Autoras: Ana Drago e Mariana Mortágua
Prefácio: Ricardo Paes Mamede
Lançamento: Outubro 2025
Páginas: 144
Preço: 14,90€
Edição: Tinta da China
Sabemos que a indústria do turismo tem crescido significativamente a nível global desde as últimas décadas do século XX. No quadro europeu, Portugal acompanha os restantes países do sul da Europa nesse processo. Mesmo assim, o caso português destaca-se. Por isso, queremos saber por que razão assume o turismo um peso tão significativo na economia portuguesa, mais do que noutros países conhecidos por esta atividade — quer no conjunto da riqueza produzida, quer no emprego que aqui se criou depois da Crise Financeira Global de 2008 e da austeridade imposta nos primeiros anos da década passada.
Este livro escolhe olhar atentamente esta excecionalidade portuguesa. Recorremos ao turismo como lente analítica para problematizar o percurso da economia — olhar as suas contingências, o seu contexto e as escolhas delineadas pelas elites financeiras e políticas nas últimas décadas. Interessa-nos perceber o que um determinado uso do território nos revela sobre as dinâmicas de poder incrustadas nas relações de propriedade fundiária e na engenharia financeira dos processos de investimento; e ainda como é que a economia produz e se apoia numa determinada imaginação do país, redefinindo a sua identidade nacional. Finalmente, interessa-nos compreender de que modo a “indústria fácil” do turismo determinou o arranjo específico do modelo de crescimento da economia portuguesa. Será que corremos o risco de a oportunidade se tornar em maldição? Ou seja, um círculo vicioso, em que a aposta no turismo contribui, na verdade, para a desqualificação da economia portuguesa, com sérios efeitos na precarização continuada do trabalho, assente em baixos salários e dependente de uma lógica predatória sobre territórios e habitação.
Procuramos explorar três ideias fundamentais. Em primeiro lugar, é certo que o turismo assumiu no século XX uma matriz massificada que dialoga diretamente com conceções políticas tributárias das conquistas dos movimentos dos trabalhadores e do direito ao lazer. Mas no contexto nacional, a atividade turística é sempre entendida como a tábua de salvação e/ou vantagem comparativa da economia, sobretudo em tempos difíceis. Do fascismo do Estado Novo ao advento da democracia, a vocação natural do país para a atividade turística é evocada pela retórica de sucessivos governantes que procuram expedientes rápidos, fáceis e baratos para sustentar a economia, enquanto prometem exportações de alto valor acrescentado e emprego qualificado. A segunda ideia é a de que o turismo se apoiou numa relação de articulação entre as “novas elites empreendedoras”, que pretendiam lançar e expandir uma nova atividade económica, e as “velhas elites”, herdeiras de propriedade fundiária, com amplo lastro histórico. Nas últimas décadas, a mediação entre esses diferentes segmentos da burguesia nacional — elites “antigas” e elites emergentes — foi desempenhada por dois atores principais: o setor financeiro e o aparelho político do Estado. Ao longo deste período, financiamento, apoios e licenciamentos fizeram e desfizeram fortunas e os destinos da atividade turística. A terceira ideia é a de que, depois da Crise Financeira Global de 2008 e da crise da Zona Euro, o turismo explodiu na Europa. Há muitas razões que subjazem a essa evolução, nomeadamente o surgimento das companhias aéreas low-cost ou a relevância das plataformas digitais no alojamento turístico como, por exemplo, o Airbnb. Além disso, há igualmente mudanças significativas no contexto internacional, com a China a conquistar maior relevo económico em relação aos desempenhos económicos da Europa e dos EUA. Contudo, o que nos interessa aqui perceber é por que motivo é maior o impacto dessa explosão turística em Portugal do que, por exemplo, em Espanha, Itália ou França.
Esta pequena reflexão termina com uma provocação: haverá turismo a mais em Portugal? Argumentamos que sim, e que são necessárias políticas públicas para mitigar os efeitos perversos do turismo em excesso no bem-estar das populações. Mas deixamos também um alerta. As medidas de mitigação que identificamos não bastam para contrariar a maior maldição de todas: a ilusão das elites governativas de que o turismo bastará enquanto política económica e industrial.


