O país adormeceu no dia 18 de maio em estado de choque – uns mergulhados na incredulidade e no medo, outros na euforia. O choque aumentou quando se foi sabendo que cerca de um quarto dos votantes que rejeitavam voluntariamente a democracia tinha entre 18 e 24 anos, com uma percentagem mínima de abstenção. Os jovens portugueses entre os 18 e os 24 anos são poucos, porque já há décadas que a população não se renova (a taxa de natalidade só não é ainda mais baixa graças aos migrantes, que estes mesmos votantes agora diabolizam) mas o seu voto foi expressivo: elegeram voluntariamente uma limitação dos direitos humanos, rejeitaram uma sociedade diversa e inclusiva e privilegiaram o regresso ao “antes”, agora ficcionado pela passagem do tempo.
Esta percentagem de cerca de um quarto, maioritariamente rapazes, queria mesmo deixar uma mensagem. Muitos apresentavam baixos níveis de escolarização sugestivos de abandono escolar precoce, que talvez tenha dificultado uma redação alternativa desta mensagem, mas o resultado foi massivo e não se pode ignorar. A eleição foi festejada com pompa de vitória desportiva, um verdadeiro derby que deu por encerrado mais um capítulo do que alguns já chamaram uma guerra de alecrim e manjerona (neste caso uma guerra de “egos e testosterona”) com que o país tem sido brindado nos últimos meses.
Numa época de avanço civilizacional, em que muitos de nós acreditávamos viver num ecossistema humanista onde se privilegiava a equidade e a igualdade de oportunidades, uma sociedade inclusiva, dinâmica e diversa, foi aparecer uma franja de população que até apresenta escassez aos vários níveis social, académico, laboral e financeiro mas que, paradoxalmente, elege para seus representantes pessoas e ideias que justamente ditam a sua própria exclusão social, através de cortes radicais nas oportunidades, através do estigma, através da segregação. Ficou claro que querem um país xenófobo, que rejeite os que não se apresentam com a formatação desejada: branco, católico, classe média, homem (ou mulher complacente) e nem pensar ser cigano, homossexual, portador de deficiência ou não ter uma “arte final” com a formatação adequada.
Lembrou-me “A nova desordem amorosa” (Pascal Bruckner, 1981) onde é criado um imposto sobre a fealdade que leva à criação de brigadas para multar “os feios” e para obrigar os “feios demais” a usar uma máscara, para não ofender a estética dos outros. Ainda não há brigadas a monitorizar as ruas, mas também ainda temos pouco tempo disto…
Ainda recentemente, numa loja chinesa, um homem na casa dos quarenta gritava com a funcionária, tratando-a por tu: “Vê lá se aprendes português, se não levas um pontapé e rua…. aos anos aqui em Portugal… vê lá se aprendes!”
Curiosamente, muitos destes votantes ou dos seus familiares foram alvo da segregação que agora defendem, quando por exemplo emigraram para “a Europa”, ou quando imigraram das antigas colónias.
Alguém me dizia há dias, em tom consternado, que “os jovens costumavam ser generosos, solidários, abertos à vida e mesmo aventureiros, sedentos de coisas novas e diferentes”… Será que era mesmo assim?
Mergulhando na memória das minhas turmas de adolescente, recordo uns quantos rapazes a falar alto e grosso, para que toda a gente os ouvisse, a gabar-se do que fizeram a esta e àquela. Recordo-os pelos corredores a irem apalpando pelo caminho as nádegas que se insinuassem por baixo de uma saia demasiado curta ou demasiado apertada – as que se “punham a jeito”. Quanto mais boçais, mais reconhecidos eram como adequados exemplares de macho. Tinham o aplauso ruidoso do seu grupelho e mereciam um sorriso discreto mas conivente dos betos, mais sofisticados.
Se a coisa escalava e chegavam adultos, havia sempre alguma tolerância para o abuso do macho e um estigma sobre a miúda “que se tinha posto a jeito”.
Isso era antes? Antes de quê? Do 25 de Abril?
Na verdade, na geração seguinte, na dita geração X, a dos que tem agora 45-50 anos (em vez de 65-70 anos), ainda há muitos relatos de histórias assim, miúdas apertadas contra o muro ou a sebe das traseiras na escola porque “se estavam a pôr a jeito”, empurradas para o banco de trás de um automóvel porque “era o que elas queriam” (ou não estariam ali aquela hora, ou não usariam aquele vestido).
Once were warriors (A Alma dos Guerreiros) é o nome de um filme neozelandês de 1994, que vi há anos e me deixou arrepiada. Os jovens de hoje sentirão um arrepio na espinha, um intenso sentimento de revolta, ao assistir a uma injustiça sobre terceiros?
