Exigimos o nosso centro de saúde de volta
O manifesto abaixo, centrado sobre a gestão do acesso a cuidados de saúde em caso de doença aguda, é divulgado pela Fundação para a Saúde e foi subscrito por 30 personalidades atentas ao futuro do SNS, que assinam este documento em nome individual, não representando qualquer entidade.
O manifesto pretende:
- chamar a atenção para a tentativa de centralização da gestão do acesso da doença aguda, através da Linha SNS24, desvirtuando o centro de saúde e o conceito de proximidade;
- contribuir para a definição do papel da Linha SNS24, nas situações em que tem utilidade (picos de doença aguda, utilização anormal das urgências, utentes sem equipa de saúde familiar, informações);
- exigir a recuperação do centro de saúde.
Caso pretenda subscrever o Manifesto pode fazê-lo aqui
1.
O esvaimento da ideia de Centro de Saúde é real. Há mais de 50 anos, o Centro de Saúde tornou-se a característica distintiva do Serviço Nacional de Saúde (SNS) português. Outros seguiram-nos, mais tarde. Ao longo das últimas décadas, após sucessivas reformas, foi-se constituindo como o espaço de proximidade onde as pessoas encontram o seu SNS, aprendem a conhecê-lo, são ouvidas, cuidadas, orientadas, referenciadas, seguidas. Tanto na saúde – na sua proteção e promoção – como na doença. Isto através da ação convergente e articulada, das suas múltiplas unidades funcionais. Focadas em assegurar-nos bons resultados de saúde.
2.
Aqui a relação de confiança com a equipa de família – médicos, enfermeiros de família e outras competências relevantes – é essencial.
É muito importante que as pessoas sintam que numa aflição, numa doença aguda – não necessariamente uma emergência médica – podem beneficiar daquela relação de confiança, de cuidados de saúde por profissionais que os conhecem, assim como de toda a informação de saúde a seu respeito.
3.
Subitamente, há centros de saúde no país – e as unidades funcionais que os compõem – que já não atendem os seus utentes ao telefone, que respondem ao correio eletrónico com inaceitáveis demoras, e os informam que agora também não os atenderão em caso de doença aguda.
Neste caso, terão de recorrer a uma chamada telefónica para a Linha SNS24.
Chamada que, mesmo em período de baixa intensidade de doença aguda, pode demorar tempos insuportáveis para ser atendida. Onde um profissional, que não conhece a pessoa de todo, nem tem acesso à sua informação de saúde, perguntará o que o algoritmo precisa para “tomar uma decisão” sobre o seu destino!
Não foi para substituir a equipa de saúde familiar que a Linha SNS24 foi criada.
É seguramente útil se atender a tempo nas semanas de alta incidência de doença aguda. Pode ajudar a dar resposta aos que, infelizmente, ainda não têm equipa de saúde familiar. E pode prestar informação útil, em várias circunstâncias.
Como experiências internacionais sugerem, é possível e é preciso que o centro de saúde e as suas equipas profissionais, com aquilo que conhecem dos seus utentes e com a informação ao seu dispor sobre eles, na base da sua relação de confiança, orientem o seu acesso aos cuidados de saúde de que necessitam.
4.
Exigimos o nosso centro de saúde de volta.
Queremos que seja onde nos conhecem, onde criamos relações de confiança, que seja feita a gestão do acesso aos cuidados de que necessitamos. Especialmente em casos de aflição, na doença aguda.
Não aceitamos que o nosso centro de saúde seja substituído por “postos de consultas”, presenciais ou à distância, públicas ou privadas, algures.
Subscritores
Ana Advinha, Ana Escoval, Ana Paula Gato, Alcindo Maciel Barbosa, Alexandra Fernandes, António Leuschner, Carlos Cortes, Carlos Monjardino, Constantino Sakellarides, Eduardo Paz Ferreira, Filipe Alfaiate, Henrique Barros, Isabel Abreu, José Aranda da Silva, José Luís Biscaia, Júlio Machado Vaz, Manuel Lopes, Manuel Sobrinho Simões, Margarida Santos, Maria de Belém Roseira, Mirieme Ferreira, Patrícia Barbosa, Paula Santana, Pedro Lopes Ferreira, Pedro Maciel Barbosa, Ricardo Paes Mamede, Rui Monteiro, Rui Pato, Sofia Crisóstomo, Vítor Melícias.
