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Maria Emília Brederode Santos
Maria Emília Brederode dos Santos. Fonte: Conselho Nacional de Educação

Maria Emília Brederode dos Santos: uma inquietação que não morre

Maria Emília Brederode dos Santos (1942 - 2026) foi uma mulher de ideais e de ideias. Foi uma das mulheres que ofereceu a liberdade e a democracia à minha geração. Lutou contra a ditadura e construiu a democracia, sabendo que é através da educação que a liberdade se consolida.

A vida dá-nos, por vezes, a felicidade de nos cruzarmos com pessoas que nos inspiram. Pela vida, pelo testemunho, pelo exemplo. Quando desses cruzamentos resultam amizades, a felicidade é maior. Quando essa amizade gera aprendizagem, a emoção torna-se razão e a admiração transforma-se em gratidão.

Já não me lembro quando conheci a Maria Emília Brederode dos Santos, que nos deixou recentemente. Misturam-se na minha memória a homenagem feita pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ao José Medeiros Ferreira e uma conversa numa das tertúlias das Inquietações Pedagógicas, que, em conjunto com a Ana Maria Bettencourt, foram e são um dos mais discretos e importantes lugares de reflexão aberta sobre educação. Sempre me impressionou a forma discreta como se pronunciava, escondendo por vezes a profundidade do seu pensamento, que se ia revelando à medida que as conversas se desenvolviam. E tanto que havia a conversar de cada vez que a possibilidade aparecia.

Maria Emília Brederode dos Santos foi uma mulher de ideais e de ideias. É uma das mulheres que ofereceu a liberdade e a democracia à minha geração. Lutou contra a ditadura e construiu a democracia, sabendo que é através da educação que a liberdade se consolida. Sabia que, através da escola, se melhora a vida das pessoas e, sobretudo, que a escola tem características únicas quando assumida como projeto democrático. Para a Maria Emília Brederode dos Santos, estar na escola é garantir a vivência em comunidade, porque há um laboratório da convivência e da partilha de espaço que só a educação garante. Sair para a escola é, na sua visão, abrir-se ao mundo. Mas, para tal, é necessária uma escola que se afirme como uma atmosfera de cuidado, em que o respeito pelo outro, pela multiplicidade e pela diversidade se concretize em práticas coerentes.

Maria Emília Brederode dos Santos deixa-nos um legado de compromisso com uma educação promotora de cidadania. Foi pioneira na construção de documentos de referência para a promoção de valores democráticos junto dos mais jovens. Para ela, não havia as humanidades e as ciências e, depois, nas sobras e nas periferias, a cidadania. Assumiu e ensinou-nos que não há transformação e melhoria da nossa vivência em comunidade se não oferecermos aos mais novos outros mundos possíveis. A escola como espaço de co-construção, de debate de ideias, de conhecimento, de combate aos divisionismos, de promoção da igualdade nos direitos e nos deveres, não é uma quimera, mas algo que acontece quando o currículo assume intencionalidade. Foi o que fez nos referenciais que coordenou e foi o que promoveu nos diferentes lugares que ocupou no Ministério da Educação, dizendo sempre que a Educação para a Cidadania deve ocupar um lugar central no currículo.

Para a Maria Emília, a formação dos profissionais era um imperativo. Sabia – e conversou sobre isso comigo várias vezes – que as coisas não acontecem apenas porque se legisla. A capacitação dos profissionais, muito sustentada a partir das suas próprias práticas, foi algo a que se dedicou, destacando-se o seu papel na instalação da Escola Superior de Educação de Setúbal, instituição que ficou até hoje marcada pela sua visão.

À frente do Conselho Nacional de Educação manifestou sempre uma inigualável capacidade de escuta. Recordo, porque ilustra a sua forma de agir, que, nos terríveis anos da pandemia, quis que o relatório do Estado da Educação, para além de dados, pudesse trazer o testemunho de histórias vividas por diferentes pessoas. Não é um pormenor. Maria Emília Brederode dos Santos sabia que a educação também é um conjunto gigante de histórias individuais. E são essas narrativas que apoiam a decisão coletiva e permitem olhar para o que está por fazer. Quando um gráfico substitui uma pessoa, não percebemos a humanidade escondida por trás da estatística.

Muitos a recordarão como a “Senhora Rua Sésamo”, programa que dirigiu durante uma década. O que muitos não saberão é que a sua motivação principal para trazer este programa para Portugal foi a sua profunda inquietação com a desigualdade no acesso à educação. Já bem avançados na democracia, ainda não tínhamos uma cobertura minimamente suficiente de educação pré-escolar. Os esforços estavam em marcha, mas era preciso não esquecer que eram muitas as crianças que não tinham qualquer resposta, nem acesso aos bons conteúdos que as educadoras de infância podiam proporcionar. A Rua Sésamo foi, assim, uma possibilidade para, através da televisão, fazer chegar alguma qualidade a estas crianças deixadas para trás. Esta foi, aliás, uma outra marca de Maria Emília Brederode dos Santos: a perceção de que os meios de comunicação social deviam assumir também uma função educativa. A sua proximidade constante à RTP2, que se mantém como um verdadeiro exemplo de serviço público, influenciou a assunção da missão cultural e educadora deste canal.

Discreta e terna, mas sobretudo inquieta. Nos últimos anos, partilhámos conversas e reflexões sobre como acelerar o combate às desigualdades através da educação. Interessavam-lhe as escolas resilientes, como lhes chamava, aquelas que mais conseguiam contrariar um aparente determinismo social. E, por isso, quis ir visitá-las e conhecer o trabalho dos professores, enquanto Presidente do Conselho Nacional de Educação. Às vezes encantava-se, outras vezes desiludia-se, mas não parava de promover a discussão.

O meu último contacto com ela, tirando um encontro pontual quando já se encontrava bastante doente (mas sempre com um sorriso), foi na preparação de um conjunto de programas a ser transmitido pela RTP2 sobre as conquistas da educação em Portugal nos últimos 50 anos. Irritada (a palavra é minha!) com os discursos emergentes sobre uma alegada falência da democracia e das conquistas do 25 de abril, quis mostrar, com dados, com histórias vividas e com reflexão, que um dos melhores resultados da nossa democracia é a escola pública e toda a transformação que trouxe às nossas vidas.

Inquieta, lutou pela democracia no início da vida. Inquieta, lutou contra o ataque à democracia no final da sua vida.

Devemos-lhe bastante. Mas devemos, sobretudo, honrar o seu legado e a sua memória mantendo-nos inquietos e inconformados, sem certezas nas soluções, mas certos de que só há democracia plena quando todos, de forma livre e igual, puderem exercer os seus direitos de cidadania.

Portugal não a esquecerá, porque ela nunca se esqueceu dos seus concidadãos.

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AUTOR/A

  • João Costa

    João Costa doutorou-se em Linguística na Universidade de Leiden, na Holanda, tendo sido investigador visitante do Massachusetts Institute of Technology (EUA). É professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, da qual foi diretor.
    Foi secretário de Estado e ministro da Educação.

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