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De vítimas a agressores? O caso dos judeus israelitas.

De vítimas a agressores? O caso dos judeus israelitas.

O passado dia 3 de Julho marcou o milésimo dia da operação de genocídio que o estado de Israel leva actualmente a cabo em Gaza. Daniel Bar-Tal, um psicólogo social judeu israelita, faz neste texto de ensaio um levantamento histórico das raízes do conflito que está no cerno do “conflito do Médio Oriente”: a questão palestiniana, viva há mais de um século de massacres e tentativas sempre frustradas de paz. O que inquieta Bar-Tal é uma pergunta que todos nos fazemos, mas que um judeu com sentido moral se coloca com uma particular acutilância, com desespero, uma pergunta trágica: como é que um povo perseguido e martirizado como os judeus veste a pele do opressor e do genocida.

Em homenagem a Halina Balter

Como explicar um dos paradoxos mais perturbadores da História?

Durante dois mil anos, os judeus foram vítimas de uma cadeia quase ininterrupta de sofrimentos: perseguições, pogroms, expulsões, acusações de sacrifícios rituais, impostos especiais, conversões forçadas e massacres, culminando no Holocausto, no qual seis milhões de judeus inocentes foram assassinados em apenas sete anos (1938-1945). No entanto, no espaço de uma só geração, esse mesmo povo, moldado por uma experiência de séculos de vitimização, tornou-se ele próprio, aos olhos de muitos, um perpetrador de limpeza étnica, fautor de um regime de apartheid e de actos de pilhagem violenta de outro povo: os palestinianos. Como é que isso acontece? Como é que uma vítima se torna um opressor?

Introdução

O conflito israelo-árabe — a luta mais ampla no seio da qual surgiu o conflito israelo-palestiniano — teve início no final do século XIX, quando as primeiras vagas de colonos judeus chegaram à Palestina, na altura uma província do Império Otomano em decadência. Nessa época, os judeus constituíam uma minoria ínfima: em 1880, viviam aí 27.000 a 30.000 judeus, a maioria dos quais não sionistas, representando não mais do que 4 a 6 por cento da população local.

As raízes do conflito residem num choque de sonhos. Os judeus que chegaram vinham sob a bandeira do sionismo — um movimento nacional nascido do desespero e do orgulho, assente na convicção de que a sobrevivência judaica exigia uma pátria própria. Espalhados pela Europa, América e outros continentes, vulneráveis aos caprichos das nações de acolhimento, os judeus precisavam, argumentavam os sionistas, de um lugar onde pudessem ser senhores do seu próprio destino. Esse lugar, na sua visão, era a antiga terra de Israel. E assim chegaram — primeiro em pequenos grupos, depois em vagas — para construir casas, cultivar a terra e estabelecer-se. Mas a terra à qual chegavam não estava desabitada. A Palestina era o lar de uma população árabe que, nesse mesmo momento histórico, no mesmo território, despertava para a sua própria identidade nacional. Dois povos, dois sonhos, uma terra: o choque era, em retrospectiva, quase inevitável.

A inevitabilidade deste fenómeno foi evidente desde muito cedo, pelo menos, para um observador perspicaz: Nagib Azoury, um cristão maronita e funcionário otomano sediado em Jerusalém, que publicou um notável alerta em 1905, no seu livro “Le Réveil de la Nation Arabe” (O Despertar da Nação Árabe):

“Dois fenómenos importantes, da mesma natureza mas opostos, estão a emergir neste momento na Turquia asiática. Trata-se do despertar da nação árabe e do esforço latente dos judeus para reconstituir, em grande escala, o antigo Reino de Israel. Estes dois movimentos estão destinados a confrontar-se até que um deles prevaleça sobre o outro. O desfecho final desta luta, entre dois povos que representam dois princípios contraditórios, poderá moldar o destino do mundo inteiro.”

Parece mais uma profecia do que uma análise política — e concretizou-se. Desde o momento em que os primeiros pioneiros sionistas pisaram a Terra Santa, em 1882, os dois movimentos têm estado envolvidos numa luta contínua e, muitas vezes, violenta.

Essa luta, no entanto, não se manteve simétrica. Até 1948, os judeus eram a parte mais fraca, uma minoria empenhada na luta pelo seu direito a imigrar, a adquirir terras e a sobreviver. Desde a guerra de 1948, o equilíbrio de forças mudou de forma decisiva: os judeus passaram a ser a maioria no seu novo Estado e assumiram uma posição hegemónica.

Este ensaio traça esse percurso ao longo de seis fases, desde 1882 até aos dias de hoje. Em cada fase, identifico os acontecimentos marcantes e as correntes ideológicas que moldaram a consciência judaico-israelita e consolidaram a sua narrativa dominante. O meu objetivo não é apresentar uma história exaustiva do conflito israelo-palestiniano — que exigiria muitos volumes. Este é um relato seletivo, centrado especificamente numa única e urgente questão: como é que as vítimas se tornaram os agressores?

A primeira fase (1882 a 1947): ideologia sionista e conflito violento

O primeiro período teve início com a chegada da Primeira Aliá, em 1882 — a primeira onda de imigração sionista para a Palestina, então ainda sob controlo otomano. Esse período estendeu-se até à conquista britânica de 1917 e ao Mandato Britânico que se seguiu, estendendo-se formalmente desde 1920 a 1948. Foi durante estas décadas que se forjaram as atitudes, visões e aspirações que viriam a moldar a mentalidade judaico-israelita nas gerações seguintes. Vejamos em que consistia esse repertório fundador.

Deslegitimação

Os primeiros encontros entre judeus sionistas e árabes no século XIX deixaram uma marca duradoura, que se consolidaria num estereótipo ao longo das décadas seguintes. As primeiras vagas de imigrantes sionistas eram na sua esmagadora maioria europeias e muitos traziam consigo os pressupostos coloniais e eurocêntricos da sua época: acima de tudo, a crença de que a civilização europeia era simplesmente superior às outras. Através desta perspetiva, herdada do pensamento europeu do século XIX e início do século XX, o mundo árabe, amalgamado sob a designação de “Oriente”, surgia como atrasado, primitivo, congelado no tempo. Esta visão orientalista contaminou profundamente as atitudes sionistas iniciais, retratando os árabes como inerentemente inferiores. Com o tempo, solidificou-se em algo próximo de um consenso nacional: os árabes eram um povo incivilizado, preso num mundo feudal sem qualquer conceito real de justiça ou modernidade. Essa imagem deslegitimadora, surpreendentemente, ainda hoje circula entre uma grande maioria dos judeus israelitas.

Sonhos de expansão

Muitos líderes sionistas sonhavam com um Estado muito maior do que aquele que acabou por surgir e a Cisjordânia fazia parte integrante desse sonho desde o início. Formaram-se dois campos logo no início, mas ambos consideravam a Cisjordânia (Margem Ocidental do rio Jordão) como algo adquirido; a verdadeira disputa era pela Margem Oriental (Transjordânia), não pela Judeia e Samaria. Para praticamente todos no movimento sionista, a Cisjordânia nem sequer estava em debate. Partia-se simplesmente do princípio de que fazia parte da futura pátria. Esta posição foi formalmente expressa em 1919 em Versalhes pela Organização Sionista, através das vozes de Theodor Herzl, Chaim Weizmann, David Ben-Gurion, Ze’ev Jabotinsky e outros. Essa visão permanece viva até hoje, defendida por figuras de destaque do governo, grande parte da oposição e a maioria do público judeu israelita.

O sonho da transferência

Desde as primeiras vagas de imigração, a maioria dos líderes sionistas também alimentava uma visão mais sombria: o desaparecimento da população árabe, fosse através da emigração voluntária ou, se isso não se verificasse, da transferência forçada. Herzl, Ben-Gurion e outros líderes judeus falavam disso abertamente. E, em vários momentos críticos desde então — na guerra de 1948, na guerra de 1967 e, novamente, desde 2023 — esse sonho tem sido parcialmente concretizado por figuras de destaque do governo israelita e das forças armadas israelitas.

O Novo Judeu

O movimento sionista inicial, especialmente através de pensadores como Max Nordau e dos sionistas culturais que se seguiram, propunha-se forjar algo a que chamava o “Novo Judeu”: o Muskeljude, ou “Judeu Atlético”. Pretendia-se que fosse uma ruptura decisiva com a identidade da diáspora. Desapareceria o judeu pálido, mergulhado nos livros e confinado ao gueto, passivo, vergado por séculos de perseguição, eternamente dependente da tolerância dos vizinhos gentios. Em seu lugar erguer-se-ia um hebreu orgulhoso, fisicamente vigoroso e autossuficiente, alguém que trabalharia a terra com as próprias mãos e que, quando fosse necessário, a defenderia com os seus próprios punhos. Este novo judeu não deveria nada a ninguém, não procuraria a aprovação exterior e seria definido pela sua coragem e pela ação direta, em vez de recorrer à negociação ou ao apaziguamento. Tratava-se, na essência, de uma reinvenção total da identidade judaica: de um povo moldado pelo exílio e pela sobrevivência para um povo moldado pela soberania e pela força da vontade.

