Skip to content

Tribuna

Tribuna é uma secção de Em Causa onde publicamos Cartas Abertas e tomadas de posição de cidadãos e organizações sobre questões relevantes da actualidade.

“Não há futuro sem um imaginário de esperança”

Discurso de António Sampaio da Nóvoa em agradecimento pelo Doutoramento Honoris Causa concedido no dia 10 de Junho de 2026 pela Universidade de Vigo
António Sampaio da Nóvoa

Em 1996, a pedido do então Reitor da Universidade de Lisboa, desloquei-me a São Paulo para entregar as insígnias de Doutor Honoris Causa a Paulo Freire, que já não podia viajar. No seu discurso, explicou que era um Doutoramento que lhe fazia falta, por ser de uma universidade portuguesa, e de Lisboa.

Sinto-me como Paulo Freire. Este Doutoramento fazia-me falta, por ser de uma universidade da Galiza, e de Vigo, a cidade mais próxima da minha terra – Valença, do rio Minho.
___

Foram muitas as andanças da minha vida. Errâncias. Porque quem não erra, nunca encontra. Imagino-me parte da “terceira margem do rio”, esse lugar único, híbrido, que leva as histórias para o mar e as lava nas ondas. “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (João Guimarães Rosa).

Todos os caminhos me conduzem ao ponto de partida – a cultura galego-portuguesa, raiana, transfronteiriça, onde me comecei.

Gosto de me sentir goliardo, romeiro, vagamundo. Nunca tive jeito para trovador. Mas dediquei-me ao contrabando, a ser “contra o bando”, a procurar maneiras diferentes de estar na vida, na universidade, na cidade. Sei que fiquei aquém. Ficamos sempre aquém. “Entanto nada foi só ilusão! / De tudo houve um começo…e tudo errou…” (Mário de Sá-Carneiro).
___

Darcy Ribeiro agradeceu o Honoris Causa da Sorbonne afirmando que aquela distinção não se devia a qualquer mérito pessoal, mas constituía antes uma consolação pelos seus “muitos fracassos”. Como antropólogo. Como ministro da Educação. Como político e homem de governo. Como reitor. Dirá, mais tarde, que fracassou, mas que horrível mesmo teria sido ficar ao lado daqueles que o venceram.

Não tenho a imodéstia de Darcy Ribeiro. Orgulho-me de pertencer a uma geração que venceu as lutas pela liberdade; que revelou uma profunda consciência social e planetária; que alertou para os perigos ecológicos, nucleares, armamentistas, demográficos, digitais; que denunciou a concentração extrema da riqueza, o agravamento das desigualdades, as violações dos direitos humanos.

Fizemos bem. Agimos bem. Mas, sem nos apercebermos, fomos anunciando aos mais jovens um futuro pior do que o nosso. Esquecemo-nos de uma condição essencial da existência humana: não há futuro sem um imaginário de esperança. E foi aí que falhámos. E falhámos muito.

Deixámos esse imaginário nas mãos de “monstros” – mercadores de ilusões, profetas tecnológicos, demagogos sem pudor – que prometem tudo a todos, indiferentes à verdade: a paz perpétua, uma vida nova (talvez em Marte), o fim da pobreza e da fome, a cura de todas as doenças, até mesmo a imortalidade… Muitos acreditam, sobretudo os mais jovens, não porque sejam ingénuos, mas porque ninguém suporta viver sem esperança. Sim, acreditamos, mesmo quando sabemos, no mais íntimo de nós, que essas promessas são um embuste, um engano, uma mentira.

É esta a razão por que não podemos apenas denunciar. Há quase mil anos, as cantigas medievais, na nossa língua comum, já evocavam os bons tempos do passado e lamentavam as misérias do presente, como nesta de Martim Moxa: “Vej’avoleza, maleza, per sa soteleza, o mundo tornar” [Vejo a vileza, e a maldade, com a sua subtileza, transformar o mundo.]
___

Não basta denunciar. Temos também de enunciar, de propor, de criar, de construir. Não se trata de vender ilusões, mas de erguer uma esperança douta, esclarecida, capaz de enfrentar a realidade sem nunca ceder à fatalidade.

