“Oportunidade ou maldição: a indústria do turismo em Portugal” coloca no centro do debate público uma questão fundamental: a estratégia de desenvolvimento do nosso país.
As autoras, Ana Drago e Mariana Mortágua, partem de um título provocador — “Oportunidade ou Maldição?” — para nos conduzir numa reflexão profunda e necessária sobre o papel da indústria do turismo em Portugal.
Ana Drago e Mariana Mortágua são cidadãs e políticas corajosas, que não têm pejo em afrontar interesses instalados, e nesta obra reafirmam esse traço das suas personalidades ao colocarem em causa um tema tabu. Fazem-no ao explicarem fundamentadamente porque são contra a estratégia dominante de desenvolvimento do país baseada na indústria do turismo, na ideia da adoção do modelo da Flórida e nas miríades de incentivos fiscais e regulatórios a esta indústria que, no presente, tanto representa para a economia portuguesa em termos de exportações, serviços, de volume de emprego, de valor acrescentado bruto, de PIB, de transferências financeiras e de mais-valias para as elites nacionais.
O livro começa com um prefácio brilhante de Ricardo Paes Mamede que alicia e que convida à leitura do livro. Duas dezenas de páginas depois, o leitor já está agarrado na leitura. Um princípio entusiasmante para esta obra.
Ao longo das suas 125 páginas, o livro constrói uma tese crítica, perspicaz e meticulosamente informada. Não se trata de um exercício de pessimismo, mas antes de um ato de ambição por um Portugal com mais opções. Transpira das suas páginas uma crença clara de que é possível e desejável aspirar a estratégias de desenvolvimento mais diversificadas, sustentadas e, a prazo, capazes de gerarem melhores níveis de vida para todos os portugueses.
Ao longo das suas 125 páginas, o livro constrói uma tese crítica, perspicaz e meticulosamente informada. Não se trata de um exercício de pessimismo, mas antes de um ato de ambição por um Portugal com mais opções.
O livro está dividido em seis partes, a que acrescem as conclusões, e começa por traçar as raízes históricas desta aposta nacional no turismo. As autoras encontram referências muito interessantes do final do século XIX e início do século XX de estadistas, líderes maçons e do jornalista e historiador Vítor Ribeiro que apontam para o turismo como uma política industrial fácil, um atalho, para resolver os desequilíbrios do país.
Segue-se na segunda secção uma análise de alguns projetos de desenvolvimento turístico que as autoras classificam como megalómanos e especulativos, muito ligados à dinâmica imobiliária e ao financiamento bancário fácil e sem mecanismos de controlo adequados, opacos e insuficientemente escrutinados pelas autoridades. Vários dos projetos turísticos e imobiliários identificados pelas autoras, de viabilidade financeira duvidosa desde o seu início, resultaram em enormes perdas financeiras, que acabaram suportadas pelos contribuintes nos múltiplos resgates à banca, numa socialização do risco privado.
Na terceira secção, o livro avança para a resposta do sector do turismo à crise financeira internacional, argumentando que houve uma alteração do modelo para o que designam por “modelo Flórida”, defendido pelo académico Olivier Blanchard — focado na atração de reformados e não-residentes com elevados rendimentos —, complementado pelos vistos Gold e regimes fiscais vantajosos para nómadas digitais e residentes não-habituais. As autoras redefinem a indústria do turismo para abarcar estes novos segmentos de movimento de não-residentes para Portugal, defendendo que esta “indústria do turismo alargada” deve ser analisada no seu conjunto.
Na quarta secção, o livro desenvolve em maior detalhe as consequências da incorporação do modelo Flórida como componente da indústria do turismo. Se me permitem um aparte, que as autoras afloram no seu livro, o modelo Flórida foi sugerido por Olivier Blanchard num artigo de 2006, que especulo terá sido encomendado e discretamente pago pelo erário público a esse académico. Blanchard é um economista e académico francês, professor emérito do MIT, antigo economista-chefe do FMI. Blanchard também defendeu na altura que os salários nominais dos portugueses deveriam ser cortados ou, se a resistência fosse muita, objecto apenas de atualizações de salário nominal nulas, de forma a reduzirem a prazo os salários reais dos portugueses. Dessa forma, argumentava Blanchard, seria possível aumentar a competitividade internacional da economia portuguesa. Quase 20 anos decorridos, o artigo de Blanchard parece o guião que foi cegamente seguido pelas autoridades portuguesas, i.e., por governos democraticamente eleitos que, acreditávamos, representavam políticas económicas alternativas e distintas, de esquerda ou de direita. Tal roteiro cego, surdo e mudo foi implementado malgrado as diversas críticas a esse artigo de Blanchard, nomeadamente de natureza empírica. Isto revela muito sobre o atual estado da democracia portuguesa.
