

Bibliografia de Fernando Paulouro Neves

Romance
O Tribunal das Almas: os Espiões de Deus e as Fogueiras (Guerra e Paz, 2024)
As Sombras do Combatente (Guerra e Paz, 2025)

Reportagem
A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira (com Daniel Reis), 1980

Ensaio
A Materna Casa da Poesia – Sobre Eugénio de Andrade, 2003 (reeditado em 2012)

Teatro
O Foral: Tantos Relatos/Tantas Perguntas
Era uma vez Cireneu

Contos
Os Fantasmas Não Fazem a Barba (Ilustrações de Zé d’Almeida), 2003
O Informador e Outros Contos, 2009
Catorze Histórias Incríveis ou o Fabuloso Imaginário das Lendas da Beira Baixa (com o cenógrafo José Manuel Castanheira), 2017

Quase Contos/Quadros de Romance
Fellini na Praça Velha, 2017
Brasil em Mim, 2018

Crónicas
Crónica do País Relativo – PortugalMinha Questão (Volume I, 2012, edições A23)
Ao Lume dos Dias – Rádio Cova da Beira
Notícias do Bloqueio – Blog no Facebook (Último post “Um conto para Camilo: O Bibliotecário”)

Organizou ainda a antologia ”António Paulouro: As Palavras e as Causas” (2012, Edições A23)

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AUTOR/A

  • Daniel Reis

    Foi jornalista de 1969 a 2008 tendo exercido essencialmente no Diário de Lisboa e no Expresso e tendo sido repórter parlamentar destes dois jornais durante quatro legislaturas, de 1987 a 2002.

    Trabalhou também em jornais desportivos, como a Gazeta dos Desportos e Semanário Desportivo (de que foi fundador) e colaborou com o Norte Desportivo, Publituris, A Bola, Pasquim, Comércio do Porto e Jornal do Fundão.

    Enquanto dirigente sindical, foi Secretário da Direção de João Mesquita (1989/90) e Presidente do Conselho Deontológico durante dois mandatos (1991/94) tendo então coordenado a discussão e redigido o texto final do Código Deontológico do Jornalista, entrado em vigor a 4 de Maio de 1993.

    Foi cooperante na Guiné-Bissau logo após a independência, sendo um dos fundadores do jornal No Pintcha, participando ainda na formação da primeira leva de jornalistas do país.

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