Talvez se arrepiem com outras coisas. E alguns talvez até vibrem com a violência e com a humilhação testemunhada ou infligida a terceiros.
“Antes”, alguns destes jovens tinham lá em casa um pai que se embebedava no dia da folga, gastava o salário do mês em vinho e, no regresso a casa, oscilava entre violar a mulher, espancá-la, ou as duas coisas, não se coibindo com a presença dos filhos que assim iam aprendendo “as coisas da vida”. “Entre marido e mulher não metas a colher”.
Eram todos assim?
Claro que não. Entre os que agora terão 65-70 anos já havia, na sua juventude, atividades mais ou menos espontâneas de proteção da natureza, plantar árvores, cultivar baldios, cuidar de animais abandonados, ensinar a ler crianças que não iam à escola, recolher materiais escolares para meninos andrajosos, ir a campos de trabalho no estrangeiro nas férias…
Entre os que viviam a testemunhar a violência e abuso lá em casa, havia os que ansiavam por crescer e poder fazer o mesmo, “à homem”, e também os que juravam que nunca se permitiriam tal coisa nas suas vidas.
Na juventude dos votantes agora com 45-50 anos já havia grupos organizados (os tais que eram proibidos “antes”, a não ser na catequese, onde por sinal havia muitos apalpões e abusos). Na juventude da geração X, havia grupos organizados de alfabetização, de trabalho na comunidade, de promoção da saúde sexual e reprodutiva, de tentativa de reduzir a violência na família e sobre as mulheres, de combate ao abuso sexual, de prevenção da gravidez não desejada, etc.
E o que aconteceu agora? Os netos dos primeiros e os filhos dos segundos, tornaram-se reacionários, egoístas, conservadores, xenófobos e burocratas?
Na infância dos primeiros havia opiniões que não se podiam expressar se não fossem validadas pelo regime, sob pena de prisão e mesmo prisão com tortura. Na infância dos segundos foi dada como adquirida a liberdade de expressão, de reunião, de opinião. Uma enorme conquista!
O que parece é que alguns (de entre os mais velhos) continuaram ao longo de todos estes anos a pensar de forma alinhada com o “tal” regime. Remeteram-se ao silêncio, apenas por um embaraço e cobardia provocados pela falta de apoiantes explícitos. E agora sentem que já podem sair da sombra!
Outros (de entre os mais novos) sentiram-se injustiçados por uma escassez de oportunidades que não lhes deram esperança no futuro e, no meio do seu desespero, pensaram que seria boa ideia “mandar tudo abaixo”. Como me disseram uns jovens num estudo recente que fiz, “no panorama atual não vemos nem uma luzinha no fundo do poço, o nosso voto num partido que detestamos foi um voto de desespero”.
Mas os jovens de hoje, tal como os da geração dos seus pais ou avós, não são um grupo homogéneo.
Temos de ouvir os jovens com atenção e de acreditar que irão conseguir encontrar causas mais nobres do que votar no desespero e vir a defender um futuro de qualidade para todos e para o planeta.
Para já, urge revitalizar um diálogo intergeracional, ouvir os jovens, os seus sonhos e os seus receios, encontrar com eles planos a curto, médio e longo prazo, que lhes permitam usufruir da enorme janela de oportunidade que é nascer e viver numa democracia, nascer e viver na Europa.
Urge também entender que as gerações anteriores não viveram num mar de rosas, e que a vida não flui sempre à custa de borlas, nem sempre à custa de desespero.
Os democratas agora são os velhos?
Haverá democratas entre os velhos, como os haverá entre os mais novos. Não vamos por aí. A clivagem social é um processo muito apreciado pelos regimes totalitários: dividir para reinar, pôr pobres contra ricos, novos contra velhos, homens contra mulheres, brancos contra não-brancos, católicos contra não-católicos, europeus contra não-europeus, heterossexuais contra não-heterossexuais….
Devemos voltar a falar disto dentro de 50 anos. Para já, vamos fazer planos de cidadania ativa e responsável, para que nessa altura ainda nos seja permitido falar sem medo, com respeito e liberdade – porque isso não está garantido. A própria Europa está preocupada e a solicitar estudos sobre o envolvimento dos jovens na vida pública e nas políticas públicas.
O que é fundamental é não nos deixarmos voltar a calar por mais meio século.
Jovens e menos jovens, devem envolver-se na vida do seu país, fazer ouvir a sua voz e transformá-la em ação. E não responder ao desespero dando voz a vozes que detestam.

