Autores: Jorge Adelar Finatto e Luís Afonso
Ilustração de capa: Clara Finatto
Design: José Teófilo Duarte / João Silva / DDLX
Lançamento: Março 2026
Páginas: 80
Preço: 10€
Edição: Abysmo
Tempo de flor de cinamomo
Jorge Adelar Finatto
Setembro, tempo de cinamomos e ipês nas ruas e praças da cidade. Na estação Santa Luzia ele está em pé apoiado na bengala, a mochila às costas, óculos escuros. Prefere não sentar no banco duro, de plástico, da estação. Assim evita o sono que a essa hora da manhã cobra caro ir dormir tarde. Não pode perder o próximo ônibus, o das 7h15min, pois já está sendo conhecido na editora por atrasar-se. Passa a mão na cabeça do cão Nemo que o acompanha. Os automóveis deslocam-se cada vez mais velozes e em maior número perto da calçada. Sabe que não pode dar um passo em frente, porque poderá ser atropelado. Terá de ler dois calhamaços de trezentas e tantas páginas cada sobre Geografia Humana. De lambuja, recebeu instrução para reescrever frases e acrescentar expressões que tornem o conteúdo mais interessante. Uma tarefa indigesta a que, no entanto, não pode negar-se.
Ouve o ruído do ônibus se aproximando. Nemo vai com ele até a entrada. Solta a guia do cão e diz-lhe qualquer coisa. Nemo corre ao lado do ônibus até ficar para trás. O motorista conhece bem o passageiro da estação Santa Luzia. Diz-lhe que o assento especial está vazio, mas a resposta é negativa, quer ficar em pé, perto da porta de saída. Pela janela do motorista, metade aberta (é primavera), penetra o perfume da flor de cinamomo que vem do Parque das Flores.
A mulher de cabelo ruivo pega o ônibus sempre nesse mesmo horário e local, trabalha numa loja de perfumes no centro da cidade. Os turistas começam a chegar por volta das 9h. A gerente é muito severa e um tanto cínica com os funcionários, exige sempre maior resultado de vendas. Arrogante, tritura a paciência e os nervos das vendedoras. Na bolsa da mulher a embalagem ainda morna com a comida do almoço. Olha vagamente pela janela. Ele segura a barra de apoio com as duas mãos, a bengala pendurada no pulso esquerdo. Parece admirar uma paisagem distante à frente. Vive a vida silenciosa dos livros como revisor e leitor.
Queria escrever como os autores que ama, habituado ao rumor cálido das páginas e ao cheiro bom que elas exalam. Não pode enxergar à luz do dia desde que nasceu, talvez por isso soe estranho a lida literária. Tem capacidade de ler grande número de páginas em poucos minutos, na sala escura da editora ou em um quarto escuro do apartamento que usa como escritório. Vive a vida alheia dos livros e, às vezes, esquece quem é. Existe um mundo secreto em sua alma.
O homem sonolento, no banco ao fundo, traz ao colo uma maleta de couro, faz consertos de eletricidade em residências. Precisa agora trabalhar mais horas, aumentar os ganhos para receber o primeiro filho que está a caminho.
O ônibus para na via a poucas quadras do cais ao lado do bonde. Os dois condutores se olham, sacodem a cabeça. Mais uma manifestação de estudantes perto da universidade atrapalha a vida dos passageiros. Não há como cumprir horário desse jeito. Passam-se cinco minutos até o caminho se abrir novamente.
O motorista passa a mão no rosto já suado. Lembra da mulher que ficou em casa com a filha pequena e que está grávida de seis meses. Terão de mudar-se do quarto e sala com o nascimento do novo filho. A gravidez, não desejada, foi uma distração, feliz instante de gozo na ilha do fim de semana. Ele sente alegria ao recordar, leveza na dureza do dia. O menino vem ao mundo. O ônibus segue.