“Se eu vir alguém com fome, desamparado na rua, não lhe darei um pão, mas meio pão”… e uma esperança.

Se não formos capazes de recuperar, para nós, os imaginários de futuro, se não nos soubermos reinventar, perderemos a humanidade que ainda nos resta.

É esta a nossa tarefa maior – na educação, na universidade: construir com os jovens (com eles, não por eles) novas possibilidades, afastando as ilusões, sem abdicar da esperança. Só assim devolveremos aos mais jovens aquilo que nunca lhes deveríamos ter retirado: a esperança num futuro melhor.
___

“¡Os tempos son chegados!” (hino galego), também para mim. Quero dedicar as viagens que ainda me faltam a uma única causa: alargar a humanidade nas nossas vidas.

• Na cultura, procurarei fazê-lo a partir de Valença, neste lugar em que estamos – a raia galego-portuguesa – na qual as fronteiras se dissolvem numa memória, numa língua e numa cultura partilhadas.

• Na educação, recusando que se apague a fronteira entre o humano e a máquina, entre o natural e o artificial. A educação é um bem comum. É uma relação. É um encontro entre gerações. Ninguém se educa sozinho. Precisamos dos outros, dos nossos colegas, dos nossos professores. Precisamos da palavra, da presença, do exemplo. Educar não é apenas obter resultados – tarefa em que as máquinas talvez nos venham a superar. Educar é valorizar o caminho que conduz aos resultados: a procura, a dúvida, o estudo, o trabalho conjunto, a reflexão, a disciplina, a descoberta. Talvez chegue o dia em que seja possível comprar ou alugar «inteligência» na intenet. Mas ninguém poderá comprar “educação”. Porque aquilo que nos educa não é o produto, é o processo; não é a resposta, é a experiência que nos transforma enquanto a procuramos.

• No ensino superior, lutando para preservar aquilo que constitui a “alma” das universidades. Nas últimas décadas, deixámo-nos colonizar por linguagens e critérios importados de outros mundos – da gestão, das empresas, do empreendedorismo. Aceitámos submeter-nos a métricas “quantofrénicas” e a um produtivismo insensato que desvaloriza o ensino, sufoca a curiosidade, anula a criação e despreza a investigação sem utilidade imediata: precisamente aquela investigação livre e desinteressada que, quase sempre, é a mais transformadora, aquela que verdadeiramente altera o curso da história.

A grande utilidade das universidades consiste em serem diferentes. Diferentes das empresas. Diferentes dos mercados. Diferentes das restantes instituições. A sua missão é habitar outro tempo e habitá-lo de outro modo. Se as universidades persistirem em assemelhar-se às demais instituições, perderão a sua singularidade. E, nesse dia, tornar-se-ão dispensáveis.

Eis o que me traz à liberdade, essa liberdade que temos perdido nas métricas, nas burocracias, nas prestações de contas, num dia a dia de urgências sem a calma do tempo.

Como Reitor da Universidade de Lisboa, adoptei para mim uma frase de Bernardino Machado, professor universitário e Presidente da República, derrubado pela Ditadura Militar há precisamente um século. É a minha forma de assinalar o Dia de Portugal. Disse no princípio do século XX: “Uma universidade deve ser escola de tudo, mas sobretudo de liberdade”. Sobretudo de liberdade. Nestas três palavras está tudo o que deve ser uma universidade.
___

Alargar a humanidade nas nossas vidas. Na cultura, na educação, na universidade. E também no compromisso cívico. Cada vida mede-se tanto pelo que realizou como pelo que deixou de realizar; tanto pelas palavras que disse como pelas que ficaram por dizer.

Um astrofísico munido dos mais sofisticados instrumentos de medição sabe que a velocidade de rotação da Terra se altera, ainda que impercetivelmente, se existir uma pessoa a mais ou a menos no mundo. É nessa diferença mínima, ínfima, invisível, que reside uma das mais belas lições do humanismo: nenhuma vida é irrelevante. Todas as histórias contam.