Ameaça, medo e insegurança

À medida que a ameaça ambiente se intensificava ao longo do tempo — em grande medida em resposta ao ritmo acelerado da imigração sionista —, gerava-se um sentimento cada vez mais profundo de medo e insegurança entre os judeus na Palestina, um sentimento que se consolidaria como uma pedra angular da visão dominante do mundo sionista. Os árabes eram cada vez mais retratados não como vizinhos, mas como adversários numa luta de soma zero pela terra e pela legitimidade nacional. Na viragem do século, a resistência palestiniana ganhou força. À medida que foram eclodindo os confrontos violentos do início do século XX, esta caracterização solidificou-se em algo mais sombrio: uma narrativa que deslegitimava totalmente a presença palestiniana, retratando os palestinianos como violentos, indignos de confiança, ladrões e assassinos, uma ameaça existencial permanente ao próprio projeto sionista. Os árabes, nesta narrativa, não eram apenas hostis. Eram turbas irracionais, com intenções malévolas, empenhadas em destruir o sonho nacional judeu. Os colonos estavam a fundar novas instituições e a comprar terras em grande escala. E essas aquisições de terras tinham um custo humano: os fellahin (camponeses) palestinianos, que cultivavam a terra há gerações ao abrigo do sistema feudal existente, eram frequentemente expulsos assim que a propriedade mudava de mãos. 

A violência que se seguiu não foi caracterizada por actos isolados nem acidentais.  Em 1920 e em 1929 eclodiram motins que deixaram bem claro que o cenário era agora de um conflito violento e prolongado. Os motins de 1920 em Jerusalém foram desencadeados pela ininterrupta imigração judaica, tanto para a cidade como para as aldeias periféricas da Galileia. Os motins de 1929 começaram por disputas quanto ao acesso ao Muro das Lamentações, mas alastraram-se rapidamente a Hebron, Jaffa, Safed e mais além. E, em 1936, eclodiu uma revolta palestiniana contra o domínio britânico, alimentada pela enorme escala da imigração judaica. Esta revolta iria prolongar-se até 1939, causando pesadas baixas entre a população palestiniana. Na sua maioria, os judeus aliaram-se aos britânicos na repressão da rebelião, o que os tornou alvos de ataques palestinianos e, por sua vez, deu origem a uma retaliação violenta por parte de milícias judaicas. 

Em resultado da situação os judeus sentiram a necessidade de criar as suas próprias organizações paramilitares clandestinas para se defenderem: surgiram o Hashomer, a Haganah, o Palmach, o Etzel e o Lehi. E cada nova ronda de conflito aprofundou e endureceu os estereótipos negativos e violentos que cada lado alimentava sobre o outro. Fundamentalmente, foram os judeus que, ao longo do tempo, construíram as narrativas que sustentaram o conflito, histórias que justificavam a continuação da luta contra “o inimigo”, sem nunca tentar construir uma paz que o outro lado pudesse reconhecer como justa.

Há uma coisa importante que deve ser referida: este repertório psicológico não foi inventado a partir do zero. Muitas das suas componentes foram extraídas de uma tradição judaica muito mais antiga. O sentimento de vitimização, por exemplo, está profundamente enraizado na cultura judaica, gravado por séculos de experiência histórica. O mesmo se passa com uma poderosa autoimagem etnocêntrica, enraizada na convicção milenar de serem o “Povo Escolhido” e “uma luz para as nações”. À medida que o conflito com os árabes foi tomando forma, estas crenças mais antigas — o sentimento de vitimização e a autoimagem positiva — foram adaptadas e integradas na narrativa coletiva emergente. Outros elementos, como o fervor patriótico e a deslegitimação dos árabes, eram mais recentes, forjados especificamente pelo próprio conflito. E assim que esta visão do mundo se consolidou na mente coletiva, tornou-se algo mais do que uma crença: tornou-se a lente através da qual as pessoas interpretavam os acontecimentos, avaliavam a informação e decidiam como agir.

Vale também a pena recordar que a Grã-Bretanha, por seu lado, partilhava abertamente os objetivos sionistas, uma solidariedade consagrada na Declaração Balfour. Essa solidariedade concretizou-se logo no início, com a nomeação de Lord Herbert Samuel, judeu e ele próprio sionista, como primeiro Alto Comissário para a Palestina. Sob o patrocínio britânico, foram criadas e reforçadas instituições e organizações judaicas que promoviam a causa sionista. Só no final da década de 1930, à medida que os protestos árabes se intensificavam, é que esse apoio começou a diminuir, acompanhado por restrições cada vez mais rigorosas à imigração judaica para a Palestina.

Foi então que eclodiu a Segunda Guerra Mundial, na qual seis milhões de judeus foram assassinados. O trauma foi de tais proporções que iria remodelar tudo o que se seguiu. Centenas de milhares de sobreviventes procuraram refúgio na Palestina, apenas para encontrar as portas fechadas pela Grã-Bretanha. Foi isto, o horror da guerra e as suas consequências, que finalmente levou a Grã-Bretanha a abandonar completamente o Mandato para a Palestina e a entregar a questão da Palestina às Nações Unidas, sucessora da Liga das Nações.

Fase Dois (1947–1966): Partilha, Guerra e a Nakba

A 29 de novembro de 1947 a Assembleia Geral da ONU votou a favor do fim do Mandato Britânico e da partilha da Palestina em dois Estados: um judeu e outro palestiniano, com Jerusalém colocada sob supervisão internacional. Os números por trás desse plano falam por si: os judeus, que na altura representavam 33% da população (cerca de 650.000, apesar de possuírem apenas 6% das terras), ficaram com 56% do território. Os palestinianos, que representavam 67% da população (cerca de 1.350.000 pessoas), ficaram com apenas 43%. Não é difícil compreender por que razão os líderes palestinianos e a população em geral rejeitaram o plano como sendo profundamente injusto. Os principais líderes sionistas judeus, pelo contrário, aceitaram-no formalmente, e a Grã-Bretanha anunciou que o Mandato terminaria à meia-noite de 14 de maio de 1948.

A guerra civil eclodiu quase imediatamente, à medida que a autoridade britânica se desmoronava e os ataques palestinianos às comunidades judaicas se multiplicavam. A primeira fase da guerra pôs as duas comunidades em confronto. O lado árabe deteve inicialmente a iniciativa e os combates centraram-se em estradas, cidades mistas e comunidades isoladas. As forças judaicas (a Haganah), por seu lado, passaram das operações defensivas à ofensiva, tentando assegurar o controlo do território atribuído ao Estado judeu. Depois de Israel ter declarado a sua independência, vários Estados árabes intervieram, sem uma real coordenação e com objetivos diferentes, em nome de uma comunidade palestiniana já devastada pela rebelião de 1936, desencadeando a guerra árabe-israelita de 1948. À medida que a guerra progrediu, as forças judaicas foram ganhando vantagem, reforçadas por envios de armas da Checoslováquia e pela mobilização total da sua população. 

Fundamental para esta reviravolta foi o Plano Dalet, um projeto militar visando a conquista de território em toda a Palestina Mandatária, em preparação para a criação do Estado judeu. Encomendado pelo líder da Agência Judaica (e futuro primeiro-ministro) David Ben-Gurion e finalizado pela Haganah a 10 de março de 1948, o plano orientou as operações militares israelitas desde esse momento até ao fim da guerra, no início de 1949. O Plano Dalet viria a revelar-se fundamental para a operação a que os palestinianos chamam Nakba, a sua expulsão em massa. As táticas usadas eram implacáveis: sitiar aldeias árabes, bombardear bairros urbanos, expulsar à força os residentes e incendiar casas e campos, para depois detonar explosivos nos escombros de forma a garantir que ninguém pudesse regressar.

No final da guerra, em 1949, Israel controlava mais 22% de território do que o previsto no plano de partilha. Para os israelitas, foi uma vitória. Para os palestinianos, foi a Nakba, a catástrofe. Cerca de 750.000 palestinianos fugiram ou foram expulsos, tornando-se refugiados; cerca de 450 aldeias foram destruídas no processo. No total, cerca de 12.000 palestinianos foram mortos, aproximadamente 1% da população, muitos deles em massacres. Após o fim da guerra, mais 3.000 palestinianos foram mortos ao tentarem regressar às suas terras para recuperar os seus pertences ou colher as suas culturas. Israel classificou-os como “infiltrados” e autorizou os soldados a disparar à vista quando os detectassem. A sociedade palestiniana, com as suas instituições, as suas elites, a sua liderança política e as suas heranças sociais e culturais, foi efetivamente desmantelada.

Os israelitas também pagaram um preço elevado: cerca de 6.000 judeus foram mortos, cerca de 1% da população judaica, muitos dos quais no decurso de massacres.

Os cerca de 150.000 palestinianos que ficaram dentro das fronteiras de Israel após a guerra foram submetidos a um rigoroso controle militar até 1966, com limitação das deslocações, controlos de trabalho, confiscação de terras, vigilância política, censura severa e toques de recolher arbitrários. Ao mesmo tempo, uma grande onda de imigração judaica trouxe para Israel, entre 1948 e 1951, aproximadamente 688.000 pessoas, principalmente sobreviventes do Holocausto e judeus do Norte de África e do Médio Oriente.