Algumas esquinas depois, quatro homens, em fila, roupas pretas, óculos grandes escuros, atravessam a rua sobre a passagem de pedestres. O ônibus estaca de novo, o motorista olha o relógio, afito. No meio da passadeira os quatro param e viram-se em direção ao ônibus. O motorista abre os braços, joga os cotovelos sobre o volante, deita a cabeça entre as mãos.
Passaram, passaram, diz um passageiro, e o veículo retoma o curso. Parados na calçada, os quatro parecem mirar o interior do ônibus.
O ônibus ganha a avenida que margeia o rio. Um cheiro levemente adocicado invade a cabine. À visão do rio vêm à memória de cada um cenas da infância, passeios, acampamentos, alegres banhos de rio. Na manhã de setembro todos os passageiros vão a um lugar difícil em um dia gris. Corações em viagem.
O Autocarro
Luís Afonso
O autocarro começou a circular sem luz do Sol. Eram cinco para as seis quando partiu em direcção ao centro da cidade, chega lá ao fim de mais de cinquenta minutos. Esta parte do dia é a preferida do motorista. Não gosta particularmente de começar a trabalhar tão cedo, os seus bocejos não enganam, mas as ruas com pouco trânsito, sem as buzinadelas estúpidas dos automobilistas ou a inconsciência dos peões que se atiram de repente para as passadeiras, permitem-lhe uma tranquilidade na condução que não terá no resto da jornada. Ah, e agora os passageiros aturam-se muito melhor, ainda não estão na fase de implicar.
A esta hora o autocarro vai cheio, com metade dos passageiros de pé. O tempo da viagem é gasto das formas mais diversas. Há quem olhe para fora, há quem durma, há quem converse com a pessoa ao lado, há quem se entretenha com o telemóvel, há quem esteja pensativo. De entre a gente pensativa, destaca-se uma mulher de meia-idade, na terceira fila, junto à janela, que parece preocupada, dir-se-ia até angustiada. Veio-lhe à cabeça que pode ter deixado o fogão aceso. Já ligou para o marido, mas não atendeu. E se a casa arde? Não, deve ter apagado o fogão. É um gesto mecânico, por isso não se lembra. E se não o apagou? E porque é que o marido não atende? A mulher só não se levantou para tocar a campainha e sair por manifesta falta de espaço para o fazer. E também porque se saísse para voltar a casa e verificar o fogão iria ficar sem emprego, que no serviço não toleram atrasos. Ela bem viu várias colegas serem postas na rua por menos. À frente dela, de pé, com as costas apoiadas no vidro, um rapaz desliza o polegar sobre o ecrã do telemóvel, num movimento contínuo. Esse mesmo movimento é replicado por vários passageiros. De resto, se não fossem os polegares, o autocarro estaria quase em sossego. Que não em silêncio. Dois homens discutem o futebol da véspera. O árbitro inventou o “penalty”, diz um. Na semana passada já tínhamos sido roubados, acrescenta o outro.
Assim não ganhamos o campeonato, concordam. Esta e outras conversas não são o suficiente para acordar os que dormem. Alguns dormitam ao de leve, outros entregam-se a um sono mais profundo, o que não se supunha ser possível, face às posições desconfortáveis em que se encontram, dobrados nos bancos. A rapariga do lugar no canto esquerdo da última fila não dorme nem está acordada. Passeia os olhos através do vidro, de carro em carro, de casa em casa.
É sobretudo gente que se desloca para o trabalho. Daquele trabalho que tem de ser feito antes de os serviços abrirem. Trabalhadores desqualificados, auxiliares, mão-de-obra barata. Mas há quem trabalhe em lugares importantes: a passageira sentada no lugar atrás do motorista é telefonista num ministério; dois lugares à direita dela está uma mulher que lava as escadas de um prédio onde há meia dúzia de escritórios de advogados; o jovem a seu lado, de pé e apoiado num varão vertical, é segurança num museu; a meio do autocarro, também de pé e com a cabeça encostada no vidro, segue um motorista de um ministro.
