Exmo. Sr. Presidente da República
Exma. Sra. Presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género
No dia em que a liberdade de expressão foi mais uma vez posta em causa em solo português, sentimo-nos na obrigação de condenar veementemente a atitude do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que, numa ação inaceitável e profundamente antidemocrática, tentou impedir uma mulher de se pronunciar sobre a Palestina – um tema que interpela consciências em todo o mundo – e, de forma ainda mais grave, a agarrou pelo pescoço perante testemunhas.
Este ato não pode ser normalizado nem relativizado. Não se trata apenas de um gesto impensado ou de um excesso. Trata-se de uma agressão simbólica e física, cometida pela mais alta figura do Estado, contra uma mulher que ousou falar. Falar sobre a Palestina. Falar sobre a opressão. Falar onde outros preferem o silêncio.
Num país que construiu a sua democracia sobre os valores de Abril, o gesto do Presidente representa um retrocesso perigoso. O seu comportamento é um atentado direto à liberdade de expressão, à integridade física e à dignidade das mulheres. E se dúvidas houver quanto ao que afirmamos, basta perguntar: se se tratasse de um homem, o Presidente da República tê-lo-ia agarrado pelo pescoço?
Num momento em que a maioria parlamentar ameaça os avanços civilizacionais conquistados ao longo de décadas – incluindo direitos laborais, sociais, e especialmente os direitos das mulheres – este episódio ganha uma dimensão ainda mais grave. As mulheres em Portugal não se esqueceram das suas lutas: das operárias têxteis, das feministas dos anos 70, das mães e filhas que desafiaram o silêncio da ditadura e a violência doméstica. Não aceitaremos que agora, em pleno século XXI, seja o próprio Presidente da República a perpetuar práticas de silenciamento e intimidação.
Exigimos a atuação imediata das entidades competentes – nomeadamente a Procuradoria-Geral da República, a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e a Assembleia da República – para apurar responsabilidades e garantir que nenhum representante do Estado se coloque acima da lei. A agressão não pode ser encoberta pela cortina da imunidade institucional.
Recordamos as palavras de Simone de Beauvoir: “Nunca se esqueça de que basta uma crise política, económica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.”
Reafirmamos: não toleraremos nenhum passo atrás.
Com firmeza, em solidariedade, e em nome da justiça, exigimos a atuação das entidades competentes e a retratação do Presidente da República.
Lisboa, 4 de junho de 2025
Signatários e signatárias
As pessoas que subscrevem esta carta não são personalidades, famosos. Somos só pessoas, como a mulher agredida, que sabemos bem que mundo queremos e não deixaremos de o exigir.
António Branco, professor e investigador indignado.
Bernardo Mendonça, jornalista, feminista, comunicador, autor.
Carlos Moreira, homem cansado de ver homens a calar mulheres.
Gustavo Carona, médico e activista humanitário
Isabel Cristina Pereira de Sousa Gomes, doutorada em Psicologia, incrédula com a desumanização da sociedade.
Joana Manuel, mulher exausta de trabalhar e farta de ser invisibilizada e agredida como se isso fosse só “como as coisas são”.
Joana Seixas, actriz, ativista forçada que gostava de estar quieta a ser só mãe de rapazes feministas.
João Bernardo Castro, nascido no ano e nos valores de Abril, e como tal contra qualquer silenciamento, em particular das Mulheres, seja através de coação física ou psicológica.
João Cardoso, cidadão e músico
José Raposo, actor… anti-misógino. Pelos direitos das mulheres, uma das grandes conquistas da democracia!
Loubet Simões, técnico de conservação e restauro
Lúcia Pereira Gomes, a bater de frente contra injustiças desde sei lá quando, já não sei o que fazer. Não quero um país assim para ninguém.
Manuela de Freitas
Maria João Simões, diretora de Cena. Nós somos as tais, contra as quais os vossos pais vos avisaram.
Maria da Glória Meireles dos Santos, Operacional de Transportes Marítimos e Aéreos, defensora dos direitos e valores de Abril, incrédula quanto ao estado a que chegámos!
Marta Manuel, músico/professora
Miguel Januário, artista e designer
Paula Gil, assessora municipal, “eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres”.
Patrícia Santos Pedrosa, arquiteta, feminista, professora e investigadora
Pedro Gorgulho, padeiro
Pedro Santana Gonçalves, funcionário administrativo; contra o silenciamento do Genocídio em curso, pela Palestina livre e independente e contra a intimidação e agressão a quem ousa não se calar.
Renata Candeias, artista, designer, professora com alunos do secundário que acham inadmissível o que aconteceu.
Ricardo Andrade, investigador
Rita Blanco, actriz desapontada com a realidade.
Tiago Pimentel, realizador
