Escrevo a partir da minha perspetiva de médico de família, nos Cuidados de Saúde Primários (CSP), que reconhece os Serviços de Urgência como um recurso essencial mas frequentemente utilizado de forma desajustada. Na prática clínica, contacto diariamente com as percepções e motivações dos utentes relativamente ao Serviço de Urgência (SU). Falo tanto dos doentes que referencio como daqueles que recorrem ao SU por iniciativa própria, muitas vezes em situações não urgentes. Começo com uma breve vinheta clínica. A Sr.ª D. Adelaide, utente experiente no sistema de saúde, com várias queixas crónicas, respondeu-me com entusiasmo quando lhe perguntei como tinha sido o seu aniversário (ocorrido na semana anterior): “O meu marido levou-me à Urgência!”
Perante a minha surpresa, esclareceu: não se passara nada de especial mas o marido, conhecendo bem as suas dores, decidiu que aquele seria o melhor local para realizar exames e obter avaliação por um “médico especialista”. Este episódio, aparentemente insólito, revela uma realidade bem mais profunda: para muitos cidadãos, o SU representa o acesso mais rápido, completo e eficaz aos cuidados de saúde. Este imaginário hospitalocêntrico está enraizado na cultura portuguesa e é reforçado por fatores sociais, psicológicos e organizacionais. A evidência confirma que a procura inapropriada do SU está fortemente associada à conveniência da pessoa que o utiliza: funcionamento 24 horas, ausência de necessidade de marcação, acesso imediato a exames complementares e avaliação por especialistas.
O papel central dos Cuidados de Saúde Primários
O SU funciona assim, frequentemente, como válvula de escape das fragilidades do sistema. Absorve doentes que aguardam consulta nos CSP, nos cuidados hospitalares ou na rede de cuidados continuados, muitas vezes por períodos que os próprios consideram excessivos face à gravidade percepcionada. Sem CSP acessíveis, resolutivos e robustos, a procura desloca-se inevitavelmente para o hospital. Este fenómeno resulta em ineficiência, aumento de custos e piores resultados em saúde. Para que os CSP assumam plenamente o seu papel como primeiro ponto de contacto nas situações não emergentes, é essencial:
- Reforçar a atratividade da Medicina Geral e Familiar, com melhores condições de trabalho e valorização da carreira.
- Investir em equipas multidisciplinares (médicos, enfermeiros, assistentes técnicos, assistentes sociais), garantindo proximidade e resposta integrada.
- Assegurar acesso a consulta no próprio dia ou em tempo clinicamente adequado.
Importa sublinhar que a resposta à doença aguda é apenas uma parte da missão dos CSP. A promoção da saúde, a prevenção da doença, a gestão da multimorbilidade e a coordenação de cuidados são também dimensões centrais das equipas de saúde de maior proximidade com a comunidade. A evidência demonstra que a continuidade de acompanhamento por um médico de família está associada à redução da mortalidade.
Integração de cuidados e gestão da doença crónica
Muitos episódios agudos surgem no contexto de doença crónica, muitas vezes, complexa. Esta realidade exige articulação eficaz entre CSP e cuidados hospitalares.
Atualmente, o acesso aos cuidados hospitalares está excessivamente dependente de dois canais: a referenciação para consulta ou o recurso ao SU. A ausência de mecanismos ágeis para discussão clínica entre profissionais conduz, frequentemente, à utilização do SU como porta de entrada alternativa. É fundamental evoluir para um modelo de gestão clínica integrada, com:
- Partilha de informação em tempo real.
- Comunicação direta entre níveis de cuidados.
- Criação de vias alternativas de acesso hospitalar para situações urgentes não emergentes.
Literacia em saúde: uma prioridade estrutural
A literacia em saúde é um pilar essencial para o funcionamento eficiente do sistema. Mais do que regulamentar o acesso, é necessário capacitar os cidadãos para decisões informadas sobre quando, como e onde procurar cuidados. Uma população mais informada utiliza melhor os recursos disponíveis, reduz contactos desnecessários e melhora os resultados em saúde. A curto prazo, é crucial fornecer orientações simples e claras para situações de doença aguda. O reforço de linhas telefónicas de triagem e aconselhamento — cuja eficácia foi demonstrada durante a pandemia — pode desempenhar um papel central. A médio e longo prazo, a literacia deve ser encarada como investimento estratégico, promovendo autonomia, responsabilidade e uso adequado dos serviços.
A sobrelotação dos serviços de urgência não é apenas um problema de procura excessiva — é o reflexo de desequilíbrios estruturais no sistema de saúde. Resolver este desafio exige reforço dos CSP, melhor integração de cuidados e uma aposta séria na literacia em saúde.
Nota: Este texto nasce de uma intervenção feita por mim no âmbito do debate “Como acabar com o caos nas Urgências?” promovido pela associação Causa Pública em parceria com a livraria Almedina, que teve lugar em Lisboa a 25 de Fevereiro de 2026.

