O debate que ocupa uma parte do establishment político dos EUA sobre o lado no qual se encontra Deus nas guerras lançadas por Donald Trump em geral e na guerra do Irão em particular tem algo de ridículo mas apresenta também uma virtualidade.
Ridículo porque o debate decorre no universo Marvel Comics onde o “Secretário da Guerra” Pete Hegseth vive as suas alucinações. Virtualidade porque esta é mais uma janela através da qual podemos olhar e analisar a política americana – ainda que o retrato que ela nos mostra esteja longe de ser esperançoso.
Sabemos que a subtileza não é uma característica da política americana e menos ainda da sua política externa, formada em quase dois séculos de diplomacia de canhoneira.
Conhecemos as características teocráticas da administração dos EUA e da Casa Branca em particular, onde Deus é servido como acompanhamento de todos os pratos, sejam republicanos ou democratas, e seja o tópico em discussão a expulsão de imigrantes, a tortura de presos ou o aumento do orçamento de Defesa.
Sabemos que a instância de validação religiosa é importante para os americanos, que não existe qualquer pudor em a utilizar e que também não existe míngua de pastores e clérigos disponíveis para encenar os rituais de entronização de políticos sem escrúpulos.
Apesar de tudo isto e dos choques violentos que se verificaram no passado entre Donald Trump e o Papa Francisco sobre as questões ambientais, a desigualdade económica e os direitos dos imigrantes, a nossa humana fraqueza tem tendência a considerar que, devido à secular experiência diplomática da Cúria Romana e à influência que lhe concedem os 1.400 milhões de católicos do mundo, o cristianismo pode ainda constituir uma referência moral e talvez moralizadora para a acção política americana – tanto mais que a esmagadora maioria do movimento MAGA se afirma fervorosamente e militantemente cristã. Nada mais errado.
De facto, quando Leão XIV defende o diálogo para promover a paz e afirma que “Deus não abençoa nenhum conflito” e que os discípulos de Cristo não estão do lado dos que “lançam bombas”, o campo trumpista lança-se num ataque cerrado garantindo que esta guerra americana – o argumento seria certamente o mesmo para qualquer outra – consiste num “plano divino de Deus”. “Divino de Deus”, para que não haja dúvidas sobre a origem. A retórica de cruzada regressa em força, depois das desgraças do Afeganistão (180.000 mortos) e do Iraque (300.000) e depois do genocídio palestiniano (certamente muito mais do que os 72.000 de que fala a ONU).
A disputa quanto ao lado por que Deus estaria a torcer – uma questão que tem algo de blasfémia – foi alimentada no circo mediático por inúmeras citações bíblicas em apoio do Deus bélico e Trump disse mesmo que Leão XIV não sabia nada de história, por ter dito que Deus não ouve as orações de quem faz a guerra. Aparentemente, as Cruzadas terão sido a voz de Deus e a Inquisição também. Trump está certo e o Vaticano errado.
Como de costume, as citações bíblicas que os republicanos americanos usam em defesa da guerra provêm do Antigo Testamento. São ainda do antigo Deus, cruel e vingativo, antes do seu aggiornamento pelo Cristo do Novo Testamento: a conquista de Canaã, o teste de Abraão, Sodoma e Gomorra, as pragas do Egipto, o Dilúvio, olho por olho, passar a fio de espada os varões, as mulheres, as crianças e sem esquecer o gado. E são quase sempre em defesa do “povo escolhido” e em favor do extermínio total dos seus inimigos. A Bíblia não fala dos americanos. Quanto a Cristo, nunca defendeu a guerra nem a violência. É curioso que os americanos MAGA, que se intitulam “cristãos”, nunca recorram a citações de Cristo nem se recordem nunca do seu “novo mandamento”. São cristãos velhos. Muito velhos. Tão velhos que são mais judeus que os cristãos-novos. Cristãos com saudades dos bons velhos tempos antes de Cristo, em que as mulheres eram mesmo lapidadas e o filho pródigo batia com o nariz na porta.
Trump diz que Deus está do lado da guerra. O Papa diz que Deus está contra a guerra. Em quem acreditar?
Poderia tratar-se de uma complicada questão teológica – ainda que para um cristão a questão seja simples: a palavra de Cristo (que é também Deus) tem precedência – mas, felizmente, não é necessário recorrer aos sábios e aos exegetas porque há um novo personagem em cena. Mais actual, ainda vivo, que até pode ser interrogado. Depois da história revista pelos Marvel Comics temos um super-herói que pode tirar não todos os pecados do mundo mas todas as dúvidas do mundo e todas as doenças do mundo com o seu toque mágico: Super Trump Jesus Christ.
A pergunta “De que lado está Deus?” deixa de fazer sentido. Não tem sentido perguntar de que lado está Deus quando Deus É um dos lados.
Trump diz que, na imagem que publicou da sua rede social, ele aparece não como Cristo mas como um médico da Cruz Vermelha. Está a ser modesto. E discreto. Essa é apenas a sua identidade secreta. Na imagem percebe-se que faz milagres e cura todos os males do mundo. Vê-se pela luz nas mãos e pelos caças a sobrevoar a sua cabeça. A revelação, o novo Pentecostes, não tardará. MAGA será a nova igreja. Pete Hegseth o novo sumo sacerdote e o vinho da missa será substituído por gin, servido em garrafas. E o novo mandamento que irá substituir os dez e o cristão será “Matai-vos uns aos outros como eu vos matei!”
Quantas imagens destas não estarão já a adornar os oratórios da América?


