Quando um responsável político descredibiliza estatísticas oficiais, que sinal transmite à sociedade? A resposta é óbvia: se nem em dados coligidos pelo Estado, através de metodologias há muito consolidadas, podemos acreditar, então temos via aberta para uma longa viagem pelas autoestradas da desinformação, quando não pelo sempre fértil pasto das teorias da conspiração. Assim se mina a confiança dos cidadãos nas instituições. É o passo que falta – se falta – para cada um de nós escolher a nossa própria verdade, mesmo que tal exercício implique torturar os factos até eles exprimirem o que queremos que exprimam.
Pois é esta exatamente a atitude a que assistimos nos últimos tempos. Mimetizando-se um ao outro, Carlos Moedas e Pedro Duarte afirmam abertamente que os dados oficiais – no caso, em matéria de segurança – não são de fiar. Pelo simples facto de perturbarem a sua narrativa política, em campanha eleitoral. Está vertido no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) que nas duas principais cidades do país não há excessivos problemas de segurança. Contudo, um documento que reúne informação recolhida, segundo o site do Sistema de Segurança Interna, por cerca de 25 entidades diferentes (tuteladas pelo Governo liderado pelo partido de que fazem parte) não pode contrariar o que os candidatos da direita às câmaras de Lisboa e do Porto constatam todos os dias. Pois se o primeiro até casos de violação convoca para os seus discursos! Pois se entraram na conversa de ambos as lojas de venda de souvenirs, por definição suspeitas da prática dos mais hediondos crimes! Eis o elo que faltava para associar criminalidade a imigração: lojas de venda de souvenirs.
Percorre-se todo o RASI de 2025 e não se descobre a palavra souvenir, colada ou não a estabelecimentos comerciais, nem o apuramento de dados criminais de acordo com a nacionalidade ou a etnia. Que importam tais “pormenores”, se eles “andam nas ruas” e detetam crimes que não são comunicados à polícia? O fenómeno da criminalidade não participada é tudo menos novo, mas não fora a argúcia e o olho de lince destes dois políticos, que o topam à distância, e nenhum de nós dele saberia – muito menos que esse tipo de criminalidade é cometido por imigrantes. Talvez sejam mais úteis à sociedade quando se dedicarem a esse inestimável trabalho de sapa. Muito pouparíamos ao erário público se em vez dos relatórios produzidos pelas autoridades policias pudéssemos ler as notas que todos os dias tomam. Seguramente que Pedro Duarte seria o primeiro a revelar o ataque a imigrantes na casa onde viviam, na cidade que se propõe governar.
Bem sabemos: tornou-se moda falar em perceções. Não para combater as que estão erradas; antes para as cavalgar ao sabor das conveniências do momento. E a conveniência do momento é, diz-se, “roubar bandeiras ao Chega”. Na ilusão de assim lhe retirarem eleitorado, não andam apenas a namorar a extrema-direita – “na segurança, estou mais próximo do Chega”, confessa, orgulhoso, Pedro Duarte, como se já não o tivéssemos percebido –; andam a oferecer argumentos, gratuitamente, a Ventura.
Moedas e Duarte são, oficialmente, agentes de desinformação, que a extrema-direita usa quotidianamente como arma de estratégia política. De uma penada, destroem os esforços de entidades concebidas para realizar factchecking, que procuram caçar mentiras disfarçadas de notícias. Com “inimigos” destes, o Chega não precisa de amigos.

