A Maria Emília está hoje rodeada de tantos amigos e amigas como gostava. Nunca conheci ninguém que apreciasse tanto estar entre amigos e amigas e que soubesse tão bem valorizar a amizade.
Tive a sorte de beneficiar de mais de cinquenta anos dessa amizade. É a minha segunda irmã que parte.
É difícil falar sobre a Maria Emília. Tanto havia a dizer e foi dito por estes dias, tantos testemunhos de quanto era querida! Associo-me a esse tanto que se disse e escreveu.
Quando estava a pensar no que ia dizer agora faltava-me terrivelmente a partilha com ela a que nos habitámos! E agora não sei como vai ser! Era uma pessoa boa e tão generosa! Sempre pronta a ajudar e a resolver problemas.
Utilizando uma expressão da Maria Flor Pedroso: “A Maria Emília era um clarão de generosidade e empenho num mundo decente.” Sempre a conheci a lutar por esse mundo decente. Era uma cidadã tão empenhada! Sempre!
A Maria Emília foi a pessoa mais tolerante que encontrei. Tolerante e firme nas suas convicções. Num dos nossos primeiros encontros, em 1975, o seu filho Miguel, muito pequeno, no chão, abria lhe a carteira e tirava para o chão o seu recheio. Nunca mais esqueci esta imagem de acompanhamento tolerante que encontrei, sempre presente, na sua ação em matéria de educação. Por exemplo, em todos os debates sobre proibições, a que se opunha sempre à partida (telemóvel, Inteligência Artificial na escola…). Podíamos contar com ela para o debate, mas não para a proibição como princípio.
Nunca abdicava de tomar posições e aprofundar os debates sobre todas as matérias. Muitas vezes estivemos em desacordo mas o seu contributo para encontrar soluções era sempre decisivo. E, como me disse a Teresa Paixão, grande amiga dela de tantos anos: a Maria Emília fazia pensar e sabia criar a dúvida. Tolerante e, como ela própria se classificou, perseverante: na democracia, na educação, no socialismo.
Situando-me no domínio da educação, permitam-me que traga aqui a sua ação nos primeiros anos após o seu regresso a Lisboa, a seguir ao 25 de abril. Lembro o seu papel na condução do programa “Falar Educação”, do Instituto de Tecnologia Educativa (ITE), projetado pela RTP nesses primeiros anos da Democracia. Vínhamos de um tempo em que a educação não se falava, não se discutia. Alguém decidia e as escolas e os professores cumpriam, embora alguns discordassem. E a Maria Emília dava voz aos professores que vinham tentando mudar práticas e divulgava as mudanças que se viviam a seguir à revolução.
Infelizmente, alguém decidiu que as cassetes onde esses programas estavam gravados eram necessárias e os programas “Falar Educação” foram apagados. Depois houve a série, também projetada na RTP, “Cá fora também se aprende”, onde a Maria Emília soube valorizar a inovação que acompanhávamos no terreno, sem nunca deixar de a questionar.
Entusiasmava-a a inovação, mas refletia sempre sobre o rumo que ela tomava.
A ligação entre inovação, media e pedagogia sempre foi marcante na sua ação. Basta lembrarmos o “Rua Sésamo”! Inovação, igualdade de oportunidades, educação para a cidadania, empatia, contributo da educação para a democratização da sociedade foram preocupações que caraterizaram a sua ação ao longo da sua vida profissional e na formação de professores. Neste domínio lembro por exemplo o lançamento da Escola Superior de Educação de Setúbal – um marco! Que entusiasmo no acompanhamento no projeto de Siza Viera! E a alegria ao receber os primeiros desenhos da escola! Teve um papel essencial, mais tarde, no apoio ao desenvolvimento educativo no Instituto de Inovação Educacional a que presidiu.
No Conselho Nacional de Educação, a que também presidiu entre 2017 e 2022, promoveu, entre outros, estudos sobre a inovação, fez estudar a pandemia e soube marcar a sua preocupação de sempre com a inclusão. O racismo foi um tema que ali lançou e que a vinha preocupando nos últimos tempos. Seguia com muito interesse o percurso escolar da minha neta Catarina, que se designa a si própria como castanha, pela qual a Maria Emília perguntava sempre e com quem gostava de conversar. Era uma amizade recíproca.
Fazia parte da direção da associação criada em 2013 por Jorge Sampaio para apoiar estudantes sírios acolhidos em Portugal para prosseguir e concluir a sua formação superior, a Plataforma Global para Estudantes Sírios, que concluiu recentemente com êxito a sua missão.
Lembro, entre tantas homenagens e condecorações que grangeou, o doutoramento concedido pelo ISPA. Era constante a sua intervenção cidadã, menos formal, com destaque para o grupo Inquietações Pedagógicas, de que fazia parte desde a sua criação, ou para as Rotinas Criativas, uma iniciativa de amigas e amigos visando viver o envelhecimento de modo criativo e combater estereótipos e desigualdades de tratamento para com as pessoas com mais idade. Na quinta-feira passada ainda deu um contributo para um livro deste grupo, quase pronto. Que responsabilidade para nós, que ficamos!
A Maria Emília desafiou-me há cerca de 3 anos para participarmos na série de 6 episódios realizados pelas produções Nápoles para a RTP2 com o título “Educação para que te quero?” Trata-se de um percurso através de 50 anos de educação e sobretudo de uma reflexão sobre o futuro da educação ao longo da vida, desde o nascimento à morte. A doença intrometeu-se mas a força e o entusiasmo eram grandes. Ainda não acredito que não verá a sua projeção. E muito mais havia para assinalar.
Sobre as suas publicações e tanto que escreveu e registou deixo o desafio para que se estude e publique. Ficaríamos muito mais ricos. Nos últimos dois dias da sua vida a Maria Emília, cidadã do mundo, a Teresa Paixão e eu tivemos momentos tão bons de conversa sobre os projetos que ainda tinha…
Verei sempre a Maria Emília a avançar para o mar a que não resistia, nos Açores e cá.
Todos disseram que ficamos mais pobres… mas é mesmo verdade.
NOTA: Este texto foi lido pela sua autora, Ana Maria Bettencourt, na cerimónia de homenagem que teve lugar durante o velório de Maria Emília Brederode Santos, em Lisboa, na Igreja de Santo Condestável, a 13 de abril de 2026.