A culpa desta aposta em salários baixos, na indústria do turismo, em particular, e em esquemas fiscais e regulatórios para atrair não-residentes endinheirados não é exclusivamente de políticos e grupos de interesse nacionais.
É também, como as autoras apontam, de gurus do neoliberalismo do fim da história de Fukuyama, que com os seus contributos condenaram o Ocidente e Portugal ao declínio relativo e a ficar a ver o comboio passar.
Sempre o industrialismo fácil, rápido, sem rasgo nem ambição.
O drama de Portugal e da sua aposta no turismo é também, como as autoras referem, o drama de outros países e cidades europeias. Enfim, do modelo de desenvolvimento ocidental neoliberal das últimas décadas. Uma aposta num modelo de desenvolvimento rentista que, como refere o economista americano Michael Hudson, caracterizava a Europa Ocidental feudal e que tinha sido combatido e vencido por economistas liberais como John Stuart Mill e David Ricardo, que – a par de Karl Marx – argumentavam que a indústria só seria capaz de se desenvolver e de ser competitiva internacionalmente se os proprietários da terra e do imobiliário deixassem de beneficiar de rendas excessivas sem acrescentarem valor económico à produção. Segundo Hudson, foi esse combate ao modelo de desenvolvimento rentista, a perda de poder político dos lords aristocráticos e o ganho de poder político dos industrialistas, que permitiu a revolução industrial no seio da Europa Ocidental.
Na sua quinta parte, o livro avança o argumento central de que estas estratégias, no seu conjunto, podem contribuir para uma desqualificação da economia portuguesa. O seu ponto assenta na ideia de que esta indústria do turismo alargada, facilitista e rentista, concentra os fatores produtivos em setores de baixa produtividade, com impactos adversos nos salários e no potencial de crescimento da produtividade e da economia no seu todo, além de exercerem pressão sobre setores críticos como o da habitação.
Feito este retrato, as autoras dedicam o último capítulo a explorar soluções exclusivamente sobre a indústria do turismo. Questionam a ideia de que “nunca há turismo a mais”, assumindo que Portugal já apostou demasiado na indústria do turismo e que já tem turismo a mais. Desenvolvem uma reflexão sobre como outros destinos turísticos no mundo têm procurado limitar os excessos do turismo de massas, defendendo a necessidade de medidas muito mais ambiciosas que as adotadas até à data que garantam um desenvolvimento mais equilibrado e que permita manter o carácter e a personalidade das nossas cidades, não expulsando os seus habitantes tradicionais.
Esta indústria do turismo alargada, facilitista e rentista, concentra os fatores produtivos em setores de baixa produtividade, com impactos adversos nos salários e no potencial de crescimento da produtividade e da economia no seu todo, além de exercerem pressão sobre setores críticos como o da habitação.
É importante notar que este debate se insere num contexto europeu mais amplo, que tende a relegar as economias periféricas para um papel específico na divisão continental do trabalho, aliás teses já antigas, inclusive de Hjalmar Schacht, ministro da economia de Hitler – teses agora obsoletas, porque a Alemanha foi, entretanto, ultrapassada no seu papel de potência industrial pela China. O livro enriquece este debate, trazendo-o para a realidade portuguesa com clareza e coragem.
Em conclusão, “Oportunidade ou Maldição: a indústria do turismo em Portugal” é um livro muito interessante, que se lê de forma extremamente fácil e fluida, oferecendo um apanhado crítico de uma estratégia de desenvolvimento prolongada no tempo. As autoras argumentam de forma convincente que o “turismo” se transformou num setor muito mais abrangente, com impactos profundos no imobiliário e na estrutura social, muito alimentado por políticas públicas fiscais e regulatórias específicas e pela ação pouco transparente de grupos de interesse. Reconhece que este modelo gera receitas, equilíbrios na balança comercial e valorização de ativos, mas alerta, de forma fundamentada, para os seus custos sociais e para os seus riscos de longo prazo, nomeadamente no acesso à habitação e na coesão territorial.
A edição da Tinta da China está, como é habitual, excelente. Os parabéns estendem-se também aos profissionais por trás desta belíssima publicação.
Deixo os meus sinceros parabéns à Ana Drago e à Mariana Mortágua por esta obra corajosa e necessária que é um contributo inestimável para pensarmos coletivamente o país que ambicionamos ser e para um debate que não podemos adiar: qual o lugar que queremos que o turismo ocupe no nosso modelo de sociedade e economia.
Este texto baseia-se na apresentação do livro “Oportunidade ou maldição: a indústria do turismo em Portugal” feita pelo autor, que teve lugar na Casa do Comum, em Lisboa, a 30 de outubro de 2025.

