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© Nuno Ferreira Santos
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Seguro construiu o dique, não desperdicemos a oportunidade

A almofada temporal que a presidência de Seguro oferece permite reconstituir alianças à esquerda, instrumento indispensável à apresentação de projetos mobilizadores. Sem sobranceria, sem ignorar os anseios dos cidadãos que se deixaram convencer pela gritaria populista, sem enjeitar responsabilidades.

Quando André Ventura tirou da cartola a proposta de adiar as eleições, o argumento de que votar era a última preocupação das vítimas das tempestades não foi taticismo; brotou das profundezas do seu ser político. A democracia deveria ser removida, para que emergisse um caudilho, pronto a pôr o país em ordem, criar um regime especial para perseguir o suposto bando de assaltantes de geradores, levar em três tempos energia a todos os que dela ficaram privados e acabar, por artes mágicas, com as inundações.

Quando Luís Montenegro proclamou uma envergonhada neutralidade, não foi calculista; foi apenas imprudente. Pode compreender-se que na noite eleitoral da primeira volta tivesse de alegar equidistância, mas nada o impedia de mudar de agulha mais tarde. Talvez só agora tenha percebido que o que Ventura proclama aos quatro ventos é para levar (mais) a sério com 33% dos votos: o incontido desejo de alcançar o pódio da direita à custa do PSD, mal possa dar-lhe uma machadada.

Quando Paulo Núncio cumpriu o papel de que orgulhosamente o CDS se investiu – sucursal do Chega, qual MDP-CDE da direita – não foi taticista, nem calculista. Foi apenas igual a si próprio, sem compreender que rapidamente seria empurrado para o meio da ponte. Numa margem, a mal disfarçada sedução pelo suposto líder forte; na outra, a incómoda demagogia do dito, a cavalgar sem esporas qualquer protesto contra qualquer Governo (que jeito deu, para o efeito, a calamidade…).

Tudo isso, porém, foi varrido para o pé de página da história pela esmagadora vitória de António José Seguro. Lugar-comum por lugar-comum, aqui fica mais um: Seguro é o seguro de vida do regime democrático, pelo menos por cinco anos. Conteve o dique, mas não é líquido que no curto e médio-prazo os ventos que sopram da extrema-direita percam velocidade.
É preciso que a esquerda tome consciência de que não ganhou senão esse período para se repensar. Que seja capaz de assegurar autonomia estratégica de forma a posicionar-se como alternativa credível. Que, no imediato, tenha coragem de retomar a discussão sobre os efeitos da entrega de setores nevrálgicos a privados (ou, no caso da E-Redes, do grupo EDP, ao Estado chinês, graças à detenção da maioria do capital por uma empresa que controla, desde que a troika lhe abriu as portas). Que assuma a efetiva rejeição, também através dos seus autarcas, da ocupação urbanística de zonas costeiras e de leitos de cheia.

Seguro é o seguro de vida do regime democrático, pelo menos por cinco anos. É preciso que a esquerda tome consciência de que não ganhou senão esse período para se repensar.

Mais do que isso: é preciso, com a almofada temporal que a presidência de Seguro oferece, reconstituir alianças à esquerda, instrumento indispensável à apresentação de projetos mobilizadores, suscetíveis de garantir o apoio de quantos se convencem de que a gritaria venturista melhora as suas vidas. Sem sobranceria, sem ignorar os anseios desses cidadãos, sem enjeitar responsabilidades. Nenhuma convergência será possível se o PS cair na tentação de recolher para si os louros da vitória.

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AUTOR/A

  • Paulo Martins

    Jornalista desde 1983, é diretor-adjunto da revista Jornalismo & Jornalistas. Foi dirigente sindical e membro da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Integra a Direção do Clube de Jornalistas e o Conselho Geral da Casa da Imprensa. Professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (Universidade de Lisboa), a sua principal área de docência e investigação é a ética e a deontologia jornalísticas. É autor de “O Privado em Público – Direito à informação e direitos de personalidade” (2013) e “O Bairro dos Jornais” (2018).

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