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Gaza é uma questão moral

Queremos muito mais do que pedimos nesta petição. É preciso muito mais para construir uma paz duradoura e estável na Palestina com segurança para todas as populações. Mas este é um primeiro passo.

A questão da Palestina e, em especial, a situação de Gaza deixou há muito de ser uma questão meramente política.

É evidente que é útil submetê-la, como a tudo, a uma análise política que considere causas e consequências, das raízes históricas ao contexto actual, questões jurídicas, geoestratégicas e geoeconómicas. Mas Gaza é, acima de tudo, uma questão moral. Uma questão de decência.

A perspectiva simplesmente humana, aquela que nos permite avaliar os nossos actos e os dos outros independentemente da profundidade dos nossos conhecimentos históricos ou geoestratégicos, sobreleva todas as outras análises. E é assim que deve ser. É isso que faz de nós humanos. Todos amamos os nossos filhos. E todas as crianças do mundo são nossos filhos. Nenhuma consideração política ou geoestratégica faz sentido se não estiver profundamente enraizada nestas verdades. E qualquer que não parta destas verdades só poderá dar frutos venenosos.

Gaza é uma questão moral da mesma maneira que o Holocausto judeu da II Guerra Mundial pode ser lido de muitas perspectivas mas é, antes de mais, acima de tudo, uma questão moral. Tanto, que todas as outras possíveis perspectivas não podem senão envergonhar-se de ser invocadas para a olhar.

A questão que nos colocamos e que nos convoca, que nos espanta e nos persegue, a propósito destas duas situações, apesar das suas diferenças, é basicamente a mesma: como é possível que seres humanos possam fazer isto, de forma fria, premeditada e constante, a outros seres humanos?

Que razão política, militar, geoestratégica, pode justificar isto? Que argumento pode justificar os milhares de assassinatos de crianças, à bomba, a tiro, pela fome? Um massacre planeado para ontem, para hoje, para amanhã, para sempre, até não haver mais crianças para matar?

As outras perguntas que temos de fazer são: como se pode parar este genocídio? O que podemos fazer? O que devemos fazer?

A nossa impotência perante a violência é imensa e soma-se ao horror que vemos nas fotos e na televisão – ainda que as imagens escasseiem devido à censura militar imposta por Israel e às restrições impostas aos jornalistas – mas há algo que temos de fazer porque não podemos calar-nos sem nos tornarmos cúmplices do horror.

Aquilo que podemos e devemos fazer é falar, escrever, denunciar, gritar, exigir. Antes de mais exigir dos nossos dirigentes políticos que obedeçam ao imperativo moral de parar o massacre já! Exigir que Portugal não participe de forma alguma e não facilite de forma alguma o genocídio em curso, impedindo o trânsito de material militar para Israel. Exigir que Portugal denuncie nos fóruns internacionais – nomeadamente na União Europeia – o genocídio e promova o seu fim. Exigir que Portugal respeite o direito internacional e cumpra as deliberações do Tribunal Penal Internacional, nomeadamente executando os mandados de captura contra os criminosos que lideram o genocídio. Exigir que Portugal reconheça o estado da Palestina, sem mais manobras dilatórias, respeitando a sua própria palavra de apoio à solução dos dois estados.

Isto mesmo é o que é exigido numa petição assinada por mais de 12.000 cidadãos portugueses que o Em Causa apoia, que foi hoje entregue na Assembleia da República e que, nos termos da lei, terá de ser discutida em plenário. A petição continua aberta a assinaturas.

É pouco? Muito pouco. Devíamos pedir mais? Sem dúvida que queremos mais, muito mais, sem dúvida que é preciso muito mais para construir uma paz duradoura e estável na Palestina com segurança para todas as populações. Mas este é um primeiro passo.

É um passo que incentivará outros países e a União Europeia a fazer o mesmo e criará uma base jurídica mais robusta para exigir o cumprimento da lei internacional, para acabar com o assassinato em massa de civis e para facilitar a entrada da ajuda humanitária em Gaza.

É um pedido modesto, mas este é o primeiro passo que deve ser dado e que, por isso, separa claramente quem está do lado dos direitos humanos, do lado da decência, e quem olha com indiferença os milhares de mães palestinianas que apenas podem dar aos seus filhos o conforto de uma curta mortalha e das suas lágrimas.

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Manifestação pela Palestina livre - Lisboa 18 Junho 2025 - Foto JVM
Manifestação pela Palestina livre - Lisboa 18 Junho 2025 - Foto JVM

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