Durante as duas primeiras décadas de vida do Estado de Israel, o regime era autocrático: havia uma censura severa, as greves e as manifestações eram proibidas e a população era tratada de forma diferenciada. Uma cultura hegemónica dominava praticamente todas as instituições nacionais, a produção cultural, os manuais escolares, a retórica oficial, os discursos dos líderes, as cerimónias nacionais, o espaço público — tudo. Os meios de comunicação social desempenharam um papel central na manutenção deste ambiente – principalmente a rádio, a par dos jornais e das revistas. A rádio era controlada diretamente pelo gabinete do primeiro-ministro, que a utilizava para promover o espírito de conflito. Enquanto principal canal de informação para o público, os meios de comunicação social ajudavam a fabricar esse espírito e a enraizá-lo na consciência pública. Esta narrativa dominante, seletiva, tendenciosa e distorcida de forma deliberada, constituiu a base cultural do conflito. Amplificava tudo o que reforçava a narrativa e enterrava tudo o que não o fazia. Durante estes anos, não houve qualquer oposição política significativa a este estado de coisas.

Vale a pena fazer aqui uma pausa para refletir sobre algo essencial: da perspetiva judaica, o Holocausto não é simplesmente um evento histórico entre muitos outros, mas funciona como uma espécie de metáfora da própria história judaica. Isto é extremamente importante para compreender a mentalidade de cerco, o medo e a insegurança que permeiam a sociedade israelita. Uma observação de Amos Elon, escrita há décadas, continua a captar esta realidade com uma precisão impressionante:

“O Holocausto continua a ser um trauma fundamental da sociedade israelita. É impossível exagerar o seu efeito no processo de construção da nação… Existe uma histeria latente na vida israelita que decorre diretamente desta fonte… O trauma do Holocausto deixa uma marca indelével na psicologia nacional, no tom e no conteúdo da vida pública, na condução dos assuntos externos, na política, na educação, na literatura e nas artes.”

Durante este mesmo período, Israel recebeu um apoio militar, tecnológico e económico substancial tanto da França como da Alemanha, sendo este último, em parte, uma compensação aos judeus pelo Holocausto.

Terceira Fase (1967–1993): A ocupação consolida-se

Esta fase teve início com a guerra de 1967, uma vitória decisiva de Israel que, em seis dias, colocou o Sinai e Gaza sob controlo israelita (capturados ao Egito), juntamente com a Cisjordânia (capturada à Jordânia) e os Montes Golã (capturados à Síria). Vou centrar-me aqui apenas na Cisjordânia e em Gaza, uma vez que estes são os territórios povoados por palestinianos.

O primeiro facto digno de nota: a par do triunfo militar, cerca de 200.000 palestinianos fugiram, foram deslocados ou expulsos para a Jordânia. Foram proibidos de regressar após a guerra e o exército tratava qualquer pessoa que o tentasse como um “infiltrado”, um alvo legítimo a abater. Essa ordem, que partiu do general Uzi Narkis e do ministro da Defesa Moshe Dayan, equivaleu a uma Nakba em pequena escala.

O estatuto jurídico da Cisjordânia tem sido contestado desde 1967: trata-se de “território ocupado” ou meramente de “território disputado”? Quase todos os Estados e organismos internacionais, juntamente com uma pequena minoria dentro da sociedade judaica israelita, defendem a primeira descrição, que tem um peso real: a ocupação implica o controlo temporário sobre um território contra a vontade da sua população, por parte de um Estado que não reivindica soberania permanente. Aqueles que preferem “disputado” salientam que o território nunca pertenceu a nenhuma entidade política soberana, uma vez que, ao abrigo do plano de partilha da ONU de 1947, se destinava a fazer parte de um Estado árabe. Seja qual for a designação jurídica, o controlo militar e civil israelita engloba todas as dimensões da vida palestiniana na Cisjordânia e em Gaza.

Logo após a guerra, dois argumentos retóricos ganharam força na política israelita. O primeiro dizia respeito à segurança, à necessidade de fronteiras defensáveis e de profundidade estratégica. O segundo era de cariz histórico e religioso e foi enunciado pelo ministro da Defesa Moshe Dayan: “Regressámos aos nossos locais mais sagrados, para nunca mais nos separarmos deles.” Figuras de destaque do Partido Trabalhista apoiaram tanto a expansão territorial como a colonização judaica dos territórios recém-ocupados, enquadrando-os, de forma incisiva, como “fronteiras de Auschwitz”. A 27 de setembro de 1967, três meses depois da Guerra dos Seis Dias, foi publicada nos principais jornais do país uma declaração pública a apoiar a visão de um Grande Israel, assinada por 57 dos mais proeminentes escritores, intelectuais, oficiais militares de alta patente e figuras políticas de Israel, nomes reconhecidos tanto na altura como hoje. A declaração ficou conhecida como o manifesto do Movimento pelo Grande Israel e a sua influência na opinião pública judaica foi enorme.

Os territórios recém-ocupados foram quase imediatamente reclassificados como “libertados” e rapidamente recuperaram os seus nomes antigos: Judeia e Samaria, o berço da história, religião e cultura judaicas. A palavra “ocupado” simplesmente desapareceu do vocabulário oficial e do discurso público. A 28 de junho de 1967, Israel anexou formalmente Jerusalém Oriental. É de salientar que, já nesse mesmo mês de junho, o primeiro-ministro Levi Eshkol, do Partido Trabalhista, na sua qualidade de presidente do Comité Ministerial de Segurança, já tinha determinado que a fronteira de segurança de Israel se estenderia ao longo do rio Jordão. No mês seguinte, o ministro do Trabalho, Yigal Allon, elaborou um plano não oficial que viria a moldar a política de colonização durante décadas: segundo o seu quadro, a fronteira oriental de Israel seguiria o rio Jordão, o que significava que o Vale do Jordão e as encostas orientais da Cisjordânia precisavam de ficar sob controlo israelita para formar uma fronteira defensável. O plano previa também a colonização judaica em torno de Jerusalém. No verão de 1967, para além de Jerusalém Oriental, os judeus já tinham começado a estabelecer-se em Gush Etzion. O plano de Ariel Sharon, na qualidade de ministro da Defesa e da Agricultura no governo do Likud, consistia em colonizar as colinas da Cisjordânia para estabelecer um número suficiente de colonatos, estradas e corredores que garantissem o controlo duradouro de Israel sobre a maior parte do território e impedissem o desenvolvimento de um Estado palestiniano contíguo. Este plano foi posto em prática pelos governos do Likud. 

O governo, por seu lado, cedeu em grande medida às exigências dos colonos e criou o quadro jurídico e constitucional necessário para as apoiar. O livro de 2021 “The Occupation of Justice – The Supreme Court of Israel and the Occupied Territories”, de David Kretzmer and Yaël Ronen, dedica 500 páginas a esta história e chega a uma conclusão preocupante. Os autores constatam que o Supremo Tribunal legitimou todas as políticas e práticas controversas das autoridades israelitas nos Territórios Ocupados, incluindo as que eram incompatíveis com o direito internacional e só muito raramente interveio nessas políticas e práticas. Em vez de escrutinar a legalidade destas práticas, o Tribunal tem-se centrado, em geral, na equidade processual e em questões de razoabilidade e proporcionalidade — o que significa, na prática, que as políticas mais problemáticas nos Territórios Ocupados receberam aprovação judicial explícita ou implícita.

Quanto à ocupação, Israel construiu ao longo de décadas um extenso sistema de controlo e vigilância da população palestiniana, recorrendo ao exército, à polícia, aos Serviços Gerais de Segurança (Shin Bet), à Mossad e ao sistema jurídico, apoiando todas estas organizações com enormes recursos institucionais e financeiros. Manter a ocupação significou recrutar dezenas de milhares de informadores palestinianos através de métodos coercivos; manter o controlo pela força, o que as ordens das Forças de Defesa de Israel (IDF) por vezes designaram eufemisticamente como “criação de uma sensação de perseguição”; matar palestinianos que sejam considerados uma ameaça para soldados, polícias ou civis; e assassinar líderes políticos e ativistas. Significou deter e, por vezes, matar crianças, recorrendo à detenção por tempo indeterminado, à tortura e a processos em tribunais militares, recusando autorizações de entrada e direitos de residência, impondo punições coletivas, demolindo casas e mantendo bloqueios de estradas e interdição de acesso a certas zonas. As autoridades ocupantes confiscaram terras, destruíram casas e expulsaram residentes das suas comunidades, gerando uma sensação generalizada e orquestrada de insegurança através de uma elaborada burocracia de controlo, que por vezes exige mais de uma centena de autorizações distintas para pedidos básicos, a par de registos da população e acções de vigilância que se estendem a quase todos os domínios da vida palestiniana. Num sistema em que praticamente qualquer ato de resistência é oficialmente classificado como “terrorismo”, o resultado tem sido uma proliferação de violações dos direitos humanos e uma injustiça generalizada.