É nesta convicção que assentam os Direitos Humanos. Os que foram inscritos na Declaração de 1948. E também aqueles que o nosso tempo nos obriga a acrescentar:

– Os direitos da Terra, numa visão mais do que humana da humanidade, dando-nos a responsabilidade de agir – como escreveu Ailton Krenak – para “adiar o fim do mundo”;

– Os direitos do acesso livre e público ao digital, condição cada vez mais decisiva para a nossa existência, participação e cidadania;

– Os direitos da mobilidade, de cada ser humano poder viver para além das fronteiras em que nasceu;

– Os direitos da diversidade, de cada pessoa assumir livremente, sem discriminações, a sua identidade e o seu modo de vida;

– Os direitos da vida longa e das gerações futuras, num tempo em que a coexistência de quatro, cinco ou mesmo seis gerações se tornou uma realidade inédita da história humana.

No fundo, todos estes direitos são maneiras distintas de responder à mesma pergunta: como alargar a humanidade nas nossas vidas?

(Volto ao tema central que escolhi para partilhar convosco: os jovens. A coexistência de várias gerações, sentada à mesma “mesa”, é uma das mais extraordinárias transformações do nosso tempo. Mas levanta uma questão crucial: quem deve decidir sobre o futuro? Por isso, é tão importante garantir aos jovens não apenas voz, mas poder efetivo de deliberação sobre o mundo que também lhes pertence e lhes pertencerá ainda por mais tempo.)

Não consigo imaginar causa mais urgente nem tarefa mais digna – lutar pelos direitos humanos, a começar pelo primeiro de todos os direitos: o direito de ter direitos. E pela primeira de todas as obrigações: a obrigação de lutar pelos direitos dos outros. É aí que começa a liberdade. Não a liberdade do isolamento ou da indiferença, mas a liberdade livre, liberta e libertadora.
___

Quero deixar um agradecimento profundo e sentido à Universidade de Vigo e a todas as pessoas que hoje quiseram estar aqui. Juntas. Comigo.

A melhor maneira de o fazer é recorrendo a António Lobo Antunes, um dos grandes escritores do nosso tempo, falecido há apenas 98 dias. Quando recebeu o Doutoramento Honoris Causa das minhas mãos, na Universidade de Lisboa, contou que um dia José Cardoso Pires lhe telefonou e disse: “António, quero dar-te os parabéns porque eu ganhei um prémio”. É uma extraordinária declaração de amizade e de gratidão. “Quero dar-te os parabéns porque eu ganhei um prémio.”

Também eu vos quero dizer o quanto estou grato por esta distinção. Grazas. Obrigado, no sentido mais fundo da palavra. Porque me sinto obrigado. Obrigado perante todos aqueles que me ajudaram e acompanharam na vida. Obrigado perante os jovens, que quis colocar no centro do meu discurso. Obrigado perante a universidade, a liberdade e os direitos humanos.

É uma obrigação feliz. A obrigação de continuar a fazer tudo o que estiver ao meu alcance para alargar a humanidade nas nossas vidas.
___

Termino com palavras de Cruzeiro Seixas, esse extraordinário surrealista que pertencia à minha família de Valença: “Agora tudo o que quero é morrer em pleno voo, indignado, insubmisso, em vez de me arrastar pela vida, no desânimo e no desespero”.

É difícil imaginar melhor programa para continuar a vida.

Muito obrigado.

Gosta de se queixar da invasão de comentadores de direita e extrema-direita na imprensa escrita, na TV e nas redes online? Faça alguma coisa para mudar o panorama.

O site emCausa é propriedade da Causa Pública, uma associação sem fins lucrativos, sem fortuna e sem financiadores milionários. Dependemos dos donativos e contribuições dos nossos leitores.
Se quiser continuar a usufruir dos nossos artigos e outros materiais e ajudar-nos a crescer faça uma contribuição pontual ou regular.

Apoie o emCausa. Em causa está a diversidade de perspectivas e a multiplicação das vozes progressistas no panorama mediático português.

Discurso de António Sampaio da Nóvoa em agradecimento pelo Doutoramento Honoris Causa concedido no dia 10 de Junho de 2026 pela Universidade de Vigo
Discurso de António Sampaio da Nóvoa em agradecimento pelo Doutoramento Honoris Causa concedido no dia 10 de Junho de 2026 pela Universidade de Vigo

RECENTES

CATEGORIAS