Depois das eleições autárquicas, a questão principal para o PS é rebobinar a fita do tempo e pensar. As reações dividem-se em duas direções opostas: a da facção do secretário-geral José Luís Carneiro, que considera que “o PS está de volta”, enquanto outras reações dispersas defendem que o resultado não foi bom e propõem uma reflexão mais profunda. Pertenço ao segundo grupo.
O PS parece adormecido. Falta-lhe energia e falta-lhe discutir a actual situação política com a profundidade que se reclamou depois da derrota nas legislativas. Falta a capacidade de analisar, como Costa fez recentemente, toda a perturbação e a manipulação de Marcelo ao longo do segundo mandato. Formular bem os problemas é uma condição para os enfrentar com novas propostas. É necessário marcar bem as diferenças com a direita, mas não as diferenças passadas: as diferenças futuras que, uma vez definidas, estudadas e proclamadas com firmeza num congresso ou noutro fórum criado para o efeito, possam constituir uma alternativa. Evitar golpes de estado internos; assumir tendências e divergências; fazer autocrítica se necessário for. Evitar as tentações da ortodoxia neoliberal que predomina globalmente quando o momento é de luta e combate!
Um dos levantamentos mais acertados dos problemas do PS foi feito por Pedro Adão e Silva:
“À hegemonia cultural da direita no espaço público junta-se uma maioria social evidente, se considerarmos a soma eleitoral de Chega, IL e PSD, tudo promovido por uma dinâmica externa de recuo da social-democracia e de ascensão da direita. Quando os ventos não sopram de feição e os tempos são difíceis, não é avisado alimentar um discurso ilusório sobre a realidade, que, como é sabido, se encarrega de regressar à primeira oportunidade. Como, aliás, as eleições presidenciais demonstrarão.”[1]
A questão está no “discurso ilusório sobre a realidade”, o discurso de José Luís Carneiro. O PS quer ser tão moderado no pós-trauma-Pedro-Nuno-Santos que corre o risco de adormecer em serviço. Começam mal ao declarar apoio a António José Seguro. Parece ser um caminho para a derrota: desistir já. Os moderados do PS no passado tinham coragem até para cometer os erros mais incríveis. Adão e Silva, ex-ministro de Costa, alerta e, ao contrário de Paulo Raimundo, “não está confortável com a situação”. Ou o PS tem a coragem de fazer oposição ou avançará lentamente (desaprendeu de correr) para a irrelevância, perante o poder crescente da direita (quase sempre unida), a continuação da berraria na Assembleia e a RTP com golpes sucessivos e saneamentos a chefiar “a cultura” do nosso tempo.
No lugar de José Luís Carneiro convocaria já um congresso para ter lugar livremente a análise séria da situação política que ficou por fazer depois das legislativas – algo que ele tornou inviável ao apresentar-se como candidato antes de qualquer reflexão coletiva, que outros reclamaram, como se o problema fosse apenas substituir Pedro Nuno Santos o mais depressa possível.
O debate interno reclamado por Fernando Medina, por Mariana Vieira da Silva, por Duarte Cordeiro, Marta Temido, Ana Catarina Mendes e mais alguns, ficou esquecido no tinteiro. Antevejo uma derrota nas presidenciais e, sobretudo, uma derrota nas ideias e na ausência de estratégia política face “à hegemonia cultural das direitas” que é o dado principal a ter em conta. Como se defronta? Em que termos? A ofensiva está já em curso e ainda não chegámos à legislação laboral, que contém tudo o que a direita no poder ambiciona sempre fazer: cortar direitos e mudar as regras. Para se re-legitimar enquanto secretário-geral seria necessário que Carneiro desse um passo atrás e reconsiderasse toda a situação actual com tempo para debates e apresentação de propostas. Caso contrário – por entre os aplausos da direita à “abstenção violenta” ou à “abstenção exigente” como demonstração de maturidade, confesso não ver alternativa neste momento – seguir-se-á uma fase cinzenta, na qual se fará oposição interna em artigos nos jornais ou em entrevistas nas TVs, que abrirão as portas com gosto e alguma excitação às posições críticas. Sabemos como decorreu o pequeno período depois da demissão de Pedro Nuno Santos. Foi demasiado apressado, não deu nem espaço nem tempo para nenhuma reflexão relevante e impediu um debate sério no partido sobre o resultado das legislativas no qual se apresentassem outras análises e talvez candidaturas. Tal como agora, no pós-autárquicas, há igualmente duas perspectivas em confronto virtual. O debate interno no PS trava-se nos jornais ou nas TVs. Nem estados gerais nem congressos no horizonte. Não parece um caminho que dê grandes resultados.
[1] “O PS voltou mesmo?”, Público, 14 Outubro 2025. https://www.publico.pt/2025/10/14/opiniao/opiniao/ps-voltou-2150797