Desde os primeiros anos da ocupação (1967–1970) que as autoridades israelitas exploraram ativamente estratégias para expulsar os palestinianos. Sob o comando de Ariel Sharon, as forças israelitas executaram sem julgamento dezenas de palestinianos suspeitos de envolvimento na resistência. Entre 1967 e 1968, cerca de 75.000 residentes de Gaza foram deslocados à força, uma política que a primeira-ministra Golda Meir defendeu rotulando-os como “quinta coluna”. Outros 25.000 ou mais habitantes de Gaza foram simplesmente impedidos de regressar após a guerra. Em 1970–71, Sharon supervisionou o “plano dos cinco dedos”, uma estratégia que dividiu Gaza em cinco zonas isoladas através do controlo militar e da expansão dos colonatos, levando à demolição de milhares de casas palestinianas e à relocalização forçada de comunidades beduínas para a Península do Sinai.

A Guerra do Líbano de 1982 contra a Organização de Libertação da Palestina (OLP), considerada como a segunda “guerra de escolha” de Israel, desencadeou protestos sem precedentes na sociedade israelita, incluindo, pela primeira vez, dissidência proveniente de setores do próprio establishment militar. As imagens de combatentes palestinianos a enfrentar um dos exércitos mais poderosos do mundo deixaram uma profunda marca emocional nos palestinianos, no mundo que assistia aos conflitos pela televisão e também em segmentos da opinião pública israelita. A indignação global a que o conflito deu origem, mesmo por parte dos próprios judeus israelitas, intensificou-se ainda mais após o massacre de 2.000 a 3.000 palestinianos pelas milícias falangistas libanesas de direita, às quais o exército israelita permitiu entrar nos campos de refugiados de Sabra e Shatila, em Beirute.

Em dezembro de 1987 eclodiu a Primeira Intifada, uma revolta popular em grande parte não violenta, que mostrou a oposição generalizada dos palestinianos à vida sob ocupação. Cerca de 1.100 palestinianos seriam mortos. Na qualidade de ministro da Defesa, Yitzhak Rabin ordenou às forças israelitas que respondessem “partindo-lhes os ossos”, recorrendo à “força, poder e espancamentos” para reprimir a revolta.

Ao longo desta terceira fase, os Estados Unidos, juntamente com outras nações ocidentais, forneceram a Israel armamento avançado e munições, ao mesmo tempo que lhe ofereceram um apoio económico e político substancial. Este apoio refletia o papel de Israel como “porta-aviões” ocidental na região – para usar uma expressão comum na época. Só entre 1972 e 1993, os Estados Unidos utilizaram 29 vetos no Conselho de Segurança da ONU para bloquear resoluções críticas a Israel.

A Quarta Fase 1993-2000: Processo de Paz

A 13 de setembro de 1993 Israel e a OLP assinaram os Acordos de Oslo — formalmente denominada Declaração de Princípios sobre Acordos Provisórios de Autogoverno — em Washington. Israel reconheceu a OLP como representante legítimo do povo palestiniano e, em troca, a OLP reconheceu o direito de Israel à existência e renunciou ao terrorismo e à violência. Ambas as partes comprometeram-se com um processo de transição para a autonomia palestiniana em partes da Cisjordânia e de Gaza.

Em 1994, Israel começou a implementar a primeira fase do acordo, retirando as suas forças de Gaza e Jericó. Foi criada a Autoridade Palestiniana, com Yasser Arafat, líder da OLP, na sua liderança. O acordo subsequente, Oslo II, foi assinado em Taba, no Sinai, a 27 de setembro de 1995, concedendo aos palestinianos autoridade independente sobre as cidades palestinianas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, juntamente com 450 aldeias. Foram prometidas eleições nas áreas controladas pela Autoridade Palestiniana e a Cisjordânia foi dividida em três categorias administrativas: as áreas A, B e C .

É fundamental sublinhar o que Oslo deixou por resolver: a criação de um Estado palestiniano, as suas fronteiras, a divisão de Jerusalém, os acordos de segurança, a questão do regresso dos refugiados e o estatuto dos colonatos judeus nos territórios ocupados — por outras palavras: o cerne do conflito. Estava previsto que as negociações sobre estas questões centrais iriam começar o mais tardar em 1996 e concluir-se até maio de 1999. Nunca chegaram a acontecer.

Entretanto, os acordos causaram prejuízos reais aos palestinianos de várias formas. A divisão da Cisjordânia em três zonas desiguais tornou muito mais difícil trabalhar em Israel e entrar ou sair de Gaza, aprofundando as divisões internas entre os palestinianos. A Autoridade Palestiniana ficou com poderes fortemente limitados e foi obrigada a coordenar-se com as forças de segurança israelitas. Israel, por seu lado, manteve o controlo efetivo sobre a economia palestiniana. E os colonatos judeus continuaram a expandir-se ao longo deste período, sem que um único tenha sido alguma vez removido 

Os acordos também alteraram a atitude de parte da população judaica israelita. Para a maioria dos judeus israelitas, os acordos ajudaram a legitimar e a humanizar os palestinianos, abrindo espaço para que fossem vistos como verdadeiros parceiros para a paz. Também trouxeram um maior reconhecimento de uma identidade nacional palestiniana distinta e colocaram a questão da criação de um Estado palestiniano diretamente em cima da mesa. Mas, no plano da segurança, os acordos proporcionaram pouca tranquilidade. Os ataques terroristas continuaram, levados a cabo principalmente pelo Hamas, e intensificaram-se drasticamente depois de um colono judeu religioso ter massacrado 29 fiéis palestinianos e ferido mais 125 na Gruta dos Patriarcas, em Hebron.

Num esforço para travar a erosão do apoio público ao processo de paz, os líderes israelitas organizaram uma grande manifestação na praça central de Telavive, a 4 de novembro de 1995. Ao sair da manifestação, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado por Yigal Amir, um estudante judeu nacionalista religioso que se opunha ao processo de paz. Em fevereiro de 1996, os ataques terroristas palestinianos atingiram cidades israelitas com renovada intensidade.

Em maio de 1996, o partido de direita Likud venceu as eleições nacionais e o seu candidato, Benjamin Netanyahu, formou um governo de direita.

Ao longo de todo este período, a construção de colonatos judeus continuou sem abrandar. O aumento mais dramático no número de colonos teve início quando o Likud, liderado por Menachem Begin, assumiu o controlo do governo em 1977, altura em que existiam 38 colonatos que albergavam 1.900 colonos. Em 1999, esse número tinha disparado para 183.900 colonos, sem contar com os residentes judeus de Jerusalém Oriental. Estes colonatos, em constante expansão, moldaram profundamente a trajetória do conflito e das relações israelo-palestinianas, mesmo enquanto sucessivos governos repetiam a afirmação enganosa e propagandística de que “os colonatos não são um obstáculo à paz”.

Fase Cinco (2000–2022): Desilusão, Bloqueio e Apartheid

Entre 2000 e 2003, a opinião pública judaico-israelita sofreu uma profunda mudança, cujos efeitos ainda hoje se fazem sentir. Essa mudança foi impulsionada, em grande parte, por dois acontecimentos que ocorreram com dois meses de intervalo: o colapso das negociações políticas em Camp David, em julho de 2000, e o início da Segunda Intifada, dois meses depois, em setembro. Um terceiro acontecimento, a retirada de Gaza em 2005 e as suas consequências, viria mais tarde a agravar o efeito.

A escalada que se seguiu foi alimentada, em grande parte, pela desinformação veiculada ao público israelita pela maioria dos líderes do país, pelos meios de comunicação social e pelas instituições oficiais. A narrativa do então primeiro-ministro Ehud Barak, segundo a qual os palestinianos não eram verdadeiros parceiros para a paz e que Arafat tinha deliberadamente lançado a Segunda Intifada como uma campanha de libertação violenta, ganhou ampla aceitação, apesar de ser contestada. Esta narrativa foi reforçada pela terrível violência que teve início pouco depois, que muitos israelitas interpretaram como uma confirmação das alegações de Barak. O balanço da Segunda Intifada foi devastador para ambos os lados: cerca de 1.050 israelitas mortos (710 dos quais civis, incluindo 119 crianças) e cerca de 4.700 palestinianos mortos (cerca de 2.200 civis, incluindo 980 crianças). Deste balanço nasceria um profundo pessimismo quanto às perspetivas de qualquer resolução e, de forma mais ampla, quanto às intenções palestinianas. A política de direita tornou-se a força dominante na sociedade judaica israelita, enquanto as posições pacifistas diminuíram drasticamente, embora sem terem desaparecido por completo. Em 2026, apenas 10% a 15% dos judeus israelitas mantinham uma orientação pacifista; a cultura de conflito tinha-se reafirmado como o enquadramento dominante.

Mesmo dentro da Área A, nominalmente controlada pelos palestinianos, a segurança continua a ser ilusória: a Autoridade Palestiniana permite que tanto unidades militares israelitas regulares como unidades secretas (disfarçadas de árabes) entrem e efetuem detenções. Até 13 de junho de 2021, as forças israelitas podiam entrar em qualquer casa palestiniana, de dia ou de noite, invocando “razões de segurança”, sem necessidade de qualquer autorização especial. Os postos de controlo militares continuam a ser uma característica marcante da vida palestiniana, regulando a circulação para áreas israelitas e até mesmo para zonas predominantemente palestinianas, como Jerusalém Oriental e os palestinianos precisam de autorizações militares para os atravessar. Israel apresenta estes postos de controlo como uma proteção essencial contra ataques, um legado das campanhas de atentados suicidas do início dos anos 2000. Os palestinianos vivem-nos de forma muito diferente — como uma restrição degradante à liberdade básica de circulação e um símbolo diário do controlo israelita sobre as suas vidas.

Depois de o Hamas ter assumido o controlo de Gaza em 2007, Israel impôs um bloqueio global, restringindo drasticamente a circulação tanto de bens como de pessoas. Embora a ajuda humanitária tenha sido permitida, esta tem sido acompanhada de limites calculados. As autoridades israelitas terão, alegadamente, determinado requisitos calóricos mínimos para a sobrevivência dos habitantes de Gaza e limitado as importações de alimentos em conformidade. Uma vasta gama de artigos foi totalmente proibida em vários momentos, incluindo chocolate, massa, margarina, compota, instrumentos musicais, sapatos, livros, fósforos, champô e comida para bebés, juntamente com restrições que se estenderam a material médico, cadeiras de rodas e materiais industriais. O Egito, por seu lado, também fechou frequentemente a fronteira sul de Gaza.

Nas eleições de 2009 em Israel, na sequência da demissão de Ehud Olmert — que conduziu as negociações com Mahmoud Abbas e apresentou o plano mais avançado para resolver o conflito —, o bloco de direita saiu vitorioso e Benjamin Netanyahu deu início ao que viria a ser uma série de mandatos como primeiro-ministro. Durante doze anos, a liderança de Israel encarnou a ética do conflito ao mais alto nível e a coligação formada em 2015 inclinou-se firmemente para a direita, sendo a primeira vez que qualquer referência à criação de um Estado palestiniano esteve ausente dos documentos fundadores de uma coligação. Em consonância com este estado de coisas, Netanyahu recusou-se a negociar com Mahmoud Abbas, que se opunha à violência como instrumento de libertação palestiniana, mas mantinha a cooperação em matéria de segurança com Israel. Ao mesmo tempo, seguindo o princípio romano de “dividir para reinar”, Netanyahu transferiu fundos do Catar para o Hamas, que se recusava a reconhecer o Estado de Israel, na esperança de que o dinheiro dissuadisse o movimento a não atacar Israel.

Entretanto, elementos mais extremistas da sociedade israelita começaram a fazer pressão em prol de uma anexação gradual, encorajando confrontos entre colonos e palestinianos e consolidando o que muitos descrevem hoje como um sistema de apartheid. Em abril de 2021, a organização norte-americana Human Rights Watch publicou um relatório de 213 páginas, intitulado “A Threshold Crossed”, que concluía que as autoridades israelitas estavam a cometer os crimes contra a humanidade de apartheid e perseguição. O relatório argumenta que o governo israelita mantém uma opressão estrutural para preservar o domínio dos judeus israelitas sobre os palestinianos, tanto em Israel como nos territórios palestinianos, onde hoje ambos os grupos populacionais têm dimensões praticamente iguais.

Desde 2007, Israel e o Hamas têm vivido num ciclo recorrente de escalada de violência e de frágeis episódios de cessar-fogo. Períodos de relativa calma permitiram, ocasionalmente, que os habitantes de Gaza trabalhassem e comercializassem com Israel, mas foram repetidamente interrompidos por grandes ondas de violência:

  • 2008–2009 (Operação Cast Lead): 1.391 palestinianos mortos, dos quais pelo menos 759 (55 %) eram civis, incluindo 318 crianças. Israel perdeu 10 soldados (4 por fogo amigo) e 3 civis.
  • 2012 (Operação Pilar de Defesa): 174 palestinianos mortos, centenas de feridos; Israel perdeu 4 civis e 2 soldados.
  • 2014 (Operação Protective Edge): 2.203 palestinianos mortos, incluindo pelo menos 1.371 (62 %) civis, 527 dos quais crianças. Israel perdeu 67 soldados e 6 civis.
  • 2017–2018 (Grande Marcha do Regresso): Relatórios da ONU registaram 214 mortes de palestinianos, incluindo 46 crianças, e mais de 36.100 feridos devido a disparos de atiradores de elite israelitas.
  • 2021 (Conflito de maio): 256 palestinianos mortos, 128 dos quais civis; cerca de 72.000 pessoas deslocadas. Israel perdeu 1 soldado e 14 civis.

É de notar que, em cada uma destas escaladas, a ação militar inicial partiu de Israel.

Ao longo de todos estes acontecimentos, a colonização judaica na Cisjordânia nunca parou, independentemente do governo que estivesse no poder. Em meados de 2024, cerca de 500.000 colonos judeus viviam em aproximadamente 127 colonatos e mais de 121 postos avançados ilegais espalhados por toda a Cisjordânia, concentrados principalmente na Área C. Outros 230.000 judeus vivem em bairros construídos em Jerusalém Oriental, território sob controlo jordaniano até 1967. Israel passou a controlar cerca de 60% do território da Cisjordânia através de um conjunto heterogéneo de mecanismos legais e administrativos: requisitos relativos ao registo de terras sob o domínio britânico, apreensão militar justificada por necessidades de segurança e expropriação de terras explorando ambiguidades na legislação da era otomana, entre outros métodos. Nos últimos anos, Israel tem expulsado os palestinianos das suas terras na Área C através da violência dos colonos e da criação de postos avançados agrícolas.

Atualmente, vivem cerca de 2,75 milhões de palestinianos na Cisjordânia e cerca de 350.000 em Jerusalém Oriental. Em todo o território entre o rio Jordão e o Mediterrâneo, judeus e palestinianos representam agora parcelas aproximadamente iguais da população — cerca de 50% cada. É hoje evidente que nenhum governo israelita teve a intenção de entregar o controlo total da Cisjordânia aos palestinianos. Não existe atualmente qualquer movimento concreto no sentido de alterar o estatuto dos territórios ocupados, justificado pela alegação de que não existe um parceiro de negociação viável do lado palestiniano. Muitos líderes israelitas de direita defendem abertamente a anexação da totalidade ou de parte da Cisjordânia. Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, manifestou disponibilidade para negociar uma solução de dois Estados. Quanto ao Hamas, que governa Gaza sob um regime totalitário, rejeita totalmente a negociação, recusa-se a reconhecer Israel e continua a defender a violência como o caminho para pôr fim à ocupação.

A sexta fase, 2023-2026: a Guerra de Gaza e a limpeza étnica na Cisjordânia

As eleições israelitas de 1 de novembro de 2022 resultaram no que foi talvez o governo mais extremo da história do país, uma coligação que fundia forças políticas nacionalistas, racistas e religiosas messiânicas. Composto por partidos ultraortodoxos, pelo bloco nacional-religioso e pelo Likud, este governo agiu rapidamente em janeiro de 2023 para restringir a democracia israelita: reformulando o sistema jurídico, restringindo a liberdade de imprensa, politizando a função pública e muito mais. Estas medidas desencadearam manifestações pró-democracia prolongadas que se mantiveram durante cerca de 40 semanas. De certa forma, esta trajetória era inevitável — a ocupação, pela sua própria natureza, corrói as normas democráticas e as tendências autoritárias vêm-se aprofundando há duas décadas, particularmente em relação à minoria árabe de Israel e à oposição pacifista à ocupação.

Guerra de Gaza 

Foi então que, a 7 de outubro de 2023, ocorreu um acontecimento que abalou Israel, a região e o mundo. Na manhã desse dia, três mil combatentes do Hamas e civis de Gaza lançaram um ataque surpresa contra vinte kibutzim e cidades israelitas próximas da fronteira com Gaza. Assassinaram mais de 1.200 pessoas de todas as idades, das quais mais de 800 eram civis, e feriram, violaram e raptaram outras 253: crianças, mulheres, idosos, homens e soldados, num ato de profunda desumanidade. Milhares de foguetes foram disparados contra Israel, apontados diretamente para centros populacionais civis.

A resposta de Israel foi imediata e devastadora: uma campanha de bombardeamentos indiscriminados sobre os cerca de dois milhões de residentes de Gaza, que muitos caracterizaram como punição coletiva. A 27 de outubro, as forças terrestres israelitas entraram em Gaza e tomaram a maior parte do seu território. Até ao cessar-fogo de 27 de outubro de 2023, Israel tinha perdido 900 a 1.000 soldados e sofrido 17.000 feridos. Cerca de 1,7 milhões de habitantes de Gaza tornaram-se refugiados e a maior parte do território foi reduzida a escombros devido aos bombardeamentos, aos disparos de artilharia e aos combates terrestres. Cerca de 80% das habitações no norte de Gaza e mais de 60% em toda a Faixa de Gaza foram destruídas ou danificadas. A eletricidade, a Internet e as telecomunicações foram cortadas e a água tornou-se escassa. Estima-se que 90% da população de Gaza tenha enfrentado fome grave, enquanto dezenas de milhares sofreram com a propagação de doenças infecciosas.

O balanço desde 7 de outubro de 2023 tem sido impressionante. No início de maio de 2026, mais de 72.600 palestinianos tinham sido mortos diretamente, mais de 30.000 só nos primeiros cinco meses, com cerca de 1.600 mortes por mês a partir daí. Além disso, cerca de 10.000 ficaram soterrados nos escombros. Quase 172.500 pessoas ficaram feridas. Cerca de 21.000 palestinianos foram detidos pelas autoridades israelitas desde o início da guerra, com milhares mantidos em “detenção administrativa” por tempo indeterminado, sem acusação nem julgamento.

A guerra de Gaza destruiu qualquer confiança que ainda restasse entre os dois povos e fechou, por enquanto, qualquer caminho para a compreensão mútua. A ferida agora aberta levará gerações a sarar. Os palestinianos, tanto em Gaza como na Cisjordânia, carregam um trauma profundo, tal como os judeus israelitas, embora, para os palestinianos, esta guerra seja amplamente entendida como uma continuação da Nakba original de 1948. Algumas famílias de Gaza são agora refugiadas pela segunda ou terceira vez nas suas vidas e muitas acreditam, apontando para declarações dos próprios responsáveis israelitas, que Israel tenciona expulsá-las permanentemente e construir colonatos no seu lugar.

A brutalidade em Gaza levou uma vasta gama de observadores, incluindo a Amnistia Internacional, o Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos e a Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, a descrever a conduta de Israel como genocídio, com base nas definições jurídicas estabelecidas na Convenção das Nações Unidas sobre o Genocídio de 1948 e no Estatuto de Roma de 1998. As declarações de altos responsáveis israelitas alimentaram diretamente estas acusações. O primeiro-ministro Netanyahu invocou a injunção bíblica de “apagar a memória de Amalek” e prometeu uma retaliação sem precedentes. O então ministro da Defesa, Yoav Gallant, declarou um cerco total — sem eletricidade, alimentos, água ou combustível —, descrevendo os habitantes de Gaza como “animais humanos” e afirmando que tinha “levantado todas as restrições” às suas tropas. O atual ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que todos os civis em Gaza teriam de partir. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, terá sugerido reduzir para metade a população de Gaza no prazo de dois anos através da ocupação. O ministro da Educação, Yoav Kisch, foi ainda mais longe, descrevendo os palestinianos em termos desumanizantes e sugerindo que precisavam de ser exterminados. Os líderes israelitas, juntamente com a opinião pública, negaram, sem surpresa, o genocídio e as atrocidades, chegando mesmo a ameaçar prender qualquer pessoa que acusasse Israel de cometer genocídio. 

A 29 de setembro de 2025, o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Netanyahu revelaram conjuntamente um plano de paz de 20 pontos, que Netanyahu endossou formalmente. A 9 e 10 de outubro de 2025, Israel e o Hamas assinaram a Fase Um do acordo e entrou em vigor um cessar-fogo à medida que as forças israelitas se reposicionavam nas linhas acordadas — embora Israel mantivesse o controlo de cerca de 57% do território de Gaza. A 13 de outubro, o Hamas libertou os restantes 20 reféns israelitas vivos; em troca, Israel libertou aproximadamente 1.900 detidos e prisioneiros palestinianos. Os restos mortais dos reféns falecidos foram devolvidos por fases, tendo a transferência final sido concluída no final de janeiro de 2026.

A guerra foi formalmente declarada encerrada em outubro de 2025. No entanto, até 16 de junho de 2026, 1.003 palestinianos tinham sido mortos pelas forças armadas israelitas desde o cessar-fogo, o que representa uma média de quatro mortes por dia. De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, 61% destas vítimas mortais eram homens com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos, 11% eram mulheres nessa faixa etária, 25% eram crianças com menos de 18 anos e 3% eram adultos com mais de 60 anos. Segundo relatos, Israel violou o cessar-fogo pelo menos 3.201 vezes entre outubro de 2025 e junho de 2026, através de ataques aéreos, bombardeamentos e disparos diretos e expandiu o seu controlo territorial de 57% para 60% de Gaza, tendo Netanyahu afirmado que deu instruções às forças armadas para avançarem até aos 70%.

Atrocidades na Cisjordânia

Entretanto, na Cisjordânia, está em curso o que equivale a uma campanha de limpeza étnica total. As operações militares israelitas, as restrições à circulação, as demolições de casas e a violência por parte dos colonos continuam a deslocar os palestinianos e a comprometer o seu acesso à habitação, aos meios de subsistência e aos serviços básicos, agravando as pressões económicas já existentes em todo o território. Desde que o cessar-fogo em Gaza entrou em vigor a 10 de outubro de 2025, os ataques israelitas na Cisjordânia mataram pelo menos 981 palestinianos e feriram mais de 3.100, em grande parte devido a violações quase diárias da trégua. Observadores internacionais, incluindo a ONU e a Amnistia Internacional, relatam um aumento acentuado da violência por parte dos colonos desde outubro de 2023, frequentemente dirigida contra comunidades palestinianas de agricultores e pastores. A Amnistia Internacional documenta que os habitantes de mais de 119 aldeias e comunidades palestinianas foram parcial ou totalmente expulsos entre janeiro de 2023 e abril de 2026. Só desde janeiro de 2026, mais de 1.000 ataques de colonos causaram vítimas ou danos materiais em mais de 230 comunidades, deslocando mais de 2.200 palestinianos.

Estes ataques, muitas vezes levados a cabo por colonos de postos avançados nas proximidades, frequentemente em conjunto com as forças militares israelitas, incluíram homicídios, apreensões de terras, humilhações públicas, demolições de casas, abate de gado, incêndios criminosos contra veículos e campos e a destruição de olivais e pomares, particularmente na Área C. No entanto, as forças de segurança israelitas também operam nas Áreas B e A, nominalmente controladas pelos palestinianos, realizando detenções com a cooperação das forças de segurança palestinianas. Na Área B, colonos apoiados pelas forças armadas israelitas levaram a cabo o que só pode ser descrito como pogroms. Em Jenin, na Área A, o exército estabeleceu o seu primeiro posto avançado permanente após ter destruído o campo de refugiados da cidade e expulsado os seus residentes.

Em junho de 2026, cerca de 192 colonatos reconhecidos estendiam-se pela Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, onde vivem cerca de 780.000 a 800.000 colonos israelitas. Excluindo Jerusalém Oriental, cerca de 550.000 colonos judeus vivem em 147 colonatos considerados legais ao abrigo da legislação israelita. As organizações de direitos humanos estimam que, desde 7 de outubro de 2023, tenham sido estabelecidos entre 140 e 165 novos postos avançados, elevando o total para cerca de 350. Estes postos avançados são ilegais mesmo ao abrigo da legislação israelita, tendo sido construídos sem aprovação oficial do governo, enquanto a comunidade internacional, a ONU e o Tribunal Internacional de Justiça consideram todos os colonatos e postos avançados nos territórios ocupados ilegais ao abrigo do direito internacional, sem qualquer ambiguidade.

Atualmente, cerca de 3 milhões de palestinianos na Cisjordânia estão confinados a cerca de 40% do território total das Áreas A, B e C, vivendo sob um sistema jurídico totalmente distinto daquele que rege os residentes judeus da mesma terra, uma estrutura amplamente descrita como apartheid. As autoridades israelitas fragmentaram ainda mais o território palestiniano através de redes rodoviárias construídas exclusivamente para os colonos, ligando entre si os blocos de colonatos e isolando as comunidades palestinianas umas das outras. Centenas de postos de controlo e barreiras, mantidos pelo exército israelita, regulam quase todos os aspetos da circulação e da vida quotidiana dos palestinianos.

Explicar o paradoxo

A narrativa acima centrou-se principalmente nas ações dos judeus israelitas. Vale a pena notar que essas ações quase nunca foram acompanhadas de um pedido de desculpas. A negação tem sido uma resposta muito mais comum, visível em centenas de declarações de porta-vozes do governo e das forças armadas israelitas. Nos raros casos em que as irregularidades foram reconhecidas e investigadas, as acusações foram normalmente retiradas, ou os acusados nunca cumpriram a pena na íntegra. Este padrão mantém-se até aos dias de hoje.

Esta secção final volta-se para a questão central que este ensaio se propôs responder.

O conflito judeu-palestiniano já se arrasta há mais de 125 anos. Na sua fase inicial, tratava-se de um confronto entre duas comunidades, sendo os judeus uma minoria significativa. Desde 1948, tornou-se algo completamente diferente: um conflito entre um Estado poderoso e uma população palestiniana deixada estruturalmente enfraquecida. A comunidade palestiniana, quase eliminada durante a Nakba, passou as décadas seguintes a lutar, até agora sem sucesso, para garantir a soberania e a criação de um Estado independente. Na verdade, é possível afirmar que a guerra de 1948, com a Nakba, transformou os judeus israelitas de vítimas em perpetradores. A partir desse ano, o conflito continuou até aos dias de hoje, assumindo diferentes formas e intensidades. Houve breves períodos em que foram manifestadas intenções benevolentes que nunca se concretizaram, enquanto as intenções malévolas se tornaram hegemónicas, traduzindo-se em pogroms, deslocamentos, exílios, limpeza étnica, apartheid e até mesmo genocídio.

O sionismo e a sua ideologia

Pode afirmar-se com verdadeira confiança que as visões articuladas pelo movimento sionista no final do século XIX e início do século XX ainda hoje iluminam o caminho da ação dos judeus israelitas. Vale a pena distinguir cuidadosamente o sionismo do nacionalismo em geral. O nacionalismo é a ideia mais ampla de que um povo que partilha cultura, língua, etnia ou história constitui uma nação com direito à autodeterminação, tipicamente através de um Estado soberano. O sionismo é uma expressão específica dessa ideia: a crença de que o povo judeu constitui uma nação com direito a uma pátria, historicamente ligada à Terra de Israel. Devemos notar que a definição de sionismo nunca foi fixa. Ela muda continuamente de acordo com as circunstâncias regionais e as políticas de qualquer governo que esteja no poder e os judeus israelitas tendem a defini-la de acordo com as suas próprias tendências políticas. Não é por acaso que a Declaração de Independência de Israel não especificou fronteiras fixas para o novo Estado. David Ben-Gurion, o primeiro líder de Israel, insistiu nesta omissão apesar das objeções de Moshe Sharett, precisamente porque queria preservar a possibilidade de uma futura expansão.

Hoje, o governo israelita apoia políticas amplamente descritas como apartheid, limpeza étnica e genocídio contra os palestinianos. A Nakba de 1948 traçou a trajetória do destino palestiniano que se mantém desde então: as forças judaicas desmantelaram a sociedade palestiniana naquela altura e, após a guerra de 1967, nenhum governo israelita concordou em estabelecer um Estado palestiniano, nem mesmo nos 22% da Palestina histórica representados pela Cisjordânia e Gaza. Em vez disso, todos os governos continuaram a ocupar e a colonizar esses territórios, enquanto Gaza vive sob cerco desde 2007. A luta continua, com os palestinianos a assumirem, na prática, o papel de David contra um Golias israelita.

A identidade judaico-israelita, formada no período pré-estatal, tem persistido com intensidade variável, dependendo do governo no poder, mas os seus princípios fundamentais têm-se mantido em todas as administrações desde 1948. O espírito fundador tratava a identidade e o território como inseparáveis; a posse territorial ficou intimamente ligada ao próprio significado da nação judaica. A própria terra, carregando um peso mítico como berço da cultura judaica e de um futuro prometido, tornou-se a incubadora de uma nova identidade judaica definida pelos líderes pré-estatais. Já nesta fase, uma cultura de conflito tinha criado raízes, tornando-se o princípio orientador por trás da política e da ação.

Desde a guerra de 1967, a esta visão neossionista juntou-se algo mais próximo de uma visão de mundo panteísta, que santifica a própria terra como imbuída de presença divina. Neste contexto, colonizar todas as partes da Terra Prometida torna-se uma obrigação religiosa, e ceder qualquer porção da mesma torna-se proibido. Esta visão tem andado a par com a vontade de restringir os direitos dos residentes palestinianos, vistos como obstáculos a um território homogéneo e totalmente controlado pelos judeus. Esta mentalidade combativa enraizou-se logo no início do sionismo e tornou-se progressivamente menos contida à medida que os palestinianos eram deslegitimados e os judeus eram simultaneamente retratados como vítimas perpétuas ao longo de décadas de conflito. O resultado prático tem sido uma expansão territorial constante e um conflito cada vez mais intenso e intransigente, tanto com os palestinianos que vivem dentro de Israel como com aqueles nos territórios ocupados, tudo justificado por valores nacionais-religiosos particularistas e por preocupações de segurança. Os próprios colonos tornaram-se símbolos de uma vitalidade e enraizamento israelitas reavivados. Esta dinâmica acelerou após 2000 e, especialmente, após 2009, quando Netanyahu iniciou o mandato mais longo de qualquer primeiro-ministro israelita, conduzindo o Estado numa direção cada vez mais extremista em termos nacionalistas, religiosos e de exclusão racial — uma direção que culminou na guerra de Gaza e na limpeza étnica e nas condições de apartheid agora visíveis na Cisjordânia.

O sionismo, na sua forma dominante, fechou-se em justificações morais, históricas e religiosas para uma reivindicação exclusiva da terra, ao mesmo tempo que rejeitou em grande parte as reivindicações palestinianas equivalentes. Como resultado, as posições de ambos os lados endureceram e as reivindicações do outro lado tornaram-se, aos olhos de muitos, ilegítimas. A partir daí, basta um pequeno passo para deslegitimar totalmente os palestinianos e pseudo-racionalizar a violência infligida contra eles. Declarações de líderes nacionalistas — frequentemente antigos oficiais militares de alta patente — do tipo “Não me interessa o que é bom para os palestinianos, apenas o que é bom para o povo israelita”, refletem uma identidade particularista relutante em abdicar de território que considera libertado. As preocupações de segurança fundiram-se com justificações históricas, religiosas e culturais. Esta trajetória tem empurrado a governação israelita de forma constante para o autoritarismo, com instituições formais e informais a apoiarem a expansão territorial e, por vezes, o deslocamento das populações palestinianas.

O poder do Estado israelita

No decurso deste longo período, Israel emergiu como uma potência regional dominante, a nível militar, económico, tecnológico e político. Possui uma das forças armadas mais capazes do mundo: uma força aérea avançada, sistemas de mísseis sofisticados, capacidades de inteligência e cibernéticas de ponta, forças navais, divisões blindadas, drones, cerca de 170.000 militares no ativo apoiados por centenas de milhares na reserva e um arsenal nuclear. Esta capacidade é reforçada pelo apoio militar, económico, tecnológico e político sustentado dos Estados Unidos e de grande parte da Europa. Este apoio é em geral motivado menos por convicção moral do que por uma realpolitik calculada. Só os EUA fornecem a Israel cerca de 3,8 mil milhões de dólares anualmente em assistência militar e, na sequência do ataque de 7 de outubro de 2023, o Congresso aprovou pelo menos 16 mil milhões de dólares em ajuda militar de emergência adicional. Enquanto Estado poderoso a operar sob um governo autoritário, nacionalista, religioso e antipalestiniano, Israel tem enfrentado poucas restrições significativas por parte de Washington, o que lhe permite prosseguir políticas altamente agressivas em Gaza e na Cisjordânia, em grande parte sem reações internacionais significativas. Israel há muito que procura o domínio regional, intervindo em conflitos para além das suas fronteiras, ocupando partes de Estados vizinhos e conduzindo operações militares sustentadas — principalmente através do poder aéreo — em todo o Médio Oriente há anos, consistentemente enquadradas como autodefesa necessária. Isto é reforçado por um sofisticado aparelho de propaganda que opera a nível internacional, com o objetivo de moldar governos e a opinião pública a favor da narrativa de Israel.

Os palestinianos, pelo seu lado, continuam fragmentados, governados na Cisjordânia por uma liderança não eleita que coopera com Israel em matéria de segurança, mas que carece de qualquer capacidade militar significativa e depende inteiramente de Israel em quase todos os aspectos da vida quotidiana. Não dispõem de uma força militar avançada, mas mantêm uma determinação considerável e um grau significativo de simpatia da opinião pública internacional, uma forma de apoio que resiste a medidas convencionais. Até à data, 157 dos 193 Estados-membros da ONU, incluindo nações europeias como a França, o Reino Unido, Portugal e Espanha, reconheceram a soberania palestiniana, embora esse reconhecimento continue a ser, em grande parte, simbólico.

O Holocausto como trauma eleito

Para além do sionismo ideológico, uma das forças mais poderosas que moldam a sociedade israelita é aquilo a que muitas vezes se chama o “trauma escolhido” do Holocausto, que continua a ser o pilar central da identidade coletiva judaica. O assassinato sistemático de seis milhões de judeus pela Alemanha nazi continua a moldar de forma profunda a memória coletiva, o comportamento político, a educação e a narrativa cultural de Israel. O Holocausto é tratado como categoricamente único, incomparável a qualquer outro genocídio. É recordado não apenas como história, mas como um aviso de que a catástrofe pode repetir-se, sob diferentes perpetradores, sob diferentes formas. Desde tenra idade, os judeus israelitas são ensinados a recordar sem superação, tratando a própria recordação como uma condição de pertença à sociedade israelita. A lição resume-se a “nunca mais”: a convicção de que apenas um Estado forte e soberano pode impedir um segundo Holocausto. Com o tempo, o conceito expandiu-se muito para além da sua origem histórica, tornando-se uma espécie de código para uma ameaça existencial, invocado tanto por líderes, como pelos meios de comunicação social e pelos cidadãos comuns, tratado como algo que poderia repetir-se a qualquer momento, em qualquer lugar. Embora os antagonistas do povo judeu ao longo da história tenham variado — egípcios, assírios, persas, gregos, romanos, alemães, árabes —, são frequentemente agrupados numa única narrativa de hostilidade perpétua e indiferenciada: a ideia de que as nações do mundo, ao longo da história, partilham um ódio essencial aos judeus, reforçando a crença de que os judeus estão destinados a “viver isolados”. Esta crença alimenta uma mentalidade de cerco generalizada.

O que mais importa aqui é a forma como o Holocausto se entrelaçou com o próprio conflito israelo-palestiniano. Ao longo de décadas de conflito, os líderes e os meios de comunicação israelitas têm repetidamente estabelecido comparações explícitas entre nazis e árabes. Trata-se de uma manobra retórica que intensifica a deslegitimação dos palestinianos em particular, retratando-os como assassinos, cruéis, sanguinários e movidos por intenções genocidas contra os judeus israelitas. Neste enquadramento, os judeus israelitas são apresentados como vítimas eternas do conflito.

Esse estatuto de vítima revelou-se extremamente eficaz. A investigação académica em psicologia coletiva identifica três consequências de ocupar este papel. Em primeiro lugar, o desligamento moral: o estatuto de vítima reduz o sentimento de responsabilidade, suprimindo a culpa, a empatia e a compaixão para com o adversário, mesmo ao infligir violência. Em segundo lugar, o direito moral: a crença de que a própria segurança justifica praticamente qualquer meio, com menor consideração pelas restrições morais comuns. Em terceiro lugar, o silenciamento moral: a convicção de que o próprio estatuto de vítima deve isentar uma sociedade de críticas ou condenações externas — uma dinâmica frequentemente invocada pelo governo israelita, pelos meios de comunicação social e pelo discurso público, onde a crítica às políticas é muitas vezes equiparada ao antissemitismo.

Esta associação tornou-se novamente visível após 7 de outubro de 2023, quando o ataque do Hamas foi explicitamente associado, simbolicamente, ao Holocausto em todo o discurso público israelita, invocado repetidamente por líderes políticos, pelos meios de comunicação social tradicionais e nas redes sociais, bem como por cidadãos comuns. Comparou-se cerca de 850 civis mortos com milhões de vítimas inocentes. O massacre foi enquadrado não apenas como um acontecimento horrível por si só, mas como o capítulo mais recente de uma história muito mais antiga de trauma histórico judaico.

Guerras Escolhidas e Confrontos Violentos

Vale também a pena notar que quase todas as guerras e operações militares israelitas foram publicamente apresentadas pelo governo e pelas forças armadas como inevitáveis, uma questão de necessidade e não de escolha. Na realidade, a maioria destas guerras refletiu escolhas políticas deliberadas e interesses estratégicos de Israel. Apenas as guerras de 1948, 1967, 1973 e 2023 têm uma alegação credível de terem sido, pelo menos parcialmente, guerras de necessidade; e mesmo a de 1967 continua a ser genuinamente contestada, enquanto a guerra de 1973 poderia muito bem ter sido evitada se a primeira-ministra Golda Meir tivesse aceitado a proposta de paz de 1971 do presidente egípcio Anwar Sadat. A fase inicial da guerra de Gaza de 2023 teve uma justificação clara; a sua prolongada continuação, no entanto, refletiu cada vez mais motivos mais próximos da retaliação. Com exceção da guerra do Líbano de 1982, as forças armadas israelitas têm demonstrado uma obediência quase inabalável às orientações do governo, mesmo ao levar a cabo ações amplamente consideradas como moralmente indefensáveis.

Uma sociedade militarista

É importante sublinhar que uma grande maioria da população judaica israelita tem apoiado praticamente todas as guerras e operações militares iniciadas pelas forças armadas israelitas e aprovadas pelos governos israelitas desde 1948. O sentimento público foi predominantemente belicista até 1977, quando a paz com o Egito começou a mudar as atitudes. Foi uma tendência que se intensificou ao longo das décadas de 1980 e 1990, à medida que um segmento significativo da sociedade israelita se abriu a uma resolução pacífica com os palestinianos e até a promoveu ativamente.

Essa trajetória inverteu-se abruptamente no início da década de 2000, na sequência do colapso das negociações de Camp David entre Ehud Barak e Yasser Arafat e da eclosão da Segunda Intifada. As atitudes políticas dos judeus israelitas têm-se mantido notavelmente estáveis desde então, persistindo até 2026: cerca de 65–70 % defendem posições belicistas, 20–30 % situam-se no centro e apenas 10–15 % mantêm posições pacifistas. As posições belicistas incluem, geralmente, o apoio aos colonatos nos territórios ocupados, uma sensação persistente de ameaça existencial, o apoio ao uso da força militar, a desconfiança em relação aos palestinianos e a oposição à criação de um Estado palestiniano. As posições pacifistas, defendidas por uma minoria cada vez mais reduzida, sustentam que a ocupação é prejudicial, que se pode confiar nos palestinianos como parceiros de negociação, que o compromisso territorial é necessário para a paz e que, em última instância, deve ser criado um Estado palestiniano.

Notavelmente, as gerações mais jovens de israelitas tendem a ser fortemente nacionalistas, religiosas e excludentes. Isto ocorre como consequência de mudanças demográficas no sentido de uma população religiosa crescente que é esmagadoramente de linha dura, reforçada por um sistema educativo que enfatiza a identidade judaica, a tradição religiosa e a narrativa histórica, ao mesmo tempo que negligencia em grande medida os conteúdos cívicos democráticos. A preparação para o serviço militar começa logo ao nascer: quando os pais falam de um “soldado recém-nascido” e, mais tarde, a socialização militarista continua ao longo do jardim de infância, do ensino básico, do ensino secundário e do ensino secundário superior. Em todos estes níveis, há uma aprendizagem direta e indireta sobre a justiça dos objetivos nacionais, a glorificação da nação judaica, o sentimento de vitimização coletiva, o patriotismo, a importância do serviço militar e a deslegitimação dos palestinianos. Estes conteúdos são repetidos pela maioria dos meios de comunicação social e, especificamente, pelos líderes. Este padrão é agravado pela ocupação em curso, que tem vindo a transformar progressivamente a sociedade israelita numa sociedade militarizada, empurrando o seu sistema político para o autoritarismo, no que muitos considerariam uma consequência em grande parte inevitável destas dinâmicas subjacentes. A sociedade israelita, particularmente os seus setores seculares e sionistas-religiosos, permanece profundamente entrelaçada com as forças armadas: os homens cumprem o serviço militar obrigatório e permanecem na reserva até aos 50 anos, ao lado dos seus próprios filhos, à medida que estes, por sua vez, entram ao serviço. Estas unidades de reserva partilhadas sustentam laços sociais entre gerações, reforçando a obrigação mútua e a obediência institucional. O exército tem vindo a lutar pelas causas delineadas pelo governo, mesmo quando estas frequentemente excedem as leis internacionais, os interesses da nação israelita e envolvem comportamentos imorais. 

No 78.º Dia da Independência de Israel, em abril de 2026, os números oficiais indicavam que o número total de soldados mortos, agentes de segurança e vítimas civis da guerra e do terrorismo ao longo da história de Israel tinha atingido aproximadamente 30.061, abrangendo todas as baixas desde o início da colonização judaica organizada em 1882, passando pela fundação do Estado em 1948 e até 2026. Muitos mais sofreram feridas físicas e psicológicas duradouras. Os economistas estimam, em termos gerais, que o custo acumulado para Israel — suportado principalmente pelos judeus israelitas, que representam cerca de 74% da população — ascende a centenas de milhares de milhões de dólares, provavelmente ultrapassando um bilião quando se contabilizam todos os custos diretos e indiretos ao longo das décadas.

É também verdade que a resistência em responder às aspirações nacionais palestinianas e em negociar uma paz genuína teve o seu próprio custo: milhares de judeus israelitas foram mortos ou feridos em ataques terroristas ao longo deste conflito. Trata-se, em alguns aspetos, de um preço comparável ao que outras potências ocupantes e coloniais pagaram historicamente, como a França, o Reino Unido, os Países Baixos, Marrocos, Portugal, a Rússia, a Bélgica, a Itália e outras. Nesse sentido, faz parte de um padrão que se tem repetido em muitos países ao longo da história na Europa, América do Norte, América do Sul e Ásia. Muitos judeus israelitas contestariam esta interpretação, uma vez que um número substancial considera que a Cisjordânia — e, em alguns casos, até mesmo Gaza — faz parte, por direito, do seu próprio Estado. Mas esta visão contraria a posição defendida pela esmagadora maioria dos Estados e instituições internacionais do mundo. Nesse sentido mais amplo, esta tragédia insere-se no longo e inacabado percurso de uma consciência moral global em evolução. Espero que a carnificina cesse e que ambas as nações, os judeus israelitas e os palestinianos, regressem ao caminho da paz onde já se encontravam.

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AUTOR/A

  • Daniel Bar-Tal

    Daniel Bar-Tal é psicólogo social e professor do Departamento de Educação da Universidade de Tel-Aviv. Foi director do Walter-Lebach Institute for Jewish-Arab Coexistence e presidente da Sociedade Internacional de Psicologia Política. Bar-Tal nasceu em 1946 no Tadjiquistão mas emigrou com os seus pais para Israel com 11 anos, tendo realizado o seu doutoramento na Universidade de Pittsburgh (EUA).